Rodox transforma passado em ponto de partida

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A formação que conduz a Rodox Originals Tour 2026 reúne Rodolfo Abrantes (voz), Pedro Nogueira (guitarra), Patrick Laplan (baixo) e Fernando Schaefer (bateria), com participação especial do guitarrista Victor Pradella – Foto: Divulgação/Murilo Amancio

Após 22 anos de hiato, banda liderada por Rodolfo Abrantes, ex-Raimundos, chega a São José do Rio Preto nesta quinta-feira (5), com repertório dos dois álbuns e planos de produzir músicas inéditas; em entrevista, vocalista fala sobre transformação pessoal, identidade musical, memória e os caminhos que se abrem para o grupo.


Leidiane Caroline
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No rock, rupturas não significam, necessariamente, despedir-se dos palcos. Algumas fendas findam ciclos, mas encontram nos amplificadores o volume eloquente para expressar uma nova fase. Quando deixou o Raimundos, no início dos anos 2000, Rodolfo Abrantes abraçava uma transformação pessoal profunda. O manifesto do músico foi ao encontro de um caminho estreito, mas com amplo vocabulário afetivo para entoar, junto aos riffs de guitarra, sua sobriedade diante da vida.

Criado em 2001, o Rodox concretizou o lançamento de seu primeiro álbum em 2002, seguido por um segundo trabalho que consolidou a identidade musical da banda. A sonoridade, marcada pela agressividade do hardcore e do metal, desligou os equipamentos em 2004 por divergências entre os integrantes.  Mais de duas décadas depois, o grupo retorna aos palcos com a Rodox Originals Tour 2026, reunindo boa parte da formação clássica: Rodolfo Abrantes (voz), Pedro Nogueira (guitarra), Patrick Laplan (baixo) e Fernando Schaefer (bateria), além da participação do guitarrista Victor Pradella.

O que poderia ser apenas um reencontro movido pela nostalgia revelou novos horizontes: a aproximação com o público, a maturidade dos músicos e a disposição para olhar adiante colocaram o Rodox novamente em movimento, sem abrir mão da atitude autêntica.

Rodolfo Abrantes, vocalista do Rodox, lidera o reencontro da banda com os palcos após 22 anos de interrupção – Foto: Divulgação/Fábio Ponce

Em volume máximo e com a energia frenética de sua sonoridade, a banda desembarca em São José do Rio Preto nesta quinta-feira (5), no Vila Dionísio. A apresentação integra uma sequência de shows que sucede a primeira excursão internacional do grupo, com passagens por Portugal e Inglaterra. A circulação pelo Brasil continua na sexta-feira (6), em Campo Grande (MS), e no sábado (7), em Presidente Prudente (SP).

A agenda segue movimentada até dezembro, com apresentações em diferentes regiões do país. Um dos destaques será o show do dia 12, no Terra SP, em São Paulo, que marcará a gravação do audiovisual da turnê.

No palco, o setlist contempla os dois discos lançados pela banda. Entre as músicas estão “Olhos Abertos” e “Dia Quente”, de “Estreito” (2002), além de “De Costas Para o Mar” e “Foi Bom Esperar”, de “Rodox” (2003).

Rodolfo Abrantes, vocalista do Rodox, lidera o reencontro da banda com os palcos após 22 anos de interrupção – Foto: Divulgação/Fábio Ponce

Em entrevista por telefone, Rodolfo fala sobre as circunstâncias que moldaram o estilo musical do Rodox, a experiência de retomar um projeto depois de 22 anos e a identificação de diferentes gerações com suas composições. O vocalista antecipa ainda os próximos movimentos da banda, que já trabalha com a perspectiva de produzir material inédito.

Diário de Votuporanga: O Rodox surgiu em um período de efervescência do rock e do hardcore nacional, construindo uma identidade própria dentro da cena brasileira. Olhando para o início da banda, quais foram as principais referências musicais e experiências que contribuíram para definir a sonoridade do grupo? De que maneira essa identidade se transformou ao longo dos anos?

Rodolfo Abrantes: Acho que a sonoridade da banda tem muito a ver com a urgência da mensagem, né? Foi no período da minha conversão, da saída do Raimundos e de todo aquele posicionamento que eu tive que tomar contra tudo e contra todos. Isso traz uma mensagem urgente, enérgica, agressiva, de certa forma, por causa da radicalidade de tanta mudança ao mesmo tempo, né? Mas, em termos de som mesmo, o New Metal influenciou bastante a gente. E a própria característica dos músicos, né? O primeiro álbum mesmo foi praticamente eu e o Fernandão que gravamos. Então, o hardcore e o metal, que são bem característicos da pegada dele, com a urgência da minha mensagem, foram o tempero que tornou o Rodox o que é.

Fernando Schaefer, o Fernandão, baterista do Rodox, teve participação fundamental na gravação de ‘Estreito’ (2002), primeiro álbum da banda, realizado praticamente por ele e Rodolfo Abrantes – Foto: Divulgação/Fábio Ponce

DV: Depois de 22 anos de interrupção, o Rodox retomou as atividades no início deste ano. O que motivou essa volta e quais foram os principais desafios de reencontrar a dinâmica de uma banda que carrega uma história anterior? O retorno representa uma continuidade daquele projeto ou o nascimento de uma nova fase?

