AH, PRETO SUJA MENOS
“Preto suja menos…” Você já ouviu ou até falou isso. Claro que estamos falando da aparência da sujeira. Mas, existe uma sujeira muito mais perigosa: aquela que não aparece.
Acontece que, ao escolher uma aparência limpa, podemos acabar deixando de lavar uma essência suja.
E, no outro extremo, acabamos valorizando mais a aparência do mérito do que o próprio mérito. O carro passa a valer mais que a viagem, a roupa mais que o corpo, o celular mais que a mensagem, e a festa de casamento mais que o amor do casal.
E pasmem: até uma oração em voz alta pode valer mais para muitos, do que uma verdadeira intimidade com Deus.
Vivemos numa época em que parecer é, muitas vezes, mais importante do que ser. É possível ter uma casa impecável e uma vida bagunçada. Uma roupa bonita e um coração malvestido. Um discurso cheio de virtudes e atitudes completamente despidas delas.
Talvez seja hora de parar de perguntar apenas: “Como estou parecendo?” e começar a perguntar: “Como estou sendo?”
Porque sujeira aparente a gente limpa. A escondida, se não for cuidada, apodrece cheira mal, até mata.
“O homem vê a aparência, mas o Senhor olha o coração.” (1Sm 16,7)
MAS SOU FILHO DO DONO
Esses dias vi escrito no para-choque de um caminhão: “Não sou dono do mundo, mas sou filho do dono.” E fiquei pensando: se somos filhos de Deus, por que tantos vivem como órfãos?
Repetindo: “Não tenho sorte”, “nada dá certo para mim”, “Deus esqueceu de mim”. Vamos renunciando à consciência da paternidade de Deus.
Ser filho tem consequências. Filho tem casa, cuidado, proteção e herança. E Deus não deixou toda a herança para depois da morte. Ele quer nos dar muita coisa já nesta vida: paz para enfrentar os dias difíceis, força para recomeçar e, principalmente, a alegria de saber que não estamos sozinhos.
Deus nunca deixou de dar. Muitas vezes, somos nós que deixamos de receber.
O filho que não sabe que é herdeiro carrega um peso que não precisaria carregar.
Não precisamos ser donos do mundo. Aliás, isso daria um trabalho danado.
Precisamos apenas saber de quem somos filhos. E que a maior herança que Deus deseja nos dar é justamente esta: a alegria de viver sabendo que existe um Pai cuidando de nós.
“Vede com que amor o Pai nos amou: somos chamados filhos de Deus. E nós o somos!” (1Jo 3,1)
A OCASIÃO NÃO FAZ O LADRÃO, APENAS O REVELA
Existe uma frase em uma música do Capital Inicial: “O que você faz quando ninguém te vê?”
Na verdade, esse “ninguém” quase nunca existe. Porque, mesmo quando os outros não veem, a consciência continua assistindo.
Por isso, sempre achei curioso o ditado: “A ocasião faz o ladrão”. Será?
A ocasião não cria caráter nem fabrica desonestidade. Ela apenas revela aquilo que já existe dentro da pessoa.
O troco recebido a mais, a carteira encontrada na rua, uma vantagem fácil ou um cargo de confiança são testes silenciosos. Eles não transformam alguém em honesto ou desonesto. Apenas retiram a máscara que o escondia.
O caráter verdadeiro aparece justamente quando não existem aplausos, câmeras ou fiscalização.
É fácil fazer o certo quando todos estão olhando. O desafio é continuar correto quando ninguém parece prestar atenção.
A ocasião pode até abrir uma porta, mas quem decide atravessá-la será sempre você.
O problema não está na oportunidade. Ela apenas acende a luz sobre aquilo que já estava dentro de nós.
“Quem é fiel nas pequenas coisas também será fiel nas grandes.” (Lc 16,10)
AH, EU MEREÇO SIM!
Ah, eu mereço… Cuidado! Isso pode ser perigoso. E haverá sempre alguém tentando convencer você disso, desde a vizinhança até os livros de autoajuda.
Então fiquei pensando: será que não foi exatamente isso que o filho pródigo pensou?
Mesmo tendo tudo na casa do pai, talvez tenha pensado: “Ah, eu mereço mais”.
Essa noção de merecimento inflacionado costuma nascer de expectativas irreais, comparações e insatisfações pessoais.
A pergunta é: que padrão de satisfação nós, filhos pródigos de hoje, estamos adotando?
Muitas vezes, continuamos olhando para aquilo que falta e ignorando aquilo que já temos.
É como entrar num restaurante com a mesa cheia e reclamar porque ainda não veio sobremesa.
Talvez seja hora de colocar a régua do merecimento no lugar certo.
Quando o filho pródigo voltou, sua régua estava lá embaixo. Ele já não se considerava digno nem de ser chamado de filho. E esse é outro perigo: imaginar-se tão pouco, que já não consegue reconhecer o próprio valor.
De um extremo ao outro, perdemos a medida.
A maturidade é aprender a agradecer pelo que recebemos, reconhecer o que precisamos mudar e entender que nem tudo o que desejamos é aquilo que realmente merecemos.
“Meu filho, tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu.” (Lc 15,31)
PRESTE MAIS ATENÇÃO NO SINAL AMARELO
Depois de um tombo, até que a gente sacode a poeira, até da a volta por cima, mas raramente perguntamos: “O que me fez cair?”
Geralmente, aparece a velha explicação: excesso de confiança.
“Eu sei o que estou fazendo…”
O problema é que, às vezes, aquele friozinho na barriga não é medo. É um alerta.
Ignorar o sinal amarelo pode custar caro.
Entenda que toda queda começa, de algum modo, na mente.
Não se trata de viver com medo de cair, mas de prestar mais atenção na estrada.
Às vezes, o que derruba não é uma pedra grande, mas aquela areinha, que deixamos de perceber. É um “sim” querendo dizer “não”. Um “eu aguento” quando já chegamos ao limite. Uma escolha que sabemos que não deveríamos fazer, mas fazemos.
O bom é que nem toda queda é punição. A maioria vira aprendizado. E aquilo que não entra pela cabeça, acaba entrando pelo joelho ralado.
Por isso, não ignore o sinal amarelo, nem pergunte onde foi que eu caí? acho melhor perguntar: “Por que eu escorreguei?”
“Examinai tudo: abraçai o que é bom.” (1Ts 5,21)
Por: Carlinhos Marques
Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”
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