Antes do aluno, existe um nome.

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Cheguei à escola naquela manhã com a sensação perigosa de quem acredita ter tudo sob controle.

Plano de aula impresso com os objetivos definidos. Atividades separadas em pequenos montes, cada uma cuidadosamente pensada para ocupar o seu devido lugar no tempo previsto e até o canetão parecia colaborar.

Eu havia planejado uma aula tão organizada que, se dependesse do papel, a turma entraria em silêncio, sentaria, ouviria atentamente minhas explicações, realizaria as atividades e, ao final, sairia carregando algum conhecimento novo e uma discreta admiração pelo professor.

O papel, como sempre, tinha boas intenções, mas, a realidade, porém, estava esperando no corredor.

Bastaram alguns minutos…

Um aluno chegou chorando porque havia brigado com o irmão antes de sair de casa, escutei alguém gritar, “esqueci o caderno”, uma menina queria contar, com a urgência de quem anuncia uma catástrofe nacional, que o cachorro havia fugido e dois começaram uma discussão por causa de um lápis que, segundo ambos, era absolutamente deles e, o que não poderia faltar, alguém levantou a mão para pedir para ir ao banheiro. A partir daí, quem é professor já sabe…

— Professor, posso beber água?

— Pode.

Dois minutos depois:

— Professor, posso ir também?

A aula mal havia começado e meu planejamento já parecia um documento oficial depois de passar pela realidade brasileira, cheio de boas intenções, carimbos e pouca relação com o que acontece no chão de uma escola.

E foi então que percebi novamente uma coisa que a experiência insiste em ensinar, embora nenhum curso consiga explicar completamente que antes de ser aluno, cada criança é alguém.

E alguém tem nome, parece pouco, mas, não é. Durante muito tempo, talvez tenhamos acreditado que ensinar consistia em organizar conteúdos, distribuir atividades, estabelecer objetivos, registrar habilidades e acompanhar resultados, tudo isso é importante, evidentemente que é. Uma escola sem planejamento corre o risco de transformar o improviso em método.

Mas existe uma diferença enorme entre planejar uma aula e estar preparado para encontrar as pessoas que estarão dentro dela.

Porque o documento diz “aluno” e a sala de aula diz “João”, apresenta “Maria” que dormiu mal, aí, vem o relatório e aponta a necessidade de uma intervenção pedagógica, mas, esquece que na carteira do fundo existe um “Everaldo” que passou a noite ouvindo os pais discutirem.

A teoria fala em aprendizagem significativa enquanto nós professores estamos tentando achar uma resposta para aquele aluno que está aflito pensando se, após a discussão que presenciou, os pais voltaram a se entender.

E naquele instante nenhum cronograma sabe exatamente o que fazer e é ai que a aula começa.

Há uma certa ironia nisso tudo, passamos horas preenchendo planejamentos para provar que sabemos o que faremos e, depois, passamos o restante do dia provando que sabemos o que fazer quando não conseguimos fazer aquilo que planejamos.

Talvez essa seja uma das grandes especialidades da escola pública, desmontar, antes do segundo horário, aquilo que levamos a noite inteira para organizar.

O planejamento é o mapa, a sala de aula o território. Todos sabemos que mapas são excelentes até encontrarmos uma ponte interditada, uma rua em obras ou uma criança dizendo que não quer entrar porque está com saudade da mãe.

O professor, então, precisa ser um pouco cartógrafo, um pouco navegador e, em certos dias, quase um organizador do impossível, e isso não aparece nos documentos.

Parar a aula e perguntar se a criança está bem não uma técnica sofisticada, não uma metodologia revolucionária muito menos uma intervenção registrada em três vias.

Quando chamamos uma criança pelo nome, fazemos algo muito maior do que identificar quem deve responder à chamada, estamos dizendo, silenciosamente que estamos vendo a criança ali, fazendo parte daquele momento, e, talvez poucas coisas sejam tão pedagógicas quanto isso.

Imagina, uma criança acostumada a ser chamada de “você”, “menino”, “aí do fundo”, “quem está conversando”, descobre que alguém sabe quem ela é.

