OS PASTORES CHAMADOS, E OS CHAMADOS PASTORES
Esses dias ouvi uma frase que merece ser guardada: existem os pastores chamados e os chamados pastores. Uns ouviram a voz da vocação, outros apenas perceberam uma baita oportunidade de negócio. Os primeiros entregam a própria vida. Gastam noites ouvindo, enxugam lágrimas, carregam cruzes que não lhes pertencem e servem sem esperar aplausos. Sabem que o rebanho vale infinitamente mais do que qualquer oferta.
Já os outros descobriram que a fé também pode gerar dividendos.
Transformam o altar em vitrine, a Palavra em produto e o povo em cliente. Para eles, o lema parece ser: “Templo é dinheiro.” Investem tempo no templo esperando retorno financeiro.
O pastor verdadeiramente chamado não mede as pessoas pelo que podem oferecer, mas pelo quanto precisam. Não enriquece às custas das ovelhas; enriquece as ovelhas com a verdade, com a proteção e com o amor, ainda que isso lhe custe muito caro. Afinal, quem foi chamado para servir jamais transforma a cruz em balcão de negócios.
“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.” (João 10,11)
A FÉ RI DAS IMPOSSIBILIDADES
Se uma situação é perfeitamente possível, para que serve a fé? Talvez seja justamente por isso que Deus permita portas fechadas, diagnósticos assustadores e pessoas que insistem em não mudar. Não porque tenha prazer no sofrimento humano, mas porque o impossível é o único lugar onde a fé pode mostrar quem realmente é.
Vivemos tentando eliminar as impossibilidades. Queremos garantias, previsões e certezas. No fundo, gostaríamos de uma vida em que a fé nunca precisasse ser usada, que não precisasse existir.
Mas a fé não existe para explicar o impossível, ela existe para atravessar o impossível. Ela não é fuga da realidade, mas a recusa de acreditar que a realidade seja maior do que Deus.
Quem só acredita quando enxerga vive das evidências, não da fé. E evidências não exigem coragem. Eu acredito que o impossível continua sendo o lugar onde Deus espera e encontra aqueles que têm coragem de confiar, acreditam, e não desistem.
“Porque caminhamos pela fé e não pela visão.” (2Coríntios 5,7)
VOCÊ PROCURA POR REMÉDIO OU POR ANESTESIA?
O que você procura: remédio ou anestesia? Vivemos numa época apaixonada pelo alívio imediato. Queremos esquecer, distrair, adiar. Preferimos qualquer coisa que faça a dor dormir, mesmo que a doença continue acordada.
Acontece que a cura raramente é confortável. O álcool arde antes de desinfetar, a injeção dói antes de imunizar, a cirurgia corta antes de salvar. Muitas vezes, rejeitar a dor é rejeitar também uma oportunidade da cura.
Quem aceita o tratamento entende que uma cicatriz da cura vale muito mais do que um conforto passageiro. Uma correção, um pedido de perdão ou uma mudança de comportamento quase sempre machucam o orgulho. Mas a dor abafada costuma voltar falando muito mais alto.
Por isso, vale repetir a pergunta: estou procurando um remédio ou apenas uma anestesia? A anestesia faz você esquecer a dor por algumas horas. O remédio faz a dor esquecer você para sempre.
“A verdade vos libertará.” (João 8,32)
JUÍZO DE FATO E JUÍZO DE VALOR
Diante das circunstâncias, nossa consciência faz dois julgamentos: o juízo de fato e o juízo de valor. O juízo de fato apenas descreve a realidade: está chovendo. Já o juízo de valor interpreta essa realidade: a chuva é boa ou a chuva é ruim.
Os fatos podem ser exatamente os mesmos, o significado atribuído a eles é que muda. Dois irmãos crescem na mesma casa, vivem as mesmas realidades, mas escrevem histórias completamente diferentes. O fato foi compartilhado, mas a interpretação não.
O perigo começa quando transformamos o juízo de valor, ou seja a nossa opinião em verdade. Por exemplo dizer: “Minha vida não presta” não é um fato, é apenas uma interpretação. O fato talvez seja apenas este: estou atravessando um momento difícil.
A maturidade nasce quando aprendemos a separar aquilo que aconteceu daquilo que pensamos sobre o que aconteceu. Nem todo juízo de fato pode ser mudado, mas quase todo juízo de valor pode. E, quando mudamos o significado das experiências, a própria vida começa a mudar.
“Transformai-vos pela renovação da vossa mente.” (Romanos 12,2)
QUAL SERPENTE VOCÊ VAI CULPAR HOJE?
Qual será a serpente que você vai culpar hoje?
Todos nós carregamos um pouco de Eva. Diante do erro, terceirizar a culpa parece um mecanismo automático de defesa. Culpamos os pais, os professores, a escola, a religião, o frio, o calor e quando ninguém serve de explicação, inventamos um novo culpado.
O problema é que esse jogo nos paralisa. Se é pelo erro que aprendemos,
só aprenderemos quando tivermos coragem de admitir que erramos, negar
o erro é apenas acrescentar mais um erro ao primeiro.
O maior cego continua sendo aquele que não quer ver. Reconhecer uma falha não diminui ninguém; pelo contrário, significa dizer: hoje sou mais sábio do que ontem. Ontem errei, hoje decidi crescer.
Talvez por isso soframos tanto em silêncio. Preferimos sentir e não falar, não saber e não perguntar, sofrer e não chorar, sentir saudade e não dar o primeiro passo. Enquanto procurarmos serpentes para culpar, deixaremos de encontrar o verdadeiro caminho da mudança.
“A verdade vos libertará.” (João 8,32)
Por: Carlinhos Marques
Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”
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