Alberto Martins Cesário, professor e escritor
— Vamos, menino… Já terminou?
O aluno não respondeu, continuou olhando para o caderno como quem encara um problema de Estado. Na folha, uma conta de multiplicação ocupa três linhas, o lápis está entre os dedos, parado. Ele apaga alguma coisa, escreve outra, torna a apagar, ao lado, há uma borracha que já parece ter trabalhado mais do que muita gente.
— Mais rápido! Os outros já fizeram.
Ele olha para os colegas, alguns já guardaram o lápis, um deles está balançando a cadeira e outro desenha alguma coisa no canto da folha. O professor olha o relógio.
Eu também olho, e é nesse momento que percebo uma coisa incômoda, que talvez o relógio seja o aluno mais obediente da escola. Ele nunca se atrasa, nunca pede mais cinco minutos, nunca precisa de explicação novamente. Apenas avança e nós, adultos, quase sempre avançamos com ele.
A criança finalmente escreve o resultado e entrega para o professor. Está errado! Ele olha e pede para tentar novamente.
Tentar de novo? Uma pergunta pequena, mas há dias em que uma pergunta pequena consegue fazer um professor pensar durante a tarde inteira.
Posso tentar de novo?
Claro que pode, mas será que nós, adultos, temos permitido que as crianças tentem de novo?
A escola conhece bem a palavra “tempo”. Há o tempo da aula, o tempo do recreio, o tempo do intervalo, o tempo do calendário, o tempo da avaliação, o tempo de fechar notas, o tempo de registrar, o tempo de cumprir o conteúdo. Existe até o tempo previsto para aquilo que, curiosamente, não sabe que existe um relógio.
Aprender.
Aprender é uma coisa inconveniente para quem gosta de cronogramas, porque uma criança pode compreender uma palavra em dez segundos enquanto outra precisa de dez explicações. Um aprende apenas olhando, o outro precisa mexer e assim a aprendizagem acontece de várias formas, por repetições, pelo silencio, há quem descubra uma ideia enquanto desenha no canto da folha e tem aquele que precisa errar cinco vezes até que alguma coisa faça sentido.
E há aquela criança que olha pela janela durante alguns segundos e parece não estar fazendo absolutamente nada, talvez esteja pensando, talvez sonhando, não sabemos o certo o que se passa dentro de sua mente.
Mas nós nos acostumamos tanto a ver movimento que confundimos silêncio com distração, também nos acostumamos a esperar por resultados imediatos que ficamos aflitos… Será que fulano já lê, será que já está escrevendo! Nesta idade já era para estar resolvendo isso sozinho.
A infância, de repente, ganhou uma espécie de campeonato brasileiro. Só faltam as tabelas de classificação na porta da sala, primeiro lugar em leitura, segundo em matemática, terceiro em letra cursiva, artilheiro de tabuada.
É engraçado, se não fosse triste.
Passamos boa parte da vida adulta reclamando da competitividade do mundo e, quando percebemos, estamos comparando crianças que ainda deveriam estar descobrindo que cada uma tem seus próprios passos., não é importante quem chega primeiro ou que chega depois, isso não é sinônimo de que um esteja vivendo uma infância melhor do que a outra, mas, nos adultos temos pressa.
Talvez porque também tenhamos medo, muitos pais e mães acordam de manhã pensando em apressar os filhos, acredito que pensam em protegê-los e querem que aprendam, que tenham oportunidades, que estejam preparados para um mundo cada vez mais exigente. Quem pode culpá-los?
Eu não.
Já conversei com pais preocupados porque o filho ainda não lê com a fluência esperada, vi a ansiedade no rosto de quem pergunta sobre nota preocupados se a criança esteja acompanhando a turma, antes mesmo de perguntar se ela gostou da escola naquele dia.
Acompanhando a turma? uma pergunta parece simples, mas, às vezes, eu me pergunto, acompanhando quem?
A turma, o calendário, a expectativa, o filho do vizinho, o aluno que ele foi ontem, são tantas opções que não vemos que enquanto nos preocupamos com isso deixamos de observar que a criança chaga cansada à escola.
Acordou cedo, talvez tenha dormido pouco, pegou transporte, esperou, atravessou ruas, ouviu conversas de adultos que não compreendeu inteiramente. Passou horas diante de telas, fez atividades, teve compromissos. Talvez tenha simplesmente tido um dia ruim, porque crianças também têm dias ruins, embora pareçamos esquecer isso quando abrimos o caderno de atividades.
E então pedimos que elas se concentrem, que caprichem, que sejam rápidas em terminar a atividade para passarmos para a próxima.
Sempre a próxima.
