Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Toda reunião pedagógica começa com uma promessa silenciosa. ela entra pela porta junto com os professores, equilibrada entre uma garrafa de café, uma pilha de cadernos para corrigir e a esperança teimosa de que, desta vez, sairemos dali melhores do que entramos.
Mas a escola tem um talento especial para transformar esperança em ata.
Na semana passada, por exemplo, sentei-me numa dessas reuniões de fim de tarde. O relógio marcava um horário que alguns documentos chamam de “formação continuada”, outros de “HTPC”, mas, que o corpo docente conhece como “a hora em que o cérebro já pediu um tempo”.
A sala estava cheia… cheia de gente e vazia de tempo. A TV iluminava a parede como um sol artificial, nos slides, gráficos coloridos subiam e desciam com a mesma emoção de um eletrocardiograma de robô. Havia porcentagens, indicadores, metas, comparativos e tabelas suficientes para fazer um matemático chorar de emoção, ou de desespero.
Durante quase uma hora discutimos números, os números da leitura, da escrita, da frequência, números dos números.
E eu me peguei pensando em um aluno, sabe, aquele que não estava nos gráficos.
Naquela manhã, ele havia chegado à escola sem material porque a mãe saiu para trabalhar antes do amanhecer e não voltou para casa na noite anterior. Não por abandono, por sobrevivência.
Mas a planilha não possui uma coluna chamada sobrevivência.
Também pensei naquela aluna que lê devagar, não porque tenha dificuldades cognitivas, mas, porque aprendeu cedo que, em casa, quem fala demais escuta gritos.
Sua leitura carrega a cautela de quem pisa em chão rachado. Mas os indicadores não registram cautela, registram desempenho.
Enquanto isso, o slide seguinte surgia triunfante.
Seta para cima, para baixo, meta atingida, não atingida. Era curioso.
Falávamos muito sobre aprendizagem e quase nada sobre aprendizes, muitos comentários sobre resultados e pouco sobre histórias. Falávamos sobre processos e quase nada sobre pessoas.
A certa altura, alguém perguntou:
— O que podemos fazer para melhorar esses índices?
A pergunta era legítima, mas senti vontade de responder com outra pergunta… E o que podemos fazer para melhorar quem está tentando melhorar os índices?
Não perguntei, porque professores aprendem cedo a guardar certas perguntas para sobreviver.
Existe uma ironia delicada nas reuniões pedagógicas, elas nasceram para aproximar pessoas, mas às vezes conseguem afastá-las com uma eficiência admirável.
Em nome da gestão do tempo, perde-se tempo, da qualidade, esgota-se quem produz qualidade, da escuta, multiplicam-se monólogos. É quase uma arte.
Os teóricos da educação costumam escrever sobre escolas como quem observa uma floresta do alto de um helicóptero, lá de cima tudo parece organizado, os caminhos são visíveis, as rotas fazem sentido, as estratégias parecem elegantes.
Aqui embaixo, porém, entre as árvores, há lama, buracos, galhos caídos, crianças reais. E professores tentando encontrar trilhas enquanto carregam o próprio cansaço nas costas.
Nenhum artigo científico me preparou para a professora que chorou no banheiro porque perdeu um aluno para a violência, nenhuma palestra motivacional ensinou como preencher relatórios enquanto se tenta acolher uma criança que chegou à escola depois de uma noite inteira ouvindo os pais brigarem, nenhum gráfico explica o peso de ouvir “bom dia, professor” de uma criança que não recebeu nenhum outro cumprimento carinhoso nas últimas vinte e quatro horas.
Mas seguimos… sempre seguimos.
Talvez porque ensinar seja uma forma sofisticada de insistir, mesmo quando a burocracia transforma professores em digitadores de evidências e os formulários parecem crescer mais rápido do que os livros. Mesmo quando a palavra “resultado” aparece mais vezes do que a palavra “gente”.
E, no entanto, seria injusto dizer que toda reunião pedagógica é um deserto.
Algumas vezes acontece o milagre.
Alguém fecha o notebook, outro larga o protocolo, uma professora compartilha uma experiência, um colega conta uma dificuldade, alguém admite que não sabe e outro oferece ajuda.
E, de repente, a reunião deixa de ser reunião e vira encontro, comunidade se transforma naquilo que que sempre deveria ter sido.
Porque a escola não se sustenta em gráficos. Esses recursos apenas ajudam, mas, as escolas são construídas por seres humanos e seres humanos não cabem em planilhas, nem em relatórios ou indicadores.
Quando a reunião terminou, já era noite, as cadeiras voltaram para seus lugares a TV foi desligada.
As tabelas desapareceram, mas, os professores continuaram ali por alguns minutos conversando no corredor, compartilhando dúvidas, rindo de pequenas tragédias pedagógicas. Dividindo o peso dos dias.
Curiosamente, foi nesse momento, depois da reunião acabar, que a reunião começou a fazer sentido.
E desde então carrego uma inquietação.
Se os melhores encontros da escola acontecem quando os slides terminam e as pessoas finalmente aparecem, será que estamos construindo espaços para educar ou apenas aperfeiçoando maneiras cada vez mais sofisticadas de esquecer quem educa?





