SOBRIEDADE JÁ

5
Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

DE PERTO, NINGUÉM É NORMAL

Já percebeu que, de longe, quase todo mundo parece normal?

O problema é quando chegamos perto.

De longe, enxergamos a versão editada das pessoas. De perto aparecem as manias, os defeitos, as inseguranças e aquela capacidade que todos temos, uns mais, outros menos de decepcionar quem se aproxima.

Relacionamentos são exercícios de realidade. Quando conhecemos alguém profundamente, descobrimos que a pessoa real quase nunca corresponde àquela que criamos em nossa cabeça.

E existe uma ironia nisso: enquanto descobrimos os outros, alguém também está descobrindo a gente.

Em algum momento, vão pensar: “Eu não imaginava que ele era assim!”

Pois é… provavelmente você também não é exatamente como imaginam.

Amar não é encontrar alguém perfeito, é aprender a conviver com alguém real,

porque de perto todo mundo tem alguma coisa que incomoda, e se formos esperar alguém sem defeitos talvez precisemos morar sozinhos.

Relacionamentos não sobrevivem porque as pessoas não decepcionam, sobrevivem quando descobrimos que apesar das decepções ainda vale a pena ficar.

“Suportai-vos uns aos outros e perdoai-vos mutuamente.” (Cl 3,13)

O LIMITE DO “EU POSSO”

Imagine você passeando de barco com o dono quando, de repente, ele resolve fazer um furo no próprio barco, afinal, o barco é dele. Então ele pode fazer o que quiser?

Claro que não, né, porque se aquele furo colocar todos em risco, o problema deixa de ser apenas dele. Nenhum direito individual pode se sobrepor ao direito à vida. Essa lógica aparece em dois temas polêmicos: aborto e pena de morte. Curiosamente, há quem defenda um e também o outro. Talvez porque, no fundo, exista uma mesma ideia: “Eu decido quem merece viver.”

E aí mora o perigo, quando começamos a escolher quem merece viver, passamos a ocupar um lugar que não nos pertence.

A vida não é propriedade, é dom.

Talvez a pergunta mais importante não seja “Quem é o dono do barco?”, mas: “Quem é o dono da vida?”

Para quem crê, a resposta é simples: Deus.

“Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” (Jo 10,10)

Podemos até pensar que somos donos de muitas coisas. Da vida, não.

A SOLIDARIEDADE É HORIZONTAL

Nós já nascemos com um certo instinto de competição, não é?

Aquele bebê todo meigo logo começa a disputar o brinquedinho com o irmão. Ninguém ensinou e de repente aparece o famoso: “É meu!”

Desde cedo aprendemos a chegar primeiro, ter mais e superar o outro. Não há nada de errado em buscar superação. O problema começa quando, para vencer, precisamos que alguém perca.

A competição produz vencedores. A solidariedade produz pessoas melhores.

E existe uma diferença importante entre caridade e solidariedade. Às vezes, a caridade pode assumir uma posição vertical: alguém olha de cima para quem precisa,

a solidariedade é horizontal, não olha o outro de cima para baixo, mas de lado, no mesmo nível.

É quando percebemos que ninguém é tão rico que nunca precise de ajuda e ninguém é tão pobre que não tenha alguma coisa para oferecer.

E talvez esteja aí a grande surpresa: quando estendemos a mão para ajudar alguém, descobrimos que nem sempre somos nós que estamos salvando alguém, às vezes, é o outro que está salvando alguma coisa dentro de nós

“Levai os fardos uns dos outros.” (Gl 6,2)

A FÉ TRANSCENDE A RAZÃO

Você pode ter certeza: fé não é apenas sentimento. Fé, acima de tudo é uma decisão. É confiar quando a razão ainda não conseguiu montar o quebra-cabeça.

Quanto maior a fé, menos precisamos transformar tudo em pergunta. Não porque deixamos de pensar, mas porque aprendemos que existem respostas que a razão humana, sozinha, não consegue alcançar

São Paulo afirma: “A loucura de Deus é mais sábia do que os homens.” (1Cor 1,25)

E olhando por essa perspectiva, algumas palavras de Cristo começam a fazer sentido: dar a outra face, perdoar, servir, carregar a cruz, amar quem não nos ama.

Para a lógica humana, parecem absurdos. Para quem tem fé, tornam-se caminhos.

A fé não elimina a razão. Apenas nos lembra que a razão não é o último andar do edifício.

Por isso, por mais sábio que você seja, não tenha vergonha de acreditar. Há coisas que a inteligência explica, e há coisas que somente a fé nos ensina a compreender.

APRENDA COM OS ERROS DOS OUTROS

Desde criança ouvimos pais e professores repetirem: “A pessoa inteligente aprende com os próprios erros.”

Concordo. Em parte.

Errar pode ensinar. Afinal, algumas lições só entram na cabeça depois que batemos a cabeça.

Mas existe um nível ainda maior de inteligência: aprender com o erro  dos outros.

Não preciso errar onde alguém já errou. Não preciso colocar a mão no fogo para descobrir que queima. Alguém já fez esse” favor” por mim.

O problema é que, muitas vezes, olhamos para o erro alheio e pensamos: “Comigo será diferente.”

Pode ser, mas também pode ser exatamente igual.

A experiência dos outros pode ser uma espécie de atalho. Ignorá-la é escolher a estrada mais longa só para descobrir aquilo que alguém já descobriu antes.

Por isso, talvez seja hora de atualizar aquele velho ditado: O inteligente aprende com os próprios erros. O sábio aprende com os erros dos outros. E o tolo acha que nenhum dos dois serve para ele.

“O homem prudente vê o perigo e se esconde; os ingênuos avançam e sofrem as consequências.” (Pr 22,3)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

@novosinai

@carlinhosmarques_novosinai

[email protected]

www.novosinai.org.br