SOBRIEDADE JÁ – O SÓBRIO É O EQUILIBRISTA…

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Tenho certeza que de cara você percebeu essa brincadeira que eu fiz com o nome do nosso artigo de hoje; uma associação com o nome da música, um clássico da Música Popular Brasileira, que se chama “O Bêbado e a Equilibrista”, uma música muito conhecida de Aldir Blanc, que infelizmente faleceu recentemente, vítima de COVID 19, e de João Bosco, e que ficou imortalizada na voz principalmente da Elis Regina.

Mas eu faço aí somente uma brincadeira mesmo com o nome, porque o sentido que quero dar é bem diferente. Aqui estou afirmando que o sóbrio é o equilibrista.

A maioria de vocês já sabe, já citei aqui nesse espaço algumas vezes, que desde 2005 estou à frente da Comunidade Terapêutica Novo Sinai e em paralelo ao tratamento que é feito na nossa associação, nós criamos também um projeto de prevenção. Quando foi para escolher um nome para esse projeto, me veio claramente essa ideia: “Sobriedade Já”, que inclusive deu o nome ao programa que fiz na TV BAND Paulista e hoje dá nome também a um programa em formato de áudio que é veiculado em várias rádios da nossa região e em outros estados também, como também nesse espaço aqui Jornal.

Dentro do “Sobriedade Já”, nesse “Já” quero deixar claro a ideia de imediato, de urgência; do “Já”, do “agora”, eu sei que é clichê repetir, mas, nós só temos o agora; o ontem e amanhã não existem.

Mas, e o “Sobriedade”? Dentro de uma visão mais rasa e mais rápida, a maioria das pessoas acaba por definir sobriedade como ausência de drogas, e ou de álcool na vida de alguém. E é aí que está o engano: sobriedade vai além dessa abstinência. Nesses anos todos convivendo com pessoas diferentes, com histórias das mais variadas, fica cada vez mais claro para mim que existe muita gente por aí que de repente nunca usou nenhum tipo de droga, talvez até nem tenha ingerido uma gota de álcool, mas passa longe de ter uma vida sóbria.

Uma vez fui convidado para ir a Brasília falar sobre dependência química no Congresso Nacional. Lembro que deixei bem claro essa ideia de sobriedade; eu disse aos senhores deputados e senadores, que talvez ali naquele local não existisse ninguém que fosse usuário de drogas, mas que eu não tinha certeza de que todos que estavam ali eram sóbrios. E olha, sinceramente isso pode ser repetido em qualquer ambiente, sejam grupos de classes, grupos cheios de preconceitos, grupos de religiosos, isso é uma verdade. Com certeza terão pessoas ali nestes meios que não usaram drogas, não bebem, mas não vivem uma vida sóbria. Eu lembro que terminei minha fala lá em Brasília dizendo assim: “que nestes anos todos com convivência com pessoas que se tornaram dependentes químicos, eu conheci muitos que são pessoas excepcionais. Mas eu também conheci pessoas e você deve conhecer muitos também, que nunca usaram drogas, e me desculpe, mas, não valem nada.” Isso sim diferencia uma pessoa sóbria de outra. Não é o fato isolado do uso ou não.
Para completar: um dependente químico, você pode dizer que ele não está sóbrio. Agora, para uma pessoa que não usa drogas, e seu comportamento é questionável, podemos dizer que essa pessoa não é sóbria.

E essa é a diferença: ser sóbrio e estar sóbrio!

Para mim a plenitude de sobriedade é estar sóbrio, mas também ser sóbrio!

Minha conclusão é de que sobriedade é o mais alto estágio da maturidade humana.

Se juntam várias virtudes: sabedoria, honestidade, verdade, resiliência, paciência. Estas virtudes estão ligadas a essa ideia de sobriedade.

Entre essas virtudes, eu citei verdade. Quem é sóbrio sempre aposta na verdade. Não uma verdade argumentativa, mas de atitude. Lemos frases postadas por pessoas nas redes sociais que exalam sobriedade, mas é estranho porque parece que todo mundo posta para que os outros leem. Você já parou para pensar como o mundo seria muito mais sóbrio se o propósito de quem posta estas frases fosse de se comportar como elas? Mas parece que o propósito maior é criar popularidade e só.

Sobriedade tira muitas culpas futuras, tira embriaguez de pensamentos, palavras com doses ou litros de julgamentos; preconceitos adoecem bem mais do que muitos porres por aí.

Por isso que aqui no Novo Sinai tratamos a pessoa como um todo: não o vício da pessoa, mas a pessoa.

Bom, eu disse que o sóbrio é o equilibrista, talvez você já entendeu, equilibrista porque é aquele que pondera, que conta até três e se precisar conta até dez para reagir, para agir.

Ele tem convicção que faz parte da vida, sorrisos, lágrimas, o quente, o frio, a insegurança, o medo, a euforia… O sóbrio é equilibrista porque pondera, conhece sua significância, mas enxerga também sua insignificância.

Chamo de equilibrista porque o equilibrado não cai. Só que para que ele não caia, ele não pode ficar parado.

Você já observou que tudo que está em equilíbrio, está em movimento? Como aqueles artistas de circo, por exemplo?

Pois é, estar em movimento neste contexto é ter o propósito de avançar na vida intelectual, pessoal, ter sede de verdade, sede de saber mais, se movimentar em direção de coisas novas, ter coragem de se desafiar.

O sóbrio é o equilibrista porque acredita no suficiente; não cria expectativas de sobras e excessos: o suficiente basta! Isso é equilíbrio!

Ele consegue se equilibrar entre escolhas e consequências.

Sabe que existe sim o momento certo das coisas certas. O sóbrio não se importa com o tamanho nem a quantidade dos pedaços, dos fragmentos; ele sabe que é possível, com jeito, juntar todos os pedaços num quebra-cabeça.

Enfim, a falta de sobriedade, penso que seja a maior mentira. Então lembro da afirmação de Jesus quando Ele deu paternidade a mentira, dizendo ser satanás o pai da mentira.

Drogas e bebidas são algumas das armas usadas para tirar a sobriedade. Aparentemente elas dão asas, mas normalmente tiram o céu, e sem céu, mesmo com asas você não poderá voar.

E para terminar, penso que voar seja o estágio mais alto do equilibrista e do sóbrio, porque sobriedade é voar sim, mas voar com a sabedoria de permanecer com os pés no chão.

Por Carlinhos Marques
Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”


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