E se o afeto não estiver estragando nossas crianças?

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Naquela manhã, a aula começou antes de a aula começar.

A menina entrou na sala com a mochila pendurada em um ombro só, o cabelo desalinhado e uma expressão que parecia ter chegado antes dela. Sentou-se, abriu o caderno e ficou olhando para a folha em branco. Não era exatamente tristeza, não era raiva, era alguma coisa entre as duas, aquele território nebuloso em que a criança ainda não encontrou palavras para explicar o que o adulto gostaria que ela explicasse imediatamente.

Bom dia classe! eu disse.

Ela foi a única que não respondeu.

Aproximei-me.

— Está tudo bem?

Um movimento quase imperceptível de cabeça disse que não. Se fosse em outra época, talvez eu teria apontado para o caderno e deixaria a conversa para depois.

Mas o tempo de sala de aula ensina certas coisas que nenhum curso consegue ensinar por inteiro. Às vezes, antes de ensinar a multiplicação, é preciso descobrir por que alguém não consegue sequer segurar o lápis, e então sentei ao lado dela.

Ela demorou alguns segundos e, finalmente, falou baixinho… “Eu não dormi direito!”

Não perguntei imediatamente por quê, algumas histórias precisam de tempo para sair, então ficamos ali por alguns instantes. Depois ela falou mais, porque os alunos contam tudo, havia preocupação em casa, cansaço, havia coisas que criança nenhuma deveria precisar organizar sozinha.

Quando terminou, perguntei a ela se conseguiria realizar a atividade com minha ajuda, ela assentiu.

Foi então que alguém, passando pela porta, soltou a frase que atravessa escolas há gerações, sempre com a segurança de quem acredita ter descoberto a fórmula definitiva da infância.

— Desse jeito, passando a mão na cabeça, essa criança vai ficar mimada!

Talvez você conheça essa frase, ela tem alguns parentes próximos como: “No meu tempo era diferente”, “criança precisa aprender na marra”, “se der muito carinho, monta em cima”.

É curioso como certas opiniões sobrevivem ao tempo com mais resistência do que alguns móveis da escola pública.

Mas há uma confusão importante escondida nessa conversa, porque acolher não é sinônimo de mimar, afeto não é ausência de limites e vinculo não é autorização para a criança fazer tudo o que quiser.

Uma criança pode ser abraçada e, cinco minutos depois, ouvir um “não” do mesmo jeito que pode ser compreendida e ainda precisar reparar aquilo que fez.

Ela precisa ter sua tristeza respeitada e, mesmo assim, ser chamada à responsabilidade. Aliás, talvez uma das tarefas mais difíceis de um professor seja justamente essa de conseguir dizer “não” sem transformar o “não” em rejeição.

Porque limite sem vínculo pode virar apenas controle e afeto sem limite pode virar permissividade.

A criança precisa das duas coisas importantíssimas, a margem e a água. A margem não existe para impedir o rio de correr, ou seja, existe para ajudá-lo a encontrar direção.

Na sala de aula, os limites cumprem função parecida. Há regras, horários, combinados, consequências, responsabilidades, momentos em que o professor precisa interromper uma atitude, separar dois alunos, pedir silêncio, exigir que uma atividade seja concluída.

Nada disso desaparece porque existe afeto, pelo contrário. Talvez a criança aceite melhor uma correção quando sabe que está sendo corrigida por alguém que continua acreditando nela.

Esse detalhe parece pequeno, mas não é.

A escola recebe crianças, mas nunca recebe apenas crianças, junto sempre vem mochilas e histórias. Recebe o menino que não tomou café e a menina que dormiu mal. Alunos que chegam radiantes de alegria porque ganhou um irmãozinho e outros que estão angustiadas por uma briga de seus pais. São muitas histórias, saudades, crianças que não sabem dizer que está com medo e, por isso, transforma medo em irritação, que não consegue explicar a ansiedade e começa a cutucar o colega, que não quer fazer a atividade porque, naquele dia, fracassar diante dos outros parece insuportável. Consegue entender, o comportamento de uma criança pode ser um pedido de socorro.

Nem sempre sabemos imediatamente o que ele está dizendo, mas talvez educar seja, em parte, aprender a escutar aquilo que ainda não encontrou palavras.

E como tudo isso acontece enquanto a escola segue funcionando, o sinal toca, alguém chora, outros discutem, criança que machucou no intervalo, coordenador cobrando. O computador resolve não colaborar justamente no dia em que precisamos dele, e aí o professor respira fundo, olha para o relógio e pensa, com a serenidade possível… “Hoje talvez a aula seja outra.”