RA: Eu acho que é um projeto novo, porque as pessoas são novas, né? Assim, vinte e dois anos de hiato fazem com que você amadureça demais, né? Muita coisa muda. A vida de todo mundo mudou muito, e isso faz com que a gente tenha muito mais entendimento e maturidade para lidar com aquilo que a gente tem na mão, né? Então, naturalmente, o desafio era ver como é que a gente estava, como é que a gente ia funcionar junto. E foi uma surpresa muito grande. Acho que parte primeiro da vontade de todo mundo de viver a coisa, acontecer e dar certo, né? O que era para ser uma turnê de reencontro se tornou algo, cara, tão sólido que a gente está olhando para o futuro agora.

DV: O hardcore passou por transformações estéticas, técnicas e culturais nas últimas duas décadas, enquanto novas vertentes e artistas conquistaram espaço. Como vocês enxergam a sonoridade do Rodox diante desse cenário? Existe uma preocupação em atualizar a linguagem musical ou a proposta é preservar as características que marcaram a trajetória da banda?

RA: Cara, a gente tenta se manter fiel ao que entende como som, né? Ainda que as coisas tenham mudado bastante, as nossas raízes são as mesmas. Então, a gente não procura parecer com nada nem com ninguém. Eu acho que esse é um trunfo: quando tudo está parecendo igual demais, você vir com uma coisa diferente, realmente, faz a diferença. Então, o alvo não é somar, não, o alvo é fazer a diferença.

O setlist da Rodox Originals Tour 2026 reúne faixas dos dois álbuns da banda, entre elas ‘Olhos Abertos’, ‘Dia Quente’, ‘De Costas Para o Mar’ e ‘Foi Bom Esperar’ – Foto: Divulgação/Leo Mat

DV: A atual turnê contempla músicas dos dois álbuns da banda, incluindo canções como “De Costas Para o Mar” e “Olhos Abertos”. Como é lidar com um repertório que atravessou gerações e adquiriu significados diferentes para o público ao longo de mais de duas décadas? Existe alguma música que ganhou uma interpretação diferente para vocês depois desse reencontro?

RA: Eu acho que todas as músicas, de uma maneira muito interessante e linda, apontavam para um tempo como esse. Uma banda que falava de futuro, ainda que estivesse falando de um momento de transformação. Mas a transformação simplesmente começa no momento, né? Ela não se conclui imediatamente. Então, cara, ver ao longo do tempo essas músicas pegando forma e se mantendo atuais e pontuais naquilo que a gente está vivendo é muito gratificante. Ver a identificação do público com isso, ver que, cara, isso foi trilha sonora da mudança de vida de muita gente e ver isso refletido no sorriso, nos rostos, quando a gente está no show, na galera cantando com o coração. Ver que realmente significou muito e foi importante para ajudar as pessoas a tomarem atitudes que ninguém pode tomar no lugar delas.

DV: Depois de apresentações internacionais em Portugal e na Inglaterra, o Rodox segue em circulação pelo Brasil. O que a experiência de voltar aos palcos e encontrar públicos de diferentes gerações tem revelado sobre a relevância da banda atualmente? Além da turnê, existe a intenção de produzir material inédito ou o foco, neste momento, está em revisitar e celebrar a história do grupo?

RA: Pois é, foi a primeira vez que o Rodox saiu do Brasil para tocar. Foi uma experiência muito boa. Encontrar as mesmas pessoas que a gente encontra no Brasil, só que, meu, do outro lado do oceano, foi muito gratificante perceber que, cara, a vida das pessoas mudou também junto com a nossa, né? E nós partilhamos dos mesmos valores, das mesmas intenções. Com certeza, a gente está com uma expectativa muito grande de produzir algo novo. No dia 12 de dezembro, a gente vai estar gravando um audiovisual para registrar o que foi essa turnê. Mas o coração já está voltado para novas músicas, né? O que a gente tem para dizer num tempo como esse? Eu tenho grandes expectativas. Acho que vai ser algo muito lindo.

DV: O primeiro álbum do Rodox, “Estreito”, acaba de ganhar uma edição em vinil pela Noize Record Club (clube de assinatura de LP), que já está esgotada. A boa recepção desse lançamento demonstra que existe um público interessado em revisitar a discografia da banda também nesse formato. Há planos de lançar o segundo álbum, “Rodox”, em vinil? Como vocês avaliam essa procura por formatos físicos em uma época dominada pelo consumo de música nas plataformas digitais?

RA: É legal, né? Eu acho que faz parte da nostalgia do pessoal ter um material em vinil na mão, né? É algo grande que você pode contemplar. Tipo, eu tenho muita saudade da época do encarte, de ficar lendo tudo aquilo. Mas eu não reclamo da época do digital, não. Eu acho que o acesso que a gente tem hoje, você lança uma música e o mundo inteiro tem disponibilidade de ouvi-la, eu acho que isso tudo é muito válido também. Eu acho que explorar todas essas formas de mídia e trazer esse material para os fãs só enriquece, né? Quem gosta mesmo de uma banda gosta de ter tudo a respeito dela. Então, eu acho que seria muito legal a gente lançar o segundo também. Dá bastante trabalho, né? Tem que remasterizar, enfim. Tem toda uma questão ali que tem que ajustar isso. Mas espero que a gente possa lançar, inclusive em cassete. Ia ficar muito legal.

Show Rodox Originals Tour 2026

  • Data: quinta-feira, 5 de novembro
  • Local: Vila Dionísio – São José do Rio Preto
  • Ingressos: disponíveis pela plataforma Leve Ingresso (www.leveingresso.com)