A solidão da sala mais cheia da escola

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

A sala dos professores estava cheia.

Era segunda-feira, mas poderia ser qualquer outro dia do calendário escolar. Sobre a mesa, uma garrafa térmica lutava bravamente para manter o café quente e ao redor dela, pilhas de provas, agendas abertas, canetas sem tampa, carregadores de celular e algumas esperanças já bastante amassadas pelo uso.

Havia gente por todos os lados, uma professora corrigia atividades enquanto mastigava um pedaço de pão quase sem perceber o gosto, outra respondia mensagens no grupo da turma e um terceiro preenchia uma planilha que provavelmente alguém exigiria até o fim da tarde. No canto, dois colegas conversavam sobre o preço do combustível, perto da janela, alguém ria alto de um vídeo enviado pelo WhatsApp.

A sala estava cheia.

E, ainda assim, havia uma solidão espalhada entre as cadeiras que ninguém conseguia enxergar. Talvez porque a solidão dos professores raramente faça barulho.

Ela não chega gritando, não bate à porta e nem pede licença.

Apenas se senta ao lado… Eu, com o tempo, aprendi que uma das maiores ironias da profissão docente é justamente essa de passarmos a vida cercados de pessoas e, não raramente, nos sentimos invisíveis.

O professor conversa o dia inteiro, explica, escuta, orienta, media conflitos, acalma choros, resolve crises. Traduz o mundo para crianças, adolescentes e famílias.

Mas quem traduz o mundo para ele?

A pergunta costuma ficar esquecida em algum canto da sala dos professores, junto das canecas esquecidas e dos avisos antigos pregados no mural.

Lembro-me de uma colega que chegava todos os dias com um sorriso impecável, daqueles que parecem ter sido treinados diante do espelho, cumprimentava todo mundo, perguntava sobre os filhos dos colegas, fazia piadas. Nas reuniões era a mais participatica.

Era o tipo de pessoa que os relatórios institucionais chamariam de “engajada”.

Numa manhã, ela não apareceu, depois soubemos que estava afastada por questões emocionais.

A notícia provocou surpresa.

— Nossa, mas ela parecia tão bem…

E talvez essa seja uma das frases mais tristes já inventadas pela humanidade, porque, “parecia bem” virou uma espécie de certificado de sobrevivência.

Enquanto isso, seguimos ocupando os mesmos espaços físicos sem necessariamente habitar os mesmos espaços humanos.

Sentamos lado a lado, compartilhamos café, dividimos ventiladores barulhentos, participamos das mesmas formações. Mas cada vez mais carregamos nossas dores em compartimentos individuais, como quem transporta caixas frágeis sem revelar o conteúdo.

A escola, que deveria ser território de encontro, às vezes se transforma numa estação de passagem.

As pessoas entram, cumprimentam, resolvem urgências e correm para a próxima aula. Respondem mensagens, preenchem documentos, assinam atas e atualizam plataformas.

E assim seguem em frente.

Há dias em que a sala dos professores parece mais um aeroporto do que um lugar de convivência, todos estão ali, mas, ninguém permanece.

E não deixa de ser curioso, afinal trabalhamos numa profissão construída sobre vínculos humanos, falamos diariamente sobre acolhimento, empatia, escuta, pertencimento, projetos de convivência, cultura de paz…

Mas, por vezes, esquecemos de oferecer aos colegas aquilo que defendemos para os alunos.

Talvez porque estejamos cansados demais ou tenhamos aprendido que demonstrar fragilidade é um luxo incompatível com o excesso de demandas. Acredito que o sistema tenha convencido a maioria que resistir significa suportar tudo em silêncio.

Há uma espécie de heroísmo perigoso circulando pelos corredores escolares.

O professor que nunca reclama, a professora que dá conta de tudo, aquele coordenador que não para e um gestor que não descansa, como se adoecer fosse sinal de fraqueza e pedir ajuda fosse uma falha profissional.

Como se a exaustão pudesse ser resolvida com mais uma palestra sobre inteligência emocional marcada para as dezenove horas de uma quarta-feira.

A burocracia, essa velha conhecida, também ajuda a ampliar os vazios. Os encontros que antes tinham cheiro de conversa agora têm cheiro de planilha, pausas se transformaram em preenchimento de formulários e os minutos livres foram capturados por plataformas digitais que prometem eficiência enquanto devoram aquilo que nos torna humanos, principalmente o tempo para estar.

Estar de verdade, sem pauta, sem metas, sem indicadores. Apenas estar…

Outro dia observei algo curioso, cinco professores dividiam a mesma mesa, nenhum falava, todos olhavam para telas diferentes.

As notificações piscavam, os dedos deslizavam, os rostos permaneciam iluminados pela luz azul dos aparelhos.

Por alguns segundos, pensei que aquela cena resumisse muito do nosso tempo.

Nunca estivemos tão conectados e nunca pareceu tão difícil alcançar alguém.

E, ainda assim, a resistência continua acontecendo, discreta e quase invisível.

Mas ainda vejo a colega que percebe o olhar cansado do outro e pergunta se está tudo bem, o professor que serve um café para outro professor.

O coordenador que interrompe a pauta para escutar uma angústia e o abraço apressado entre um sinal e outro.

Nos poucos minutos em que alguém encontra coragem para dizer:

— Hoje está difícil.

E alguém responde:

— Eu sei, mas, se precisar estou aqui.

Talvez a educação sobreviva menos pelos documentos que produzimos e mais por esses pequenos gestos que ainda escapam das planilhas.

Gestos que não aparecem nos indicadores e não entram nos relatórios, mas, sustentam pessoas e não podemos esquecer que, escolas são feitas de pessoas.

Ao final do dia, quando as salas ficam vazias e o corredor finalmente silencia, a sala dos professores guarda algo que raramente aparece nas fotografias institucionais, ela guarda ausências. Conversas que não aconteceram, pedidos de ajuda que ficaram presos na garganta e olhares que ninguém percebeu.

E eu fico pensando, enquanto recolho minhas coisas e tomo o último gole de café que já perdeu completamente o calor… “a verdadeira solidão mora justamente aí, no espaço invisível entre o “bom dia” automático e a escuta sincera que nunca chega.

Porque talvez o maior desafio das escolas não seja apenas ensinar crianças a se encontrarem no mundo, o verdadeiro desafio talvez seja impedir que os adultos que dedicam a vida a essa tarefa se percam uns dos outros no caminho.