Os documentos oficiais falam, corretamente, em desenvolvimento integral, convivência, competências socioemocionais, respeito, empatia, autonomia tudo lindo e organizado no papel, mas, na vida real, a criança não chega em tópicos ela chega inteira e isso significa também contraditória, imprevisível, cansada, alegre, impulsiva, carinhosa, agressiva, insegura, curiosa.

O problema é que a escola contemporânea frequentemente tenta registrar aquilo que é difícil de registrar.

Comportamentos viram relatórios, conflitos ocorrências, desenvolvimento vira tabela e vinculo se torna formulário.

Enquanto isso, algumas das aprendizagens mais importantes acontecem justamente nos minutos que não estavam previstos no planejamento no exato momento em que um professor que se abaixa para olhar nos olhos de uma criança e estende a mão. Pequenas frases colocadas da maneira correta podem fazer a diferença.

Um “eu entendo que você está bravo, mas não pode bater”, “você errou, mas pode tentar de novo”, “eu continuo aqui, mas você precisa consertar o que fez”.

Essas frases podem não aparecer na apostila, não cabem em planilhas, mas ficam.

E professor sabe disso porque carrega, junto com o conteúdo que ensina, uma coleção silenciosa de pequenos acontecimentos que ninguém avalia.

Também não somos feitos de uma paciência infinita, há dias em que o professor está cansado, dias em que a última coisa que gostaria de fazer é mediar mais uma discussão.

Dias em que precisa respirar antes de responder para não dizer aquilo que o cansaço está sugerindo.

Professor não é personagem de propaganda escolar não, tem limites, problemas, contas, preocupações, mas, ainda assim, precisa ser referência para alguém que talvez esteja vivendo um dos dias mais difíceis de sua pequena vida.

É uma responsabilidade enorme e por isso, quando falamos em vínculo, não estamos falando de transformar o professor em amigo da criança.

Professor não precisa abandonar sua autoridade para ser afetivo, para com esse negócio de que autoridade e afeto não são adversários. Eles são materiais da mesma construção.

O professor que acolhe não deixa de conduzir, o que esculta não deixa de corrigir e o que compreende não deixa de cobrar.

É possível dizer eu gosto de você e, justamente por isso, não vou deixar que você machuque o outro.

Talvez essa seja uma das formas mais bonitas de autoridade, porque educar não é apenas impedir comportamentos inadequados é ajudar a criança a compreender o que fazer com aquilo que sente.

E isso leva tempo.

Nenhuma planta cresce porque alguém gritou para ela crescer mais depressa, o jardineiro não puxa o caule para acelerar o desenvolvimento. ele oferece água, luz, proteção, poda quando necessário e espera.

Criança também precisa de condições, o afeto é um tipo de solo e o vínculo é uma ponte.

A escola pode ser um porto seguro sem deixar de ser lugar de desafios. Aliás, talvez seja justamente porque existe um porto que conseguimos enfrentar melhor o mar.

Ainda assim, persiste a pergunta e se estivermos confundindo autoridade com distância? E se estivermos chamando de “mimo” aquilo que é apenas presença?

E se algumas crianças que parecem precisar de mais disciplina estiverem, em determinados momentos, precisando de um adulto que permaneça por perto enquanto aprendem a lidar com os próprios limites?

Não se trata de dizer sim para tudo, trata-se de não fazer a criança acreditar que, quando ela erra, deixa de merecer respeito.

A educação talvez aconteça nesse espaço delicado entre a firmeza e a ternura.

Entre o “você não pode” e o “eu continuo aqui”.

Naquele dia, a menina terminou parte da atividade, não fez tudo.

Não saiu da sala transformada em exemplo de produtividade, mas, antes do sinal, fechou o caderno e perguntou:

— Amanhã você vai estar aqui?

Respondi que sim.

Ela sorriu.

Talvez tenha sido uma das maiores respostas que aquela manhã poderia oferecer.

Porque uma criança não aprende menos por ter sido acolhida, às vezes, ela aprende justamente porque, por alguns minutos, sentiu-se segura o bastante para tentar.

E talvez seja essa a parte que mais nos desafia, compreender que educar não é escolher entre autoridade e afeto, como quem escolhe entre duas portas.

É aprender a construir uma terceira.

Uma porta onde exista firmeza sem crueldade, carinho sem permissividade, responsabilidade sem humilhação.

Afinal, que tipo de adulto estamos formando quando ensinamos uma criança a obedecer antes de ensiná-la a compreender?

E, quando ela finalmente errar, cair, frustrar-se ou não souber o que fazer com aquilo que sente, será que terá aprendido apenas a temer o limite, ou terá encontrado, dentro dele, alguém que permaneça por perto?