A infância parece ter sido transformada em sala de espera para o futuro, onde a criança aprende para o próximo ano, depois para a próxima etapa, depois para a prova, o vestibular, a profissão, o mercado de trabalho.
E, nesse enorme treinamento para chegar ao amanhã, às vezes esquecemos de perguntar o que está acontecendo hoje.
Certa vez, uma criança demorou quase toda a aula para terminar um desenho, não era uma atividade complicada, era apenas um desenho.
Eu poderia ter dito que precisava acelerar, e quase disse, pois, o relógio estava ali, como sempre, fazendo seu trabalho silencioso de me lembrar que havia outras coisas a cumprir.
Mas fiquei olhando. Ela apagou uma parte, refazendo, mudou o cabelo da personagem, depois mudou o céu, acrescentou uma árvore, ficou alguns segundos olhando para a folha e disse: “agora está bom”.
Perguntei o que ela tinha desenhado, ela respondeu com um sorriso que era a casa dela quando ela ficasse grande. Não havia pressa naquele desenho, era eu que estava com pressa. E talvez essa seja uma das partes mais difíceis de admitir para nós, professores que também participamos da engrenagem.
Já apressamos uma criança, dizendo para ela acelerar justamente quando o que ela precisava era de apenas mais um minuto. Quantas vezes olhamos para o relógio enquanto o aluno estava tentando entender o comando dado.
Isso acontece, não porque sejamos indiferentes, mas, justamente porque também estamos tentando dar conta.
Há conteúdos, avaliações, registros, reuniões, planejamentos, relatórios, calendários, cobranças. Existe uma escola real acontecendo dentro da escola ideal que aparece nos discursos.
Falamos em protagonismo, aprendizagem significativa, desenvolvimento integral e respeito aos ritmos.
Depois o calendário nos olha de volta e diz que precisamos dar conta de terminar o conteúdo e lá vamos nós, professores, tentando fazer caber o tempo da infância dentro do tempo administrativo.
Às vezes conseguimos, mas às vezes não.
O recreio também sabe disso.
Há crianças que mal terminam de comer quando o sinal toca novamente. O sinal, aliás, talvez seja o adulto mais autoritário da escola, não importa se você está no meio da conversa, da brincadeira ou daquele almoço que levou a manhã inteira para comer. Ele toca.
Acabou…
A vida moderna gosta dessas palavras, acabou, próximo, rápido, produza, entregue, avance… Curiosamente, exigimos que as crianças aprendam a esperar, mas ficamos impacientes quando elas demoram para amarrar o próprio tênis, queremos que saibam lidar com a frustração, mas nem sempre suportamos vê-las errar. Ensinamos autonomia, mas frequentemente fazemos por elas aquilo que levariam alguns minutos para aprender sozinhas.
Queremos crianças preparadas para a vida e talvez estejamos tão preocupados em prepará-las para viver que, sem perceber, estejamos deixando pouco espaço para que vivam.
Não se trata de romantizar a infância.
Criança precisa aprender, precisa de limites, responsabilidades, esforço, elas precisam descobrir que nem tudo acontece na hora que deseja, necessitam enfrentar dificuldades e persistir.
Mas persistir não é correr, pois, nem sempre quem chega primeiro aprendeu. Uma planta não floresce porque alguém puxa suas folhas e uma história perde alguma coisa quando pulamos páginas para descobrir logo o final.
Talvez com a infância aconteça o mesmo. Há coisas que só aparecem quando damos tempo.
A confiança, curiosidade, uma pergunta que não estava prevista, o erro que finalmente ensina. Naquele dia, o aluno apagou novamente a multiplicação. Respirou, fez outra conta no canto da folha, depois olhou para mim.
Eu disse, dessa vez você acertou.
Ele não foi o primeiro da sala e nem precisava ser. Quando a aula terminou, ele guardou o caderno devagar, os outros já estavam no corredor, o sinal havia tocado.
Eu poderia ter mandado que se apressasse, não mandei. Fiquei ali, vendo aquele menino fechar a mochila com a solenidade de quem acabara de vencer uma batalha que só ele conhecia.
A sala foi ficando vazia, o relógio continuava funcionando.
Naturalmente, ele não sabe que crianças não são ponteiros, nem que algumas das coisas mais importantes que aprendemos na vida não cabem no horário de uma aula.
Talvez o problema não seja que nossas crianças estejam aprendendo devagar demais. Acredito que nós, adultos, tenhamos aprendido a correr tanto que já não sabemos mais reconhecer quando alguém simplesmente está caminhando.
E talvez seja essa a pergunta que deveríamos fazer antes de olhar novamente para o relógio… Em que momento começamos a ensinar às crianças a pressa, antes mesmo que elas descobrissem para onde estavam indo?





