SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

QUANDO NEM SABEMOS QUE NÃO SABEMOS

Imagine que todo o conhecimento da humanidade estivesse dentro de um grande livro.

Em pouquíssimas páginas estaria aquilo que você sabe que sabe. Eu sei falar português. Sei onde moro. Sei algumas coisas da vida.

Depois, em uma quantidade um pouco maior de páginas, mas ainda bem pequena, estaria aquilo que você sabe que não sabe. Eu sei que não sei falar alemão. Sei que não conheço tudo sobre medicina, física ou astronomia.

Mas existe uma terceira parte, infinitamente maior: todo o restante do livro. E ela é composta por aquilo que você nem sabe que não sabe.

É justamente aí que mora a maior parte dos nossos erros, dos nossos julgamentos precipitados e das nossas certezas exageradas. Quantas vezes pensamos entender uma pessoa, uma situação ou até a nós mesmos, quando na verdade enxergamos apenas um pequeno pedaço da realidade?

E quando o assunto é Deus, essa verdade fica ainda mais profunda. Talvez a nossa maior ignorância seja aquilo que nem sabemos que não sabemos sobre Deus. Talvez seja tudo aquilo que nem imaginamos que ainda não conhecemos do Seu amor.

Por isso, humildade não é pensar menos de si mesmo. É reconhecer que existe muito mais para aprender do que para afirmar.

“Agora vemos como por um espelho, de maneira confusa; mas depois veremos face a face.” (1Cor 13,12)

JESUS: ADMIRAR OU IMITAR?

Jesus não veio para ser admirado. Veio para ser imitado. E convenhamos: admirar é muito mais fácil.

Difícil é perdoar como Ele perdoou. Amar como Ele amou. Servir como Ele serviu.

Muitos olham para a cruz e se emocionam, mas não querem carregar a própria cruz. Admiram a humildade de Cristo, mas disputam para ser maiores que os outros. Falam do amor de Jesus, mas guardam mágoas há anos.

Jesus não procurou fãs. Procurou discípulos. E disse: “Sigam-me”.

Porque a admiração muda sentimentos. A imitação muda comportamentos.

Às vezes tenho a impressão de que muitos cristãos passarão a vida inteira encantados com Jesus, sem nunca se parecerem com Ele.

Vale uma pergunta: quem convive conosco consegue enxergar um pouco de Cristo em nossas atitudes?

Porque o Evangelho não foi escrito para ser apenas lido. Foi escrito para ser vivido.

“Aquele que diz permanecer nele deve também caminhar como ele caminhou.” (1Jo 2,6)

O QUE JÁ TENHO E NEM PERCEBI?

Muito provavelmente você, como eu, já sentiu aquela estranha sensação de vazio. Um sentimento de falta.

Mas se alguém perguntar: “O que exatamente está faltando?”, muitas vezes a resposta não vem.

Sabe por quê? Porque, às vezes, a busca virou hábito. Nem sempre a gente corre atrás por necessidade. Muitas vezes corre por costume. Quem tem sede sabe que quer água. Quem tem fome sabe que quer comida.

Mas existe uma inquietação diferente. Aquela que nasce quando estamos procurando algo que já temos, mas ainda não percebemos.

Talvez você não saiba exatamente o que quer porque já possua aquilo que realmente importa.

Talvez exista mais riqueza na sua vida do que você imagina. Pessoas que o amam, histórias que estão sendo escritas, oportunidades que ainda não foram percebidas.

Nem toda inquietação é sinal de falta. Às vezes, ela é apenas dificuldade de reconhecer a abundância.

Antes de sair procurando mais uma vez, vale a pergunta: o que eu já encontrei, o que eu já tenho, e ainda não percebi?

“Quem é fiel no pouco também é fiel no muito.” (Lc 16,10)

PEDINDO E IMPEDINDO

Talvez você também já tenha tentado oferecer a algumas pessoas algo que elas nunca tiveram. E não conseguiu.

Com o tempo, a gente acaba descobrindo o motivo pelo qual elas nunca tiveram. Nem sempre faltam oportunidades. O que falta, muitas vezes, é abertura.

Há pessoas que reclamam da solidão, mas constroem muros. Reclamam da falta de amizade, mas afastam quem se aproxima.

E então a vida vai mostrando que nem toda ausência é falta de oportunidade. Muitas ausências são resistência mesmo.

Mas antes de apontarmos para os outros, vale a pena olhar para nós mesmos.

Quantas vezes Deus tenta nos oferecer felicidade, paz ou recomeços, e nós recusamos sem perceber?

A gente se agarra a mágoas antigas, medos conhecidos e preocupações que já viraram companhia diária.

Olha, nem sempre a porta da felicidade está fechada. Às vezes somos nós que estamos encostados nela, impedindo que se abra.

“Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir minha voz e abrir a porta, entrarei.” (Ap 3,20)

O TEMPO PASSA, PARA QUE VOCÊ FIQUE

Você já se perguntou por que existe o tempo?

Se somos imagem e semelhança de Deus, e Deus é eterno, por que para nós o tempo existe?

Talvez porque o tempo tenha uma função extraordinária. Ele existe para que possamos construir maturidade. Para juntar dentro de nós coisas que não passam. O tempo leva embora muitas coisas. Mas também nos dá a oportunidade de guardar aquilo que permanece. Virtudes. Valores. Sabedoria. Fé.

Guarde esta frase: o tempo passa para que você fique.

Uma vez perguntaram a Millôr Fernandes o que ele gostaria que escrevessem em seu túmulo. Ele respondeu: “Ele não está aqui.”

Uma resposta genial. Porque ninguém permanece apenas onde foi enterrado. Permanecemos naquilo que construímos.

Não estamos aqui para matar o tempo.  Estamos aqui para nós alimentares dele.

E construir coisas que continuem existindo mesmo depois que nosso tempo por aqui se esgotar.

“O justo será lembrado para sempre.” (Sl 112,6)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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