Alberto Martins Cesário, professor e escritor
@alberto.prof
Há alunos que entram na sala antes mesmo de atravessar a porta, costumam chegar pelo comentário da professora do ano anterior, pelo aviso sussurrado no corredor, pela reunião pedagógica, pela ficha cuidadosamente preenchida, pelo olhar de quem entrega a turma como quem passa um bastão em uma prova de resistência.
— Prepare-se… aquele menino dá trabalho.
Curioso como alguns estudantes ganham fama antes mesmo de dizer “bom dia” e tornam-se personagens de uma história escrita por outras pessoas, recebem um rótulo antes de receberem uma oportunidade.
E nós, professores, que juramos conhecer o peso das palavras, às vezes acreditamos nelas rápido demais.
Confesso que já entrei em sala esperando o conflito. Não porque desejasse isso, mas porque a expectativa também educa e, infelizmente, também contamina.
Naquele dia, o planejamento era simples, leitura compartilhada, roda de conversa e produção de texto. Tudo muito bonito no papel, como costumam ser as coisas que ainda não encontraram a realidade.
Bastaram quinze minutos.
Um lápis emprestado virou motivo de discussão, uma cadeira arrastada soou como provocação, um olhar atravessado ganhou proporções diplomáticas e lá estava ele… o “aluno difícil”, exatamente onde todos disseram que estaria.
Ou talvez fosse apenas um menino tentando existir do único jeito que aprendera.
A diferença entre uma versão e outra muda completamente a aula.
Enquanto eu respirava fundo para decidir entre advertir ou compreender, ele me olhou com aquela mistura de desafio e pedido de socorro que só algumas crianças conseguem produzir ao mesmo tempo.
— Você também vai desistir de mim?
A pergunta não saiu da boca, saiu dos olhos. E eu ali sem respostas, pois, há perguntas que nenhuma apostila ensina a responder.
Existe uma estranha mania de imaginar que o conflito mora apenas na criança.
Como se o professor chegasse emocionalmente pronto, equilibrado, paciente e impermeável às pressões da vida.
Mas o professor também chega cansado.
Chega depois de noites mal dormidas, boletos vencendo, reuniões intermináveis, burocracias que se multiplicam com uma criatividade invejável, cobranças por índices, metas, relatórios, plataformas digitais que prometem facilitar tudo enquanto complicam mais um pouco.
Chega, muitas vezes, tentando esconder as próprias rachaduras.
E então encontra uma criança que também passou a noite ouvindo discussões em casa, que dormiu pouco porque dividiu o quarto com cinco irmãos e que veio sem café da manhã, trazendo no bolso uma saudade que ainda não aprendeu a nomear.
Dizem que um deles é “difícil”.
Talvez os dois estejam apenas tentando sobreviver.
A escola pública tem esse talento desconcertante de colocar frente a frente duas humanidades inacabadas, de um lado, um adulto que estudou teorias sobre desenvolvimento infantil e do outro, uma criança que desconhece completamente Piaget, Vygotsky, Wallon e qualquer autor citado nas formações pedagógicas, mas conhece profundamente o abandono, a ausência, a violência ou a necessidade de chamar atenção porque descobriu que invisibilidade dói mais do que uma advertência.
A teoria explica, mas, a prática interrompe.
Há dias em que o conflito não nasce da indisciplina ele nasce do encontro entre duas exaustões.
É curioso observar como somos rápidos em perguntar:
— O que há de errado com esse aluno?
E lentos para perguntar:
— O que esse encontro está despertando em mim?
Porque alguns estudantes não desafiam apenas regras, eles desafiam nossos limites, nossas inseguranças, nossa necessidade de controle e, às vezes, até nossa vaidade profissional.
Há crianças que não obedecem ao plano de aula e outras que não obedecem à imagem que construímos de nós mesmos como educadores.
Essas costumam ensinar mais.
Lembro de um garoto que parecia colecionar advertências como quem coleciona figurinhas. Interrompia explicações, provocava colegas, respondia antes de pensar e parecia carregar um ímã invisível para qualquer confusão disponível.
Passei semanas tentando corrigir seu comportamento até perceber que ele passava todos os recreios sozinho. Às vezes, a indisciplina era apenas um pedido de pertencimento escrito numa linguagem que os adultos insistem em chamar de problema.
Foi então que deixei de perguntar como fazê-lo falar menos e comecei a perguntar quem o escutava quando ninguém estava olhando.
Não aconteceu nenhum milagre, a vida raramente trabalha com efeitos especiais.
Ele… continuou difícil e eu também.
Mas, curiosamente, nossas dificuldades começaram a conversar em vez de disputar espaço e neste momento descobri que autoridade não é levantar a voz, é apenas permanecer presente quando seria mais fácil desistir.
Vivemos um tempo em que tudo precisa ser classificado rapidamente.
Aluno difícil, professor despreparado, família ausente e escola problemática. Etiquetas são confortáveis porque dispensam perguntas, só que pessoas nunca cabem nelas.
A verdade é que quase todo conflito escolar funciona como um espelho.
Pensamos estar enxergando apenas a criança.
Mas, discretamente, a realidade também nos mostra quem somos quando as coisas deixam de acontecer como imaginávamos.
Talvez por isso ensinar seja uma profissão tão perigosa.
Ela não educa apenas quem aprende ela vem ensinar e educar, diariamente, quem acreditava já estar pronto para ensinar.
No fim daquela tarde, enquanto apagava o quadro, percebi que meu planejamento havia fracassado completamente, não consegui cumprir todas as atividades e o cronograma ficou para outro dia.
Os objetivos precisaram ser reescritos, mas um menino saiu da sala sem ouvir, pela enésima vez, que era um problema e um professor voltou para casa entendendo que também carregava suas próprias dificuldades disfarçadas de certezas.
Talvez seja esse o segredo silencioso da escola, onde os maiores conflitos raramente revelam apenas quem a criança é. Eles revelam, sobretudo, quem nos tornamos quando alguém desafia nossa paciência, nossas convicções e a imagem confortável que fazemos de nós mesmos.
E então fico pensando, enquanto a escola silencia depois do último sinal… será que os alunos mais difíceis entram em nossa vida para serem corrigidos ou para nos ensinar aquilo que ainda resistimos em aprender sobre nós mesmos?





