Professor, amanhã tem mais?

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Naquela manhã, entreguei um pequeno texto para a turma, uma história simples, dessas que cabem em poucas páginas e, com alguma sorte, também cabem na atenção de uma criança.

Solicitei uma leitura compartilhada, alguns acompanharam com o dedo, outros começaram imediatamente e teve um terminou antes dos demais e ficou olhando para o teto, como quem aguardava uma autorização para continuar existindo.

Neste momento, uma menina olhou para o relógio e perguntou quantas linhas deveria escrever e antes que eu respondesse, completou, vai valer nota?

Já no meu momento reflexivo, pronto para responder de forma clara e objetiva aquelas perguntas, esculto um aluno no fundo da sala… Precisa ler tudo?

Eu quase ri, quase! Porque a escola tem dessas ironias onde às vezes planejamos uma belíssima atividade para despertar o prazer da leitura e, cinco minutos depois, estamos arbitrando uma discussão para descobrir quem pegou o lápis de quem.

A aula planejada encontra a escola real e como sabemos a escola real raramente respeita o planejamento, então continuei a leitura.

Finalizando aquele texto perguntei a turma o que tinham achado da história e as respostas vieram como bombas em minha direção.

Um disse que achou a história grande demais, outro já foi mais direto e disse que a melhor parte da história foi quando ela terminou.

A turma riu, eu também, mas fiquei pensando naquela frase durante o resto do dia.

Porque talvez exista uma diferença enorme entre uma criança que sabe ler e uma criança que descobriu a leitura.

Aprender a decodificar palavras é uma conquista extraordinária, imagine abrir uma porta que antes parecia fechada e descobrir que aqueles sinais no papel têm som, significado, intenção que nos ajuda a atravessar sozinho uma placa, uma história, uma carta, uma notícia.

Mas abrir uma porta não significa necessariamente entrar, então, uma criança pode aprender a juntar letras, pronunciar palavras, compreender informações explícitas, responder às perguntas de um texto e até tirar uma boa nota na avaliação.

Pode ler porque o professor pediu, os pais mandaram e para estudar para uma prova, mas, ainda assim não descobriu realmente o que é ler. Isso não é por falta de capacidade, mas, pode ser que em algum momento, nós tenhamos apresentado o livro mais como obrigação do que como convite.

Existe uma distância considerável entre dizer que alguém precisa ler e convidar alguém a descobrir o que existe além do que lê.

Quando alguém precisa ler, soa como cobrança, mas, quando se é convidado a perceber a leitura estamos provocando curiosidade e a curiosidade é uma espécie de combustível silencioso da leitura.

O problema é que o professor conhece muito bem essa diferença, mas nem sempre consegue trabalhar a partir dela. Há conteúdo para cumprir, habilidades para desenvolver, avaliações para aplicar, registros para preencher, reuniões, relatórios, planejamentos, conselhos, conflitos, famílias, faltas, dificuldades de aprendizagem, salas cheias e crianças que chegam à mesma turma em pontos completamente diferentes da estrada.

Enquanto isso, alguém espera que o professor forme leitores. Mas ninguém conta que às vezes, com trinta e tantos alunos à sua frente e uma atividade cuidadosamente preparada, descobrimos que metade da turma ainda está tropeçando nas palavras, enquanto a outra metade já termina o texto antes de ele explicar a proposta. Algumas leem com fluência, outras soletram e algumas estão descobrindo que a letra representa um som isso sem esquecer aquela criança que olha para o livro como quem olha para um objeto deixado por engano sobre a sua carteira.

Muitas vezes eu ouço uma criança dizer que não gosta de ler. E talvez devêssemos ouvir essa frase com mais cuidado.

Será que ela realmente não gosta de ler, ou ainda não encontrou uma história que conversasse com ela?

Será que não gosta de livros, ou não gosta da experiência de leitura que lhe foi apresentada?

Será que rejeita a leitura, ou rejeita a obrigação, a cobrança, a ficha, a prova, a quantidade de páginas e aquelas perguntas que aparecem religiosamente depois da última linha?

Não tenho uma resposta definitiva e desconheço quem tenha, mas há perguntas que merecem permanecer abertas, pois, um leitor pode nascer de maneiras que nenhuma planilha consegue registrar.

Pode nascer quando uma história provoca uma gargalhada inesperada, quando um personagem lembra o avô, uma menina descobre, num livro, uma personagem que sente medo exatamente como ela. Quando um poema produz alguns segundos de silêncio e até quando uma aventura termina na página, mas continua na cabeça.

Um leitor nasce quando uma criança fecha o livro e pergunta se há mais livros como aquele que acabou de ler, porque ali existe algo que a avaliação dificilmente captura.

A criança não quer mais acertar, ela passa a querer descobrir, ao invés de querer encontrar a resposta da atividade ela está querendo saber o que acontece depois. Certa vez, depois de uma leitura aparentemente comum, um aluno me perguntou o que tinha acontecido com o personagem depois, a história já havia terminado, mas para aquele menino não. Fiquei ali, alguns segundos olhando para ele e admirando o nascimento de um leitor. Naquele instante em que a criança percebe que o livro não terminou dentro dela.

