Uma escola cheia de equipamentos pode continuar vazia de escuta

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Naquela manhã, como muitas manhãs eu cheguei à escola com aquela sensação que todo professor tem de que, desta vez, tudo ia dar certo.

O computador estava carregado, o projetor, testado, o vídeo, baixado, porque professor experiente não confia na internet, confia no download feito às pressas na noite anterior. Enfim, todos os slides estavam organizados, as imagens escolhidas, a atividade preparada e até o cabo HDMI havia sido colocado na mochila com o cuidado de quem transporta uma peça rara de museu.

Eu tinha uma aula moderna, ou, pelo menos, tinha tudo aquilo que costuma fazer uma aula parecer moderna.

Bastava ligar, e justamente neste momento iniciou a aula. O projetor não reconheceu o computador, fiz várias tentativas. Nada.

Troquei o cabo, reiniciei o computador, olhei para a turma. Todos me olhando com aquela expressão silenciosa que mistura curiosidade e satisfação diante do fracasso tecnológico de um adulto era quase uma torcida organizada. Mas é assim, quando o professor tenta fazer a tecnologia funcionar, a plateia infantil acompanha como quem assiste a uma final de campeonato.

— Professor, não vai funcionar?

— Vai…

Foi a resposta de quem ainda não tinha desistido, embora já estivesse considerando seriamente voltar para o quadro e o canetão.

Depois de alguns minutos, a imagem apareceu, os alunos comemoraram, eu comemorei. Não porque a tecnologia tivesse produzido alguma aprendizagem, mas porque, naquele momento, ela havia simplesmente decidido colaborar.

E talvez esteja aí uma das primeiras ironias da tecnologia na escola, às vezes gastamos mais energia fazendo o recurso funcionar do que discutindo o que pretendíamos ensinar com ele.

Não sou contra a tecnologia, muito pelo contrário.

Ela pode abrir janelas que antes pareciam paredes, aproxima lugares, mostra experiências impossíveis de levar para a sala, amplia textos, reproduz sons, apresenta imagens, simula fenômenos, favorece pesquisas e cria possibilidades extraordinárias para quem ensina e para quem aprende.

O problema começa quando confundimos ter tecnologia com fazer educação.

Um slide colorido não transforma uma aula ruim em uma boa aula, um tablet não produz curiosidade automaticamente e uma lousa digital não garante pensamento crítico. De que adianta uma escola cheia de equipamentos se insiste em continuar vazia de escuta.

Há uma diferença enorme entre modernizar a sala de aula e apenas equipar a distração e na escola pública, essa diferença aparece todos os dias. Porque a criança não chega à sala de aula como aparece nos planejamentos.

Ela chega com sono e fome, carregando uma ansiedade de quem luta com situações particulares como presenciar uma briga logo de manhã ou a tristeza de quem ouviu algo que não queria ter ouvido.

Chegam contando uma história no meio da explicação, perguntando por que a Lua aparece de dia e querendo mostrar um desenho que estava fazendo bem na hora da aula.

E eu desconheço alguma plataforma educacional que tenha criado um botão chamado “entender o que esta criança está vivendo hoje”.

O professor precisa descobrir e isso não se resolve com uma atualização de software.

Naquele mesmo dia, enquanto eu explicava uma atividade utilizando imagens na tela, um aluno levantou a mão e me perguntou algo que não estava nos slides, não estava no livro, não estava no planejamento e, provavelmente, não apareceria em nenhuma formação continuada.

Era uma pergunta genuína, daquelas que fazem o professor esquecer por alguns minutos o cronograma.

Paramos e conversamos, a aula tomou seu caminho e ali, naquele momento, algo importante aconteceu, a tecnologia continuava ligada, mas, já não era ela que conduzia a aula. Era a pergunta de uma criança.

Talvez esse seja um dos maiores desafios do nosso tempo, aprender a utilizar ferramentas sofisticadas sem permitir que elas nos tornem professores menos humanos.

Porque existe uma tentação silenciosa na educação contemporânea de acreditar que aquilo que é novo necessariamente é melhor.

Trocam-se os cadernos por telas, o quadro por painéis digitais, os livros por plataformas, as atividades impressas por aplicativos e, às vezes, mantemos exatamente a mesma aula.

Só mudamos a embalagem. É como colocar uma velha ideia dentro de uma caixa tecnológica e anunciar que inventamos o futuro.

A escola, porém, não é uma vitrine de equipamentos, ela é feita por gente.

