A eleição terminou, mas esqueceram de avisar aos grupos de WhatsApp. Agora circulam listas de estabelecimentos que deveriam ser frequentados ou evitados conforme a preferência política dos proprietários. Antes de comprar pão ou consertar o carro, é preciso investigar em quem o comerciante votou. Daqui a pouco, o garçom apresentará o título de eleitor junto com o cardápio. Transformamos até a padaria numa guerra política. Se essa criatividade fosse aplicada à produtividade, talvez já tivéssemos resolvido metade dos nossos problemas.
Imagine Carlos, dono de uma loja com oito funcionários. Há gente de esquerda, de direita, quem votou em branco e quem só quer receber o salário. Carlos precisa vender, pagar impostos, fornecedores e funcionários. Mas algum iluminado colocou sua loja numa lista política. Pronto! O sustento de oito famílias agora depende de uma discussão da qual talvez nem tenham participado. É a genialidade de quem pretende castigar o empresário e acaba acertando o funcionário, a família e até o cachorro, que não tem culpa de absolutamente nada.
Os estrategistas do boicote parecem ignorar um detalhe: dinheiro circula. Empresários e funcionários compram no supermercado, frequentam restaurantes e contratam serviços. Se a loja perde faturamento, reduz compras, despesas e, no limite, empregos. O restaurante perde clientes, o prestador perde contratos e até quem comemorou o boicote acaba vendendo menos. É uma obra-prima da estupidez econômica: prejudicar quem compra de você e depois reclamar que ninguém está comprando. Seria engraçado se tanta gente não pagasse essa conta.
Desenvolvemos uma habilidade impressionante para colocar pessoas em lados opostos. Patrão contra empregado, ricos contra pobres, homens contra mulheres, heterossexuais contra homossexuais, brancos contra negros, direita contra esquerda. Existem desigualdades e injustiças que precisam ser enfrentadas. Mas transformar diferenças numa guerra permanente é outra história. O empresário vira inimigo por empreender, o trabalhador por defender direitos. Parece que a tolerância virou artigo de luxo, disponível apenas para quem concorda conosco.
Cada consumidor tem o direito de escolher onde gastar seu dinheiro. Mas transformar divergências políticas em campanhas para sufocar negócios e ameaçar empregos é uma maneira peculiar de defender um país melhor. A eleição acabou. Alguns comemoraram, outros lamentaram. Mas o resultado não criou duas economias com boletos partidários. O comerciante precisa do consumidor, o trabalhador do emprego e o profissional liberal de clientes. Não existe prosperidade coletiva quando cada grupo torce pela falência do outro.
Isso não significa aplaudir qualquer decisão do governo. Fiscalizar, questionar e cobrar resultados continuam sendo responsabilidades de todos. Mas desejar que a economia fracasse para provar que sua escolha eleitoral estava certa é torcer contra o próprio bolso. Defender qualquer medida apenas porque veio do candidato preferido também é trocar a consciência por uma carteirinha de fã-clube. Quando a inflação aperta ou o emprego desaparece, ninguém recebe desconto por fidelidade partidária.
Talvez esteja na hora de trocar algumas listas. Em vez de catalogar comerciantes por preferência política, poderíamos listar problemas a resolver. Em vez de investigar o voto do vizinho, pensar em fortalecer negócios, qualificar profissionais e criar empregos. Ninguém precisa abandonar suas convicções para trabalhar com quem pensa diferente. Se exigirmos concordância política para fazer negócios, teremos de entrevistar o padeiro, o dentista e até o entregador de pizza. Dependendo das respostas, acabaremos passando fome, com dor de dente e no escuro.
Amanhã cedo, Carlos abrirá sua loja. Os funcionários precisarão trabalhar, o fornecedor cobrará e os clientes continuarão comprando. Nada disso desapareceu com a eleição. O Brasil não precisa de unanimidade política. Precisa de gente disposta a construir, mesmo discordando. Boicotar o vizinho pode alimentar o ego. Mas, quando o dinheiro parar de circular, não adianta procurar culpados na lista: talvez você também esteja nela.
Christiano Guimarães – Empresário, consultor e escritor
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