A leitura pode ser uma janela, mas também uma ponte. Pode nos levar para uma vida que nunca viveremos, para uma casa onde jamais entraremos, para uma época que não conhecemos, para sentimentos que ainda não conseguimos nomear.

Um livro pode ensinar uma criança a ler e uma história pode ensiná-la a querer continuar lendo.

E talvez exista uma diferença enorme entre essas duas coisas.

Não se trata de abandonar perguntas, avaliações ou acompanhamento pedagógico. Precisamos saber o que uma criança aprendeu e observar avanços, dificuldades, hipóteses, níveis de compreensão. A escola não pode abrir mão disso.

Mas existe algo desconfortável quando começamos a transformar toda experiência de leitura em número.

Quantas páginas? Quantas questões? Quantos acertos? Quanto tempo? Qual habilidade? Qual nível?

Tudo isso pode ser necessário, mas nem tudo que importa cabe em uma tabela.

Podemos registrar que uma criança respondeu corretamente às perguntas de interpretação.

Mais difícil é registrar o instante em que ela fechou o livro, ficou olhando para o nada e permaneceu alguns segundos em silêncio porque alguma coisa daquela história mexeu com ela.

Talvez esse momento não tenha campo no formulário, mas pode ter sido um dos momentos mais importantes da aula.

A tecnologia também entrou nessa conversa, embora seja fácil demais colocar a culpa nas telas, não acredito que o celular seja o vilão de toda história.

As crianças vivem cercadas por vídeos, jogos, notificações, imagens, sons e respostas imediatas. É outro modo de atenção.

O livro pede outra coisa como tempo, demora, imaginação, pede que a criança permaneça diante de uma pergunta sem receber imediatamente a resposta.

A tela frequentemente entrega e o livro, muitas vezes, convida.

E talvez formar leitores seja também ensinar uma criança a suportar o prazer da descoberta que não acontece imediatamente. Nem todas as casas têm estantes cheias de livros e nem todas as famílias tiveram a oportunidade de construir uma relação próxima com a leitura.

Há crianças que crescem vendo adultos lendo, mas, outras crescem vendo adultos quase exclusivamente diante das telas.

Algumas têm livros no quarto enquanto outras encontram o primeiro livro de suas vidas na biblioteca da escola.

Por isso, a escola pública ocupa um lugar tão bonito e tão desafiador nessa história.

Às vezes, o professor é a primeira pessoa que apresenta uma criança a um livro como quem apresenta um amigo e talvez seja por isso que ele insiste, mesmo cansado. Mesmo quando o planejamento não cabe na semana e a burocracia parece ter desenvolvido vida própria.

Mesmo quando ele se pergunta, no fim de um dia difícil:

“Como vou fazer esta criança gostar de ler se eu mal consegui terminar o planejamento desta semana?”

Ele insiste e percebe pequenas coisas como a criança que antes dizia que odiava livros começa a escolher um e assim outra pede para levar um livro para casa, então uma criança chega em casa e conta para a mãe a história que ouviu na escola. Assim uma rede de leitores vai se formando através de pequenos acontecimentos quase invisíveis.

Mas a educação costuma ser feita desses pequenos acontecimentos que não fazem barulho.

Digo que um leitor não nasce quando consegue pronunciar corretamente todas as palavras de uma página, ele vem ao mundo quando uma palavra passa a significar alguma coisa em sua própria vida e uma história lhe oferece uma pergunta que não estava procurando fazendo com que ele perceba que pode encontrar em algumas páginas alguém que nunca conheceu e, ainda assim, compreender um pouco melhor a si mesmo.

Alfabetizar é ensinar a criança a entrar no mundo das palavras, formar leitores é ajudá-la a descobrir por que vale a pena permanecer nele.

No fim daquela aula, recolhi os textos, as crianças guardavam seus materiais. Eu já estava pensando na próxima atividade quando o mesmo aluno que havia perguntado se precisava ler tudo voltou até minha mesa com o livro na mão. Olhou para mim e perguntou:

— Professor… posso levar esse para casa?

Dessa vez, não perguntei se ele tinha entendido a história, não perguntei quantas perguntas conseguiria responder, apenas entreguei o livro.

Ele colocou na mochila e saiu.

Fiquei olhando.

Talvez aquele gesto não apareça na próxima avaliação e não produza nenhuma estatística, mas, existe algo que nenhuma planilha deveria nos fazer esquecer.

Uma criança pode aprender a decodificar palavras, localizar informações, responder perguntas e tirar nota máxima em tudo. Mas há um momento em que tudo isso deixa de ser apenas aprendizagem escolar e começa a se transformar em experiência humana quando ela fecha o livro e continua pensando naquela história querendo saber se amanhã tem mais. Talvez seja aí que esteja a diferença entre ensinar uma criança a ler e ajudá-la a descobrir a leitura.

Porque, no fundo, talvez nunca tenha sido apenas sobre livros.

Foi sobre infância, imaginação, curiosidade e sobre o direito de uma criança descobrir que, dentro de algumas páginas, pode existir um mundo inteiro esperando por ela.

E talvez, no fundo, tenha sido sempre sobre não ensinar apenas uma criança a ler palavras, mas ajudá-la a descobrir que também pode ler o mundo.