O que o professor inventa quando falta quase tudo?

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

Naquela manhã, o professor chegou à escola carregando uma pasta, uma garrafa de café e a convicção, um pouco perigosa, de que, desta vez, tudo daria certo.

Tinha preparado a aula na noite anterior. Pensara na sequência das atividades, separara os materiais, imaginara as crianças trabalhando em grupo, havia até escolhido o momento em que faria uma determinada pergunta que poderia provocar uma boa conversa.

Hoje vai dar certo, pensou, mas, no mesmo instante que abriu o armário percebeu que o papel não era suficiente, a impressão foi recusada pelo coordenador e a internet, bom, essa não queria funcionar naquele exato momento.

Olhou novamente para a pasta, depois para a sala, para os alunos, que já começavam a entrar.

Uma criança perguntou… Professor, o que a gente vai fazer hoje?

Ele respirou. A pergunta parecia simples, mas para aquele instante, carregava quase a solenidade de uma prova oral.

E agora?

Essa é uma pergunta que muitos professores aprendem a responder sem dizer em voz alta, porque a escola pública tem dessas coisas. O planejamento começa no papel e, às vezes, termina onde ainda existe uma fita adesiva e o professor aprende cedo que uma atividade cuidadosamente pensada pode desaparecer diante de uma impressora sem tinta. Que uma aula planejada para usar tecnologia pode virar conversa porque o equipamento resolveu descansar e que o material solicitado há semanas pode continuar fazendo uma viagem misteriosa entre setores, armários, pedidos e protocolos.

E então começa a criatividade de emergência onde o milagre da multiplicação acontece, uma folha vira quatro, quatro viram oito. A caixa de papelão que alguém ia jogar fora ganha uma segunda vida e, em poucos minutos, transforma-se em alguma coisa que a turma reconhece como um recurso pedagógico, embora provavelmente nenhum manual de inovação tenha previsto aquilo.

As tampinhas aparecem sobre as mesas, números escritos no quadro e crianças discutindo matemática com uma seriedade que talvez alguns adultos não tenham quando discutem o orçamento da escola.

Uma história que seria acompanhada por imagens passa a ser contada, e acontece uma coisa curiosa, as crianças imaginam.

Uma delas enxerga um castelo onde havia apenas uma caixa, outra transforma uma folha em mapa, uma terceira inventa uma regra para o jogo que ninguém havia pensado.

O professor observa, sorri e percebe que a aula aconteceu. Não exatamente como havia planejado, talvez melhor em alguns aspectos. Mas há uma diferença importante entre achar beleza na capacidade humana de criar e considerar normal que ela seja constantemente convocada para tapar buracos.

É aí que mora o problema, durante muito tempo, aprendemos a elogiar o professor que “dá um jeito”.

Professor bom dá um jeito, cria, improvisa, compra coisas do próprio bolso, se dedica e fica depois do horário. Professor competente transforma qualquer coisa em recurso.

A frase parece bonita, até o dia em que percebemos que ela pode esconder uma pergunta muito menos bonita… Por que ele precisa fazer isso tantas vezes?

Existe uma distância curiosa entre o discurso da inovação pedagógica e a realidade de uma sala de aula.

Nos documentos, fala-se em metodologias ativas, recursos diversificados, tecnologia, ambientes estimulantes, experiências significativas.

Na sala, o professor está procurando uma extensão elétrica.

No discurso temos tecnologia educacional., na prática… é bom nem comentar

É quase uma comédia, se não fosse tão cotidiano e talvez o humor seja uma das maneiras que encontramos de suportar certas contradições.

O professor aprende a ser uma espécie de artesão do improvável. Trabalha com aquilo que encontra, reaproveita, adapta, inventa, recorta, reorganiza.

Mas não deveria precisar transformar precariedade em matéria-prima todos os dias.

Criatividade faz parte da docência e improvisação também. Afinal, ensinar seres humanos nunca coube inteiramente dentro de um planejamento.

Uma pergunta inesperada muda uma aula, uma descoberta, a participação de um aluno que quase não participa e até uma discussão aparentemente pequena abre uma janela enorme para o conhecimento, isso podemos chamar de criatividade pedagógica, agora precisar improvisar porque o recurso básico não chegou… bom são situações bem diferentes.

E talvez tenhamos misturado as duas por tempo demais.

Há uma beleza imensa quando uma criança aprende usando objetos simples, quando descobre a multiplicação contando tampinhas ou lê uma história contada pelo professor e percebe que a imaginação não precisa de uma tela para funcionar.

Esses são pequenos acontecimentos que nenhum planejamento consegue garantir completamente.

São os verdadeiros milagres da escola. Mas há uma coisa que precisamos dizer com cuidado, milagre pedagógico não pode virar desculpa para precariedade.

Porque a criança merece criatividade, mas também merece biblioteca funcionando, merece livros, materiais, tecnologia, sala adequada e professores que possam planejar sem precisar descobrir, todas as manhãs, qual equipamento resolveu não colaborar.

E o professor merece condições para trabalhar.

Certa vez, depois de uma dessas aulas improvisadas, uma criança ficou alguns segundos olhando para o material que havíamos construído.

Não havia nada sofisticado ali, apenas papel, tampinhas, uma caixa reaproveitada e algumas ideias.

Ela guardou as coisas com cuidado e, antes de sair e perguntou se amanhã teríamos novamente essa aula.

Foi uma pergunta pequena, mas marcou. Porque naquele dia, apesar da impressora, apesar da falta de material, apesar daquilo que não funcionou, alguma coisa tinha funcionado.

A aprendizagem, o vínculo, a curiosidade e a escola.

Talvez seja isso que sustente tantos professores depois de um dia difícil, não a ideia de serem heróis, mas a lembrança de que, em algum momento, uma criança compreendeu alguma coisa que antes parecia impossível.

O professor entra na sala carregando mais do que uma pasta. Ele vem com repertório, experiencia, memória, esculta, imaginação. E aquela esperança discreta, quase teimosa, de que ainda é possível ensinar.

Mas talvez seja hora de termos cuidado com os elogios.

Porque existe uma diferença entre admirar a criatividade de quem ensina e usar essa criatividade como justificativa para oferecer menos do que a escola precisa.

O professor pode ser inventor, artesão, usar sua criatividade em suas aulas, mas ele não deveria precisar transformar falta em método.

No fim daquele dia, a sala estava silenciosa, sobre uma das mesas havia uma caixa de papelão, algumas tampinhas e uma folha cheia de números.

O material improvisado parecia pequeno, mas a aprendizagem era gigante.

E talvez seja esse o verdadeiro milagre de transformar a falta no extraordinário que nasce de coisas absolutamente comuns.

Mas, antes de chamar isso de milagre, talvez devêssemos olhar para aquilo que faltou e fazer uma pergunta que incomoda um pouco mais do que a velha pergunta “e agora?”.

Quantas vezes chamamos de dom aquilo que, na verdade, nasceu da necessidade?