
A psicóloga, pedagoga e escritora Aline Costa lança três novos livros — dois infantis e um de poesia — enquanto celebra a seleção de uma de suas obras para a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo.
@caroline_leidiane
A literatura como extensão da escuta. É dessa maneira que a psicóloga, pedagoga e escritora Aline Costa vem construindo uma trajetória marcada por temas sensíveis, humanos e urgentes.
No último dia 2 de maio, ela lançou simultaneamente três novos livros — “A Nuvem que a Vovó Virou”, “Só é Brincadeira Quando Todos se Divertem” e “Vem Cá” — durante evento realizado no Centro de Informações Culturais e Turísticas “Marão Abdo Alfagali”, no Parque da Cultura, em Votuporanga.
As obras ampliam um percurso iniciado em 2023, quando publicou “Psicologia em Versos – pensamentos, poemas e poesias”, livro nascido a partir de textos escritos no bloco de notas do celular durante a pandemia do Covid-19.
Desde então, a autora encontrou na escrita um caminho para abordar emoções, saúde mental, luto, pertencimento e relações humanas de forma acessível e afetiva.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), transtornos como ansiedade e depressão cresceram significativamente após o período pandêmico, entre 2020 e 2022, especialmente entre jovens e crianças. Nesse contexto, produções literárias voltadas ao acolhimento emocional ganharam espaço tanto em ambientes clínicos quanto educacionais.
Aline conta que a decisão de transformar os textos em livro surgiu exatamente ao perceber que muitas pessoas se identificavam com aqueles sentimentos.
“Meus textos, poemas e poesias falavam justamente sobre dores, pensamentos e sentimentos que muitas pessoas também viviam naquele momento. Foi aí que pensei: ‘Por que não transformar isso em livro?’”, afirma.
Literatura que nasce da escuta
Com atuação de mais de duas décadas na educação e dez anos na clínica, Aline utiliza experiências profissionais como ponto de partida para suas narrativas. Os temas surgem, principalmente, da observação cotidiana e da convivência com crianças, adolescentes e famílias.
“A psicologia e a poesia me ajudam a olhar para os sentimentos com mais profundidade, e a pedagogia me ajuda a pensar em como levar tudo isso de uma forma leve, afetiva e de fácil compreensão para quem vai ler”, explica.
Entre os novos lançamentos, “A Nuvem que a Vovó Virou” aborda o luto infantil a partir da história de Bernardo e da avó Odete, personagens inspirados em pessoas reais. O livro nasceu após a autora acompanhar, na clínica, uma criança que precisava lidar com a perda da avó.
“A ideia das nuvens surgiu porque elas despertam algo muito presente na infância: olhar para o céu e tentar identificar formas, objetos e bichos entre os desenhos formados pelas nuvens. Existe algo muito bonito e simbólico nisso, porque cada pessoa enxerga a partir daquilo que carrega dentro de si. No livro, essa imaginação se transforma em uma maneira de manter vivos o vínculo, a lembrança e o amor, mesmo diante da ausência”, elucida ela.
Já “Só é Brincadeira Quando Todos se Divertem” propõe reflexões sobre bullying e preconceito no ambiente escolar. A obra foi construída em parceria com estudantes, que participaram de um concurso de ilustração e deram vida visual à narrativa.
“Muitas vezes, o bullying e o preconceito começam em pequenas falas tratadas como ‘brincadeira’, mas que machucam, excluem e deixam marcas emocionais profundas. Por isso, tanto a escola quanto a família precisam estar atentas aos sinais, abrir espaço para o diálogo e mostrar às crianças e aos adolescentes a importância do respeito e da responsabilidade no cuidado com o outro”, pontua.

Selecionado para a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, o título será apresentado em um dos maiores eventos literários da América Latina, ampliando o alcance de uma produção que nasceu dentro das escolas.
“Esse reconhecimento tem um significado muito especial para mim, porque o livro nasceu dentro do ambiente escolar, a partir de um trabalho concreto de conscientização sobre o bullying. Ver esse projeto chegar à Bienal do Livro é emocionante. Isso representa a valorização da literatura como ferramenta de escuta, conscientização e transformação social. Poder proporcionar essa experiência aos adolescentes ilustradores também aquece meu coração”, destaca com gratidão.
Poesia como abrigo
Enquanto os livros infantis dialogam com crianças, famílias e educadores, “Vem Cá” percorre outro território: o das ausências, silêncios, afetos e encontros cotidianos. A obra reúne poesias construídas a partir de experiências comuns, transformadas em textos intimistas.
Para Aline, mesmo em um tempo acelerado e atravessado pelo excesso de informações, a poesia continua sendo um espaço possível de acolhimento.
“Às vezes, um pequeno texto consegue alcançar alguém em um momento exato da vida e fazer companhia em um silêncio que ninguém mais percebeu”, diz.
A autora afirma que a escrita permanece conectada à necessidade de elaborar emoções e transmutar os sentimentos em linguagem.
“Transformo o medo em verso, a ansiedade em palavra, e vou sobrevivendo entre linhas, poesias e rascunhos de mim”, compartilha ela em composição lírica.
Hoje, entre consultórios, escolas e páginas publicadas, Aline Costa constrói uma literatura marcada pela escuta, sensibilidade e delicadeza com histórias humanas, mas guiada também pela ética e pelo respeito às vivências que atravessam sua trajetória profissional.
Seus livros não buscam respostas prontas, mas oferecem amparo a crianças que enfrentam perdas, adolescentes marcados pela exclusão e adultos tentando nomear sentimentos que ainda doem em silêncio.
A autora esclarece que suas obras costumam nascer menos de casos específicos e mais da percepção de dores humanas que precisam ser debatidas e compreendidas. “A Nuvem que a Vovó Virou” foi uma exceção e teve autorização da mãe da criança que inspirou a narrativa.
“Existe esse equilíbrio constante entre o olhar técnico da profissional e o olhar sensível da escritora”, finaliza.