E gente é inconveniente para qualquer planejamento excessivamente organizado, pois, o sistema cai, a internet desaparece, a energia acaba, a televisão resolve não funcionar, os horários mudam de repente, professor falta em cima da hora, os alunos resolvem ficar em casa em pleno dia de avaliação… Se for colocar todos os inconvenientes, daria páginas e páginas deste texto e ainda sim, não colocaria todos. E sempre nesses inconvenientes, tem um professor que vai, mais uma vez, reconstruir a aula.

Há quem enxergue isso como falta de planejamento, mas quem está no chão da sala de aula sabe que é justamente o contrário.

Planejar é importante, mas isso não significa que controlamos a realidade. Planejamento deveria ser uma bússola, não uma algema, ele é sim um mapa que nos orienta, mas muitos tem um conceito errado, fazendo dele uma prisão.

Um mapa pode mostrar o caminho, mas não prevê a chuva e as escolas conhecem bem os tempos de chuvas. Falta de estrutura, as desigualdades, os improvisos, os corredores barulhentos, os recursos que chegam tarde, os equipamentos que chegam sem formação para serem utilizados e as promessas tecnológicas que, algumas vezes, parecem ter sido desenhadas por quem nunca precisou dividir uma tomada entre computador, projetor e ventilador.

Isso tudo é curioso, porque nos documentos oficiais, a tecnologia aparece como ferramenta de inovação, protagonismo, personalização da aprendizagem e desenvolvimento de competências. Enquanto isso o professor procura a extensão elétrica para dar conta ligar tudo.

Talvez não seja uma contradição ou apenas a distância entre o documento e a vida. Teorias pedagógicas tem sua importância, pesquisas também. Os estudos sobre metodologias, aprendizagem, cognição e recursos digitais são fundamentais.

Mas existe uma universidade que não cabe nos livros, a universidade do cotidiano, é nela que o professor aprende que nem todo aluno que está olhando para a tela está aprendendo e nem todo aluno que está olhando para o quadro está distraído.

Aprende que uma criança pode passar quarenta minutos diante de uma animação educativa e sair sem saber explicar o que viu enquanto outra pode fazer uma pergunta durante uma aula aparentemente “improvisada” e compreender, naquele instante, algo que levaria semanas para aparecer em uma sequência didática cuidadosamente planejada.

A tecnologia pode ser ponte, sim, claro que pode, mas, também pode ser um muro alto que apenas produz estímulos, mas não desperta perguntas.

Essa nova ferramenta pode ampliar a voz do professor, mas nunca deverá substituir sua presença. Porque há coisas que nenhum aplicativo consegue fazer.

Perceber o silêncio diferente de uma criança, notar que aquele aluno que sempre participa hoje está quieto, entender que determinado comportamento não é simplesmente “indisciplina”. Saber a hora de insistir e principalmente, saber a hora de desligar a tela e religar a humanidade.

Naquela manhã, depois de finalmente conseguir projetar minha apresentação, eu tinha planejado vinte minutos para explicar o conteúdo, usei quase cinco.

O restante da aula foi tomado por perguntas, algumas sobre o assunto, outras nem tanto. Mas todas pertenciam àquela turma.

E quando o sinal tocou, percebi que havíamos cumprido apenas uma parte pequena do que estava escrito no meu planejamento.

Ainda assim, saí da sala com a sensação de que alguma coisa havia sido aprendida.

Talvez eu tenha demorado anos para entender que uma boa aula não é aquela em que o professor consegue cumprir tudo o que escreveu, uma boa aula é aquela em que os alunos saem levando alguma coisa que não tinha quando entraram.

Às vezes é um conceito, uma pergunta, curiosidade, coragem ou simplesmente a certeza de quem alguém os ouviu.

Por isso, talvez a pergunta mais importante sobre tecnologia na escola não seja “qual equipamento precisamos comprar?”.

A pergunta que devemos fazer é bem mais simples e, justamente por isso, mais difícil.

O que irá acontecer quando todas as telas estiverem ligadas, todos os equipamentos funcionando e todos os recursos disponíveis, será que teremos conseguido acender aquilo que realmente importa na educação?

Porque talvez a verdadeira modernização da escola não esteja em trocar o quadro por uma tela.

Modernizar a educação talvez esteja em não permitir que nenhuma tela ocupe o lugar do olhar. E assim quem sabe, no fim das contas, a tecnologia seja uma excelente aliada, desde que nunca seja confundida com a própria aula.