
A história de Dakota, uma cadela sem raça definida adotada no Centro de Zoonoses de Votuporanga, mostra que a adoção responsável é um compromisso que atravessa toda a vida do animal e, muitas vezes, acompanha as maiores transformações de quem decide acolhê-lo.
@caroline_leidiane
Enquanto dezenas de cães latiam em busca de atenção, uma filhote parecia completamente indiferente à movimentação no Centro de Zoonoses de Votuporanga. Brincava com os outros animais, mordiscava os companheiros de canil e parecia não compreender que, dali a poucos minutos, sua vida mudaria para sempre.
Foi somente quando uma jovem a pegou nos braços que algo diferente aconteceu. A pequena cadela de pelagem, focinho e olhos caramelos encostou a cabeça em seu peito e permaneceu imóvel por alguns instantes.
Era 2009.
Quinze anos depois, Dakota deixaria lembranças suficientes para ilustrar o significado do Dia do Vira-Lata, celebrado na última sexta-feira, 31 de julho. Sua trajetória evidencia que cães sem raça definida, conhecidos pela sigla SRD, carregam uma história que vai além da origem miscigenada: revelam superação, afeto e uma notável capacidade de construir vínculos.
Inspirado no filme “Meu Cachorro é um Vira-Lata”, lançado em 1979, a data ganhou novos significados ao longo das décadas. A celebração passou a incentivar a adoção responsável, a proteção animal e a conscientização sobre o abandono de cães sem raça definida, mantendo esse debate em evidência.
Embora o vira-lata caramelo tenha se consolidado como o maior símbolo brasileiro, ele está longe de ser o único. Entre os SRDs, há perfis populares conhecidos como fiapo de manga, raposinha, estopinha, rebaixado e tricolor, todos representantes da diversidade desses animais e da realidade de milhares deles que ainda esperam por um lar.
Dakota fora recolhida poucos dias antes ao lado da mãe. As duas viviam nas ruas quando foram resgatadas e levadas ao Centro de Zoonoses. A intenção da jovem era adotar ambas, mas isso não foi possível.
A escolha por uma resultou em uma despedida dolorosa. Enquanto a filhote seguia para um novo lar, a mãe permanecia no abrigo. A cena ficou gravada na memória da tutora e retrata uma realidade frequente nos centros de acolhimento: quando um animal é adotado, outros continuam à espera de uma oportunidade — entre eles, muitas vezes, mães separadas de seus filhotes.
A adaptação começou imediatamente. Nos primeiros dias, Dakota explorava todos os cantos da casa. Ainda filhote, ganhou uma caixa de transporte adaptada que serviu como primeira casinha. Algum tempo depois, o improviso deu lugar a uma casinha de madeira, onde cresceu.
A tranquilidade, porém, durou pouco. Duas semanas após a adoção, surgiram os primeiros sinais de que algo estava errado. O diagnóstico foi parvovirose, doença viral altamente contagiosa que acomete principalmente filhotes e pode ser fatal sem tratamento precoce.
Consultas veterinárias, medicamentos e acompanhamento constante passaram a fazer parte da rotina. Contra as estatísticas que cercam muitos casos da doença, Dakota respondeu bem ao tratamento e se recuperou.
Os exames revelariam outra surpresa. O veterinário identificou indícios de que ela provavelmente havia contraído cinomose ainda muito jovem, quando vivia nas ruas. Considerada uma das doenças mais graves entre os cães, a enfermidade costuma provocar sequelas permanentes ou levar o animal à morte.
Dakota venceu a doença sozinha. O hemograma não apontava alterações compatíveis com um quadro ativo, mas permaneceu uma pequena sequela: um leve movimento involuntário da cabeça, perceptível, principalmente, quando ela estava parada.
O período em que viveu nas ruas deixou marcas que iam além dos problemas de saúde. Dakota e a mãe foram resgatadas após denúncias de moradores sobre agressões praticadas por crianças da região. Durante um desses episódios, a filhote teve a ponta do rabo quebrada. A lesão cicatrizou, mas permaneceu como registro daquele passado.
A pequena caramelo conviveu, frequentemente, com dermatite seborreica, sarna e intensa queda de pelos. Segundo avaliação veterinária, os problemas estavam associados à baixa imunidade decorrente das doenças enfrentadas nos primeiros meses de vida. O quadro exigiu acompanhamento clínico durante boa parte de sua trajetória. Após a recuperação de uma das crises, surgiu um detalhe até então escondido pela pelagem comprometida: uma das patas traseiras era completamente branca.
A alimentação precisou ser adaptada. Além da ração, frutas, legumes e hortaliças passaram a integrar o cardápio. Os favoritos dela eram banana, cenoura e couve. De vez em quando, havia espaço para um pequeno agrado: algumas lascas de bolacha de maisena oferecidas pela mãe da tutora.
Logo no início da convivência, Dakota ensinou uma lição que acompanharia a tutora por toda a vida: adotar um animal é assumir o compromisso de cuidar de sua saúde, de seu bem-estar e de sua qualidade de vida em todas as fases.
Lado a lado
Com o tempo, Dakota foi preenchendo a casa com a sua energia. Tornou-se presença constante, dessas que atravessam a rotina de forma tão natural que parecem que sempre estiveram ali.
Ela nunca gostou de colo. Demonstrava carinho de outras formas: pelo olhar expressivo, ao encostar a cabeça na mão da tutora em busca de afago ou ao se virar de barriga para pedir carícias. Sua forma de afeto era silenciosa, mas constante.
Na época da adoção, a tutora cursava a faculdade. Todos os dias, Dakota acompanhava atentamente o ritual de quem estava prestes a sair. Observava a maquiagem, a escolha da roupa, a bolsa sendo organizada e parecia entender que aquele movimento significava uma despedida temporária.
