Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Na terceira carteira da fileira junto à janela, uma criança permanecia em silêncio, não levantava a mão, não disputava respostas, não reclamava das atividades.
Quando eu fazia uma pergunta, seus olhos encontravam algum ponto distante do quadro, como se a resposta estivesse escondida em outro lugar. Era um silêncio tão disciplinado que, por vezes, quase passava despercebido, e, convenhamos, em uma sala com muitas crianças juntas, há dias em que o silêncio de um aluno parece até um presente da natureza.
Naquela manhã, porém, alguma coisa me incomodou. Enquanto eu explicava o conteúdo previsto no planejamento, o aluno silencioso desenhava pequenas casas no canto do caderno. Todas tinham janelas, mas nenhuma tinha porta.
Continuei a aula, ou pelo menos tentei.
Há um mito bastante difundido de que o bom aluno é aquele que participa, responde, pergunta e demonstra entusiasmo, outro mito, talvez mais generoso com a nossa saúde emocional, diz que o professor que domina a turma consegue cumprir todo o planejamento. A escola pública, entretanto, tem um talento extraordinário para desmentir mitos antes mesmo do segundo horário.
O sinal toca, falta um professor, chega um comunicado da direção, a coordenação solicita uma devolutiva, alguém bate à porta procurando um estudante e assim seguimos tentando realizar nosso trabalho. Lá está o professor, com seu planejamento impresso, tentando convencer a realidade de que existe um cronograma a cumprir.
Nos documentos oficiais, a aula acontece em ambientes organizados, com objetivos definidos, habilidades selecionadas e estratégias metodológicas cuidadosamente descritas. No chão da escola, a aula acontece também entre uma crise de choro, uma discussão no corredor, um aluno com fome e outro que não dormiu porque passou a noite cuidando do irmão mais novo.
Na sala dos professores, durante o café, ouvimos frases que poderiam compor uma enciclopédia da resistência… “Hoje não consegui dar metade do conteúdo”; “Minha turma está impossível”; “A coordenação pediu o registro para ontem”. Rimos, às vezes, rimos para não chorar.
A direção cobra resultados, a coordenação organiza caminhos, os professores tentam manter a ponte de pé enquanto passam por ela carregando alunos, diários, expectativas e uma quantidade considerável de cansaço.
Entre uma reunião e outra, alguém sempre lembra que precisamos inovar, curiosamente, quase nunca sobra tempo para respirar.
Mas voltemos ao aluno silencioso.
Naquela aula, abandonei a sequência planejada e pedi que os estudantes escrevessem sobre algo que gostariam que os adultos compreendessem sem que precisassem explicar. Houve risadas, reclamações e a inevitável pergunta… “Vale nota, professor?”. A pedagogia, às vezes, precisa negociar com a sobrevivência escolar.
Ele escreveu apenas três linhas, ao final, deixou o papel sobre minha mesa. Li depois que a turma saiu.
“Professor, eu não gosto de falar porque, quando falo em casa, ninguém escuta, na escola, pelo menos, posso ficar quieto sem brigar.”
Reli aquelas palavras, o planejamento daquele dia previa uma habilidade de leitura e interpretação, não previa o encontro com uma solidão tão grande.
Foi quando compreendi que nem todo silêncio é desinteresse, assim como nem toda participação significa aprendizagem. Existem alunos que gritam para serem vistos e outros que desaparecem justamente diante dos nossos olhos.
Há silêncios que escondem timidez, medo, sofrimento, cansaço ou simplesmente o tempo necessário para organizar o mundo por dentro.
O professor, que tantas vezes se imagina maestro de uma orquestra desafinada, precisa aprender a reconhecer também a música que não produz som.
Não significa transformar cada aula em sessão de confidências, nem abandonar o conhecimento em nome de uma sensibilidade sem limites. Significa entender que ensinar é muito mais do que distribuir conteúdos dentro de cinquenta minutos. É perceber quando a explicação precisa esperar, quando a pergunta precisa mudar e quando o silêncio merece mais atenção do que a resposta correta.
Naquela tarde, registrei no diário de classe o conteúdo trabalhado, cumpri a burocracia, assinei os campos e marquei as habilidades previstas. O sistema ficou satisfeito, já o aluno silencioso, não sei.
No dia seguinte, encontrei uma pequena casa desenhada novamente em seu caderno, mas, desta vez, havia uma porta.
Não perguntei nada. Apenas sorri.
Talvez o verdadeiro planejamento não seja aquele que prevê cada minuto da aula, mas aquele que nos prepara para reconhecer o que não estava previsto. Afinal, se passamos tanto tempo ensinando os alunos a interpretar textos, quem nos ensina a interpretar os silêncios?
E se, entre tantas páginas preenchidas, competências registradas e cronogramas cumpridos, a melhor aula for justamente aquela que nunca conseguimos escrever no papel?
Na próxima semana, talvez seja sobre os alunos que falam demais. Ou sobre os professores que aprenderam a sorrir enquanto o mundo desaba no corredor, não sei o que será, mas na educação, assunto pode ter certeza que não faltará.





