Afinal, o que é essa tal “visão de dono”?

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Christiano Guimarães é consultor de empresas, professor e escritor – Foto: Reprodução

Marcelo tinha uma frase preferida. Repetia em reuniões, entrevistas e, principalmente, quando alguma coisa dava errado: “O que falta aqui é visão de dono”. Se encontrava uma luz acesa numa sala vazia, faltava visão de dono. Se alguém imprimia cinquenta folhas que ninguém leria, faltava visão de dono. Cliente reclamou e ninguém resolveu? Visão de dono. Material desperdiçado? Visão de dono. Se um dia chovesse durante o churrasco da empresa, havia uma possibilidade razoável de Marcelo culpar a falta de visão de dono de alguém do administrativo. A expressão servia para tudo e tinha uma vantagem fantástica: explicava o problema sem necessariamente resolver nenhum.

Juliana trabalhava com ele havia alguns anos e já tinha ouvido aquilo vezes suficientes para merecer adicional de insalubridade. Até que, numa reunião, resolveu perguntar: “Marcelo, o que exatamente você quer dizer quando pede para a gente ter visão de dono?”. A sala ficou quieta. Ele explicou que queria pessoas cuidando da empresa como se fosse delas, pensando nos custos, nos clientes, nas vendas, nos resultados e não passando por um problema fingindo que não viram. Juliana ouviu atentamente e devolveu: “Entendi. Então, quando a empresa tiver lucro, eu também recebo como dona?”. Surgiu aquele silêncio maravilhoso que aparece quando alguém verbaliza exatamente o que metade da sala pensou, mas ainda precisava daquele emprego no mês seguinte.

Marcelo não estava completamente errado. Juliana também não. O empresário realmente precisa de pessoas que entendam que desperdício custa dinheiro, cliente perdido faz falta, venda ruim diminui receita, retrabalho consome tempo e aquela maravilhosa filosofia do “não é problema meu” costuma transformar pequenos problemas em grandes despesas. Tudo isso é absolutamente razoável. O erro talvez esteja no nome. Funcionário não é dono. Não colocou o capital, não assumiu o risco empresarial, não responde pelas dívidas e também não participa dos resultados da mesma maneira. Pedir que ele carregue exatamente as preocupações do proprietário é querer terceirizar a insônia sem terceirizar o boleto.

Talvez o que as empresas realmente precisem seja de profissionais com visão de negócio. E aí a conversa muda completamente. Ter visão de negócio é entender que aquela caixa desperdiçada não desapareceu por mágica: alguém pagou por ela. É perceber que atender mal um cliente pode significar perder uma venda hoje e várias amanhã. É compreender que chegar atrasado pode travar o trabalho de outra pessoa. É perceber que vender pouco, desperdiçar muito, errar, refazer e perder clientes produz uma combinação financeira pouco revolucionária: a empresa gasta mais e ganha menos. Não precisa de MBA para entender onde isso termina.

E aqui existe uma parte dessa conversa que funcionário e empresário deveriam ouvir juntos. Empresa não é uma entidade abstrata com um cofre infinito escondido atrás da sala do proprietário. Para melhorar salário, benefício, estrutura, equipamento, treinamento e condições de trabalho, primeiro precisa existir resultado. Se a empresa vende R$ 100 e desperdiça R$ 20 que poderia evitar, aqueles R$ 20 não evaporaram. Saíram de algum lugar. E dinheiro que vai embora com desperdício, retrabalho, cliente perdido e baixa produtividade é dinheiro que não estará disponível para investir na própria empresa e nas pessoas que trabalham nela. Não estou dizendo que todo lucro precisa virar aumento de salário no dia seguinte — gestão empresarial seria maravilhosamente simples se funcionasse assim. Estou dizendo que é muito difícil melhorar para todo mundo quando o negócio piora para todo mundo.

Agora vem a parte que alguns empresários também talvez prefiram pular. Se você quer que seu funcionário tenha visão de negócio, precisa permitir que ele enxergue o negócio. Tem empresa que não explica metas, não apresenta indicadores, não conta quanto custa um erro, não mostra como ganha dinheiro, não compartilha objetivos, não aceita sugestões e concentra praticamente todas as decisões no proprietário. Depois o dono cruza os braços e reclama: “Aqui ninguém pensa!”. Talvez ninguém pense porque, durante anos, toda vez que alguém tentou, ouviu um educado “não inventa e faz do jeito que eu mandei”.

Visão de negócio não aparece espontaneamente no crachá depois do período de experiência. Ela precisa ser ensinada. Quando alguém entende por que determinada regra existe, a regra começa a fazer sentido. Quando conhece o impacto financeiro de um desperdício, aquela caixa deixa de ser “só uma caixa”. Quando percebe como seu trabalho interfere no setor seguinte, começa a enxergar processo em vez de apenas tarefa. E quando sabe para onde a empresa está indo, consegue perceber se aquilo que faz ajuda ou atrapalha. Isso exige treinamento, comunicação, processos claros e líderes capazes de explicar o “porquê”, não apenas distribuir ordens como quem entrega senha em fila de banco.

Do outro lado, também não dá para transformar o “não sou dono” em licença oficial para não se importar com absolutamente nada. Você pode não ser dono da empresa, mas é dono da sua reputação profissional. O jeito como trabalha, cuida das coisas, atende clientes, resolve problemas e entrega resultados acompanha você muito depois de devolver o uniforme e o crachá. Profissional bom não cuida do patrimônio da empresa porque secretamente sonha pagar os boletos do patrão. Cuida porque competência também aparece quando ninguém está fiscalizando.

Depois daquela reunião, Marcelo continuou sendo dono e Juliana continuou sendo funcionária. Nenhum dos dois precisou trocar de cadeira. Mas a expressão “visão de dono” praticamente desapareceu das reuniões. No lugar dela surgiu outra: “visão de negócio”. Parece apenas uma troca de palavras, mas não é. Uma pede que o funcionário pense como proprietário. A outra faz com que ele compreenda que existe uma empresa inteira por trás da tarefa que executa todos os dias.

Talvez esteja na hora de aposentar essa história de exigir “visão de dono”. Funcionário não precisa chegar em casa preocupado com o boleto da empresa — para isso o empresário já perde o sono muito bem sozinho. Mas precisa entender que desperdício, venda perdida, retrabalho e descaso têm uma conta, e alguém sempre acaba pagando. E o empresário precisa entender que não pode exigir visão de negócio de quem só consegue enxergar a própria mesa. Se queremos uma empresa melhor para todos, talvez seja interessante começar entendendo uma coisa bastante simples: antes de dividir resultados melhores, precisamos parar de produzir resultados piores.

*Christiano Guimarães: empresário, consultor de empresas e escritor.

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