Quando a porta estava para se abrir, começava o protesto. Ela pulava nas pernas da jovem e, frequentemente, desfiava a meia-calça na tentativa quase sempre frustrada de impedir que sua companhia fosse para a aula.
Era um gesto repetido tantas vezes que acabou se transformando em uma das lembranças mais afetivas daqueles anos.
Dakota era inquieta por natureza. Corria pela casa, perseguia sua inseparável bolinha e parecia encontrar diversão em qualquer novidade. Entre seus brinquedos preferidos havia um frango de plástico que mordia sem parar, mas do qual cuidava como se fosse um filhote.
Depois de gastar toda a energia, procurava o lugar favorito da casa: um pedaço de sol.
Nos dias ensolarados, permanecia longos períodos deitada aproveitando o calor. Quando o céu ficava encoberto, a impressão era de que o desânimo tomava conta dela, como se sentisse falta da claridade.
A curiosidade a aproximava de todos os animais com quem dividiu espaço ao longo da vida. Conviveu com outros cães, gatos, uma calopsita, uma tartaruga e até um porquinho-da-índia, adaptando-se naturalmente à presença de cada um deles.
Uma das histórias mais lembradas aconteceu justamente por causa desse espírito aventureiro.
Ao tentar capturar um pássaro que sobrevoava o quintal, Dakota caiu na piscina. O pássaro também caiu. Enquanto a ave não resistiu, a cadela ficou presa na água sem conseguir sair. O susto mobilizou a casa inteira até que fosse resgatada em segurança.
A música era outro motivo de brincadeiras. Embora não exista qualquer evidência científica de que cães desenvolvam preferências musicais como os seres humanos, a tutora percebeu, ao longo dos anos, comportamentos curiosos. Quando o som era rock, Dakota permanecia mais alerta e suas patas pareciam ensaiar pequenos passos de dança. Nas tardes embaladas pela MPB, deitava-se tranquilamente, fechava os olhos e parecia relaxar.
Havia, porém, um som capaz de provocar alarde. Fogos de artifício e rojões faziam Dakota correr imediatamente para debaixo da cama. Tremia, respirava de forma acelerada e permanecia escondida até que o barulho cessasse.
A reação coincide com uma orientação recorrente de médicos-veterinários e entidades de proteção animal: devido à audição extremamente sensível, explosões sonoras podem provocar intenso sofrimento, desencadear fugas, acidentes e até alterações fisiológicas nos cães.
Escapar pelo portão, aliás, era outra de suas especialidades. Bastava um descuido para disparar rua afora. Corria em velocidade impressionante, obrigando todos a saírem atrás dela. Curiosamente, nunca seguia pelo meio da via. Preferia a calçada, como se soubesse exatamente por onde deveria passar, até ser convencida a voltar para casa após sua breve aventura.
À noite, a tranquilidade dava lugar a outro espetáculo. Dakota sonhava intensamente. Mexia as patas como se estivesse correndo, emitia pequenos latidos enquanto permanecia deitada e, não raras vezes, acordava a tutora no meio da madrugada.
Entre tantas lembranças divertidas, uma permanece especialmente marcante. Durante um período em que a tutora enfrentou episódios de depressão, Dakota passou a reagir sempre que percebia algo diferente. Arranhava a porta do quarto, latia insistentemente e corria até a mãe da jovem, como se tentasse chamar sua atenção.
Não era um animal treinado para assistência. Era uma cadela que conhecia profundamente a rotina da casa e de quem dividia a vida com ela. Sua história ajuda a desfazer um equívoco ainda presente quando o assunto é adoção. Apesar de muitos tutores priorizem cães de raça, o pedigree não determina a capacidade de um animal criar vínculos, demonstrar afeto ou desenvolver uma relação de confiança. Como qualquer outro cão, um SRD constrói essas relações na convivência diária, alimentadas pelo cuidado, pelo tempo compartilhado e pela amizade.
O último colo
Depois de acompanhar a juventude da tutora, a faculdade, o casamento e a mudança para outra cidade, Dakota começou a dar sinais de envelhecimento. O focinho ganhou novos tons, os passos perderam velocidade e a caramelo que corria pela casa atrás da bolinha passou a preferir longos banhos de sol e a companhia silenciosa de quem amava.
Pouco tempo depois, veio o diagnóstico de síndrome da disfunção cognitiva canina, conhecida como “Alzheimer canino”. A doença provocou perda progressiva da memória, desorientação e mudanças de comportamento. Sem um tratamento capaz de interromper sua evolução, restou proporcionar conforto, segurança e qualidade de vida.
Dakota viveu cerca de 15 anos. Ensinou que carinho pode ser demonstrado sem pedir colo, que um olhar comunica presença e que amizade se constrói na convivência diária.
Durante toda a vida, evitou permanecer nos braços de alguém. Nos últimos dias, porém, aceitou o colo da tutora. Enquanto a acariciava, ela disse que Dakota podia descansar. Fez apenas um pedido: que esperasse passar seu aniversário.
Talvez por isso a despedida tenha sido inconsolável. A caramelo resistiu e permaneceu por mais um dia.
Ao recordar a companheira de quatro patas, a tutora compreende que o maior presente não foi o lar que ofereceu a Dakota, mas tudo o que recebeu dela ao longo daqueles 15 anos: amor incondicional, a certeza de nunca estar sozinha, amizade, lealdade, presença e incontáveis lembranças que atravessaram as diferentes fases de sua vida.
A trajetória de Dakota resume o propósito do Dia do Vira-Lata: a adoção responsável começa com um gesto de acolhimento, mas é o tempo que transforma um animal em parte inseparável da história de uma vida.




