O tempo, sempre ele.
Era 1º de abril de 1933. Sob o regime de Adolf Hitler, grupos organizados posicionaram-se em frente a lojas, escritórios de advocacia e consultórios médicos de judeus segurando cartazes que incentivavam o boicote a esses comerciantes e prestadores de serviço. Em menos de cinco anos, a perseguição escalou: passaram a confiscar tais estabelecimentos, e os poucos que resistiram acabaram vendo seu comércio depredado ou incendiado.
A maldade humana, às vezes, como diria Hannah Arendt, parte de ações supostamente banais, vinda de gente banal e escala às maiores barbaridades. Não sou eu quem conta; é a História, a que ainda está nos livros que não foram queimados, nos filmes que não cansam de retratar os horrores decorrentes das perseguições ideológicas.
Nasci em um país redemocratizado, voto desde os 16 anos. Estudei Direito a partir da Constituição Cidadã. A perseguição política parecia uma “passagem desbotada na memória” de minha geração. Não mais.
Hoje, o linchamento é presencial e virtual. E, naturalizado, é preciso que se diga, parece não causar desconforto em quem presencia. Pessoas sem qualquer pudor circulam listas de boicote por aplicativos de mensagens, agridem opositores políticos, naturalizam o assédio eleitoral e riem de piadas discriminatórias, aumentando, sempre que podem, seu alcance e engajamento.
Não é impressão. Foram cerca de duas mil denúncias de assédio eleitoral recebidas pelo Ministério Público do Trabalho só nas eleições de 2026, segundo a Agência Brasil. O Ministério Público de São Paulo e de outros estados já investigam crimes de discriminação e de violência política.
Romper com esses padrões não exige grande desenvolvimento intelectual. Hannah Arendt, ao observar o julgamento de um dos burocratas do nazismo, concluiu que o mal nascia não da estupidez nem da monstruosidade, mas da recusa em pensar. Exige-se apenas isso: pensar, e ter consciência de si mesmo. Há uma linha divisória de civilidade que parte da população atravessou sem questionar; isso acontece de tempos em tempos. Foi na década de 1930, e nos sonda novamente.
Como corrigir um mundo em que as pessoas saúdam torturadores, violentam opositores políticos e acreditam que silenciar as diferenças colocando todos em uma única caixa ideológica seria sinônimo de um bom lugar para viver?
Espanta ver o oprimido forjar-se no opressor. Mas encanta ver que, mesmo nos capítulos mais sombrios da História, o tempo, sempre ele, tem sido implacavelmente justo.
Danielle Biazi
Outubro de 2026.





