Direito e Cinema – take 28: Harry Potter: o herói, a política e o direito

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Harry, Ron e Hermione em "Harry Potter e os Talismãs da Morte - Parte 1" | ©Canal Hollywood

                      Bruno Arena

De pronto os leitores já se perguntarão: “o que de jurídico ou político poderia ser extraído do filme do Harry Potter”? Façamos algumas reflexões.

No último domingo, dia 21 de novembro, foi relançado o filme “Harry Potter e a pedra filosofal”, em comemoração aos 20 anos desta primeira película da franquia que rendeu alguns milhões à Warner Bros.

Baseado no primeiro livro da série de sete da escritora J.K. Rowling, traz a descoberta, por Harry, do mundo mágico paralelo ao mundo dos “trouxas” (não bruxos) e seu ingresso na escola de magia de Hogwarts (cenário, no filme, do castelo de Alnwick na Inglaterra).

Este é o enredo já conhecido, assistido, lido e relido (várias vezes) por muitos fãs. Mas o que levou então, no último domingo, à maior receita diária dos cinemas brasileiros destes dois últimos anos pandêmicos? Mesmo após duas décadas de seu lançamento? Por certo não foi a novidade da história contada, mas sim a magia da reunião de pessoas em torno de um herói inspirador.

Muitas vezes me perguntam em entrevistas o que eu acho da concorrência que o streaming inaugurou em relação aos cinemas. Sempre respondo que não creio que seja um concorrente. Esta foi a mesma pergunta que os cinemas se fizeram quando surgiram a televisão, o vídeo cassete, o DVD, etc., e o cinema resistiu por se focar na qualidade de som e imagem.

Mas tem mais um motivo: só ali é possível reunir pessoas em torno de uma produção cinematográfica; ali é possível carrear afetos coletivos; só ali é possível gritar e salvar de palmas quando a Grifinória ganha a taça das casas contra a Sonserina.

Aristóteles, muitas vezes mal interpretado, disse há 2500 anos que o ser humano é um animal político, ou seja, um animal feito para ser gregário e viver em comunidade; muitas vezes é confundido com: “o ser humano é feito para se candidatar”. Conviver com pessoas é atuar politicamente e faz parte da nossa natureza, segundo o filósofo. E este é o aspecto político do cinema: a reunião de pessoas.

Pois bem, retomemos algo de nossa coluna passada sobre o filme “Marighella”. Todos sabemos que houve várias exibições do filme, com a presença do diretor Wagner Moura, em alguns movimentos sociais e assentamentos como os do MST. E ele foi perguntado, por que não lançou o filme antes, no streaming, mas sim resolveu aguardar 2 anos pelo lançamento nos cinemas brasileiros, e a resposta é política: só no cinema é possível se reunir e dar ânimo aos movimentos de oposição ao atual governo do Presidente Bolsonaro.

Não é sem propósito que ao longo da história, ao assumir o poder, uma das primeiras medidas de ditadores é a proibição do direito fundamental de reunião; penso que, ainda que se pense em uma militância digital, a ação efetiva no mundo real só se dará a partir da agregação de pessoas. O digital me parece ainda, apenas um meio.

E o aspecto jurídico? Respondo baseado na obra do filósofo italiano Antônio Negri, chamada “Poder Constituinte”. O Direito é freio à política em um Estado Democrático de Direito. Busca regrar direito de reunião, de manifestação, de atuação dos partidos políticos e maneiras de se chegar ao poder. O (anti) herói/fora da lei, por natureza, buscará não se submeter às amarras jurídicas, baseando-se em suas próprias virtudes e atuações políticas: nosso bruxo Harry Potter não se submete às regras da escola e com base em sua coragem (virtude) salva seus amigos, derrota monstros, luta contra bruxos das trevas ao mesmo tempo que junta seguidores pelas suas causas.

Pragmaticamente, como última reflexão, por que o herói é tão impactante? A psicologia chama de “Mito do herói”. Porque ele se torna espelho para seus admiradores, que querem ser como ele; isso traz consequências boas e ruins: a boa é que o herói inspira e traz ânimo; a ruim é que seus asseclas poderão não assumir a sua devida parcela de responsabilidade na construção coletiva da sociedade, ficando inertes a esperar um “camisa 10” ou um Sebastião que resolva a toque de mágica todas as mazelas do nosso Brasil. Infelizmente isso só é possível no mundo mágico de Harry Potter.

Bruno ArenaMestrando em Direito pela Universidade de Salamanca (Espanha). Advogado. Instagram @adv.brunoarena. Embaixador Cultural da ACILBRAS. Contato (21) 98337-1838