SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

PARE, OLHE, ESCUTE

Quando eu era criança, para chegar à propriedade rural do meu pai, atravessávamos uma linha de trem. Havia uma placa, que continua lá até hoje: “Pare, olhe e escute”. Era preciso olhar para os dois lados e ouvir, porque nem sempre o trem aparecia no nosso campo de visão, mas continuava vindo.

Na vida também é assim. Diante de certas decisões, precisamos parar antes de agir, olhar ao redor e, principalmente, para o alto, buscando a orientação divina. Precisamos escutar a consciência, os conselhos de quem nos ama, as lições da experiência e, sobretudo, a voz de Deus.

O problema é que fazemos tanto barulho dentro de nós que, às vezes, nem o céu conseguimos ouvir. Queremos respostas imediatas, decidimos no impulso e depois pedimos a Deus que conserte a confusão que fizemos sem consultá-lo.

Diante dos cruzamentos da vida, vá sem pressa. Pare, olhe e escute. Uma pausa pode evitar um desastre, um olhar atento pode revelar outro caminho e uma escuta sincera pode mudar um destino. Nem todo atraso é perda de tempo; às vezes, é Deus nos livrando de uma escolha precipitada.

“Confia no Senhor de todo o teu coração.” (Provérbios 3,5)

VIVER É MUITO PERIGOSO

“Viver é muito perigoso.” Guimarães Rosa resumiu, em Grande Sertão: Veredas, uma verdade: viver é seguir sem todas as respostas.

Se escolhemos, corremos riscos; se não escolhemos, também. Às vezes, o perigo está em falar demais; outras vezes, em calar quando deveríamos nos posicionar. O desconhecimento angustia, mas descobrir a verdade também pode assustar. Se amamos, corremos o risco de sofrer; se confiamos, podemos nos decepcionar. E, por medo de fracassar, quantas vezes desistimos antes de começar?

Ficar parado também é perigoso. Enquanto esperamos o momento perfeito, o tempo, que nunca tira férias, continua trabalhando. E não devolve as oportunidades que deixamos passar.

A sabedoria não está em fingir que os perigos não existem, mas em reconhecê-los sem entregar ao medo o comando da vida. Viver não significa atravessar o caminho sem tropeços. Significa aprender com as quedas e encontrar coragem para continuar.

A fé não promete uma estrada sem pedras, mas nos recorda que não precisamos percorrê-la sozinhos. Viver é perigoso, sim. Mas deixar de viver por medo dos riscos é um baita perigo, e tem seu preço.

“No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo.” (João 16,33)

O BENEFÍCIO DA REGRA

Não basta obrigar alguém a cumprir uma regra, é preciso ajudá-lo a compreender o benefício da regra. A reflexão educacional de Jean Piaget ajuda a entender: obedecer por medo é diferente de agir por consciência.

Pense no cinto de segurança. Usá-lo não deveria ser apenas uma forma de evitar multas, mas uma atitude de proteção à vida.

Isso vale para a educação dos filhos, para a escola e para os mandamentos da Lei de Deus. Deus não nos deu mandamentos para estragar nossa diversão, como se fosse um guarda celestial distribuindo multas. Eles orientam escolhas e protegem nossa dignidade.

Quando alguém obedece apenas por medo da punição, basta desaparecer a fiscalização para surgir a desobediência. Quando compreende o sentido da regra, passa a agir mesmo quando ninguém está olhando.

Educar é formar consciências, explicar, dar exemplo e mostrar que nem toda proibição é inimiga da liberdade.

A verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que desejamos, mas em escolher com responsabilidade. A regra mais bem-sucedida não é a que alguém impõe, mas aquela cujo sentido aprendemos a reconhecer.

“Se me amais, guardareis os meus mandamentos.” (João 14,15)

DEIXE SEU FILHO COM UM POUCO MAIS DE SEDE

Uma planta precisa desenvolver raízes para buscar água e nutrientes no solo. Quando tudo está disponível na superfície, ela pode não explorar a terra da mesma maneira.

Pense na educação dos filhos. Por amor, muitos pais evitam qualquer dificuldade: resolvem problemas, antecipam desejos e transformam frustrações em emergências. Querem tanto proteger que impedem os filhos de desenvolver recursos para enfrentar a vida.

É como oferecer água o tempo inteiro sem permitir que a planta crie raízes profundas. Na estiagem, pode não estar preparada para resistir.

Filhos precisam de amor, proteção e cuidado, mas também precisam aprender a esperar, ouvir um não, assumir responsabilidades e lidar com pequenas frustrações. Isso não é negligência, mas incentivo à autonomia.

A vida não perguntará se estamos prontos antes de apresentar desafios. Pais devem preparar os filhos para caminhar com autonomia, responsabilidade e fé.

Amar não é retirar todas as pedras do caminho. É ensinar a caminhar, oferecendo a mão quando necessário, sem carregar o filho no colo para sempre. Quem nunca aprende a enfrentar a sede talvez não descubra a profundidade das próprias raízes.

“O Senhor corrige aquele a quem ama.” (Provérbios 3,12)

CORDEIRO COM PELE DE LOBO: QUEM COLOCOU?

Você certamente já ouviu: “Fulano é um lobo em pele de cordeiro”. A expressão descreve quem esconde más intenções por trás de uma aparência inocente. Sorriso e fala mansa não garantem bondade.

Mas existe outra maneira de distorcer a imagem de alguém: colocar uma pele de lobo sobre quem está tentando ser cordeiro. Fofocas, inveja e acusações sem fundamento fazem isso. De repente, boa intenção vira interesse e generosidade vira falsidade.

Não vivemos apenas entre lobos e cordeiros, e todos precisamos examinar nossas atitudes. O problema começa quando julgamos alguém não pelo que conhecemos, mas pelo que nos contaram.

Antes de condenar uma pessoa, vale perguntar: tenho fatos ou apenas ouvi uma versão? Busco a verdade ou alimento uma suspeita conveniente? Uma mentira pode destruir em minutos uma reputação construída durante anos.

Jesus nos ensina o discernimento, não o julgamento precipitado. Nem todo cordeiro é inocente, nem todo acusado é culpado. Às vezes, quem mais grita apontando o lobo tenta esconder a própria pele. Por isso, antes de repetir uma acusação, procure ouvir, verificar e agir com justiça.

“Não julgueis, e não sereis julgados.” (Mateus 7,1)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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