Às vezes, antes de ensinar a tabuada, precisamos recuperar a atenção de uma criança, antes de pedir que ela leia um texto, precisamos fazer com que queira permanecer conosco, antes de exigir que participe, talvez seja necessário descobrir por que decidiu se esconder atrás do silêncio.

E isso fica entre uma atividade e outra, entre o sinal e a fila, está entre “abra o livro na página 42” e o “professor, posso conversar com você?”. Não está nos planejamentos, está nas entrelinhas, no lugar que a escola acontece.

Não quero que abandonem o planejamento, como disse, ele é essencial, mas, precisamos compreender que planejamento não pode ser uma camisa de força vestida sobre uma realidade que respira.

Há dias em que conseguimos cumprir tudo, mas, em outros nem a metade sem dizer aqueles em que a atividade prevista para quarenta minutos desaparece completamente porque uma conversa aparentemente pequena transforma a manhã inteira.

Talvez tenha sido justamente nesses dias que algumas das minhas melhores aulas aconteceram, não estavam no papel, não tinha introdução, desenvolvimento e conclusão. Sem avaliação, sem tabelas, mas com mudanças… Alunos que aprenderam o valor de pedir desculpas, a timidez que deu espaço para a participação e aquele aluno que percebeu que não tinha motivo para ficar escondendo o caderno.

E, no final, talvez eu tenha ensinado menos conteúdo e mais humanidade, o problema é que esse tipo de aprendizagem não costuma caber facilmente nas planilhas e não produz um número bonito para uma reunião.

A burocracia escolar gosta de coisas que possam ser registradas, a vida escolar, entretanto, é especialista naquilo que escapa ao registro.

E o professor vai se desgastando nesse intervalo entre o que precisa entregar e o que precisa perceber, entre a cobrança por resultados e a necessidade de simplesmente sentar ao lado de alguém e ouvir.

Talvez seja por isso que, depois de tantos anos em sala, eu tenha começado a desconfiar do chamado “planejamento perfeito”.

A aula perfeita é uma espécie de criatura mitológica da educação. Todos já ouviram falar dela, alguns juram que existe, mas ninguém consegue apresentar provas convincentes.

A aula real é outra coisa, ela tropeça, atrasa, interrompe, muda, perde o lápis, derrama água, chora, da risada, questiona e, às vezes, aprende.

O professor experiente não é aquele que consegue prever tudo, mas, consegue e sabe reconhecer quando o imprevisto está tentando ensinar alguma coisa.

Talvez a maior competência pedagógica não seja cumprir rigorosamente o roteiro, mas saber quando é preciso fechá-lo, respirar fundo e olhar para a turma.

Olhar de verdade, porque há momentos em que a melhor estratégia pedagógica não está na próxima atividade e sim em olhar para o aluno, chama-lo pelo nome e perguntar se está tudo bem! E talvez esse aluno, que naquela manhã parecia apenas mais um aluno entre tantos, descubra que seu nome, dito por alguém que realmente o enxergou, pode ser o começo de uma mudança.

No fim do dia, quando a escola finalmente silencia, o professor recolhe os cadernos, apaga o quadro e encontra sobre a mesa o planejamento cuidadosamente elaborado.

Algumas atividades não foram feitas, objetivos transferidos para a próxima aula e um cronograma que novamente foi derrotado pela realidade.

Alguns objetivos ficaram para amanhã.

O cronograma foi novamente derrotado pela realidade.

Mas talvez a aula tenha acontecido justamente onde não estava prevista, e, o ensinar seja também isso preparar caminhos sem esquecer que quem caminha por eles não são conteúdos, competências ou habilidades, mas pessoas.

Crianças com nomes, histórias, medos, sonhos e dias difíceis.

E se o planejamento serve para nos dizer o que pretendemos ensinar, quem nos ensina a perceber aquilo que a vida colocou diante de nós?

Talvez a pergunta que devêssemos levar para casa, depois do último sinal, não seja apenas “Consegui cumprir o planejamento?”, mas uma outra, muito mais incômoda:

Hoje, entre tudo aquilo que estava escrito no papel, quantas vezes eu realmente parei para chamar alguém pelo nome e enxergar a pessoa que existia por trás dele?