Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Cheguei à escola naquela manhã com a tranquilidade de quem havia vencido a realidade antes mesmo de encontrá-la.
Plano de aula entregue e atividades organizadas em ordem crescente de dificuldade, materiais todos organizados, tempo calculado e pronto para lecionar.
Havia começo, meio e fim, era a aula mais bonita, no papel. Na minha cabeça, confesso, tinha até trilha sonora.
Entrei na sala, sorridente, dizendo bom dia para a turma como todas as manhãs, mas a resposta foi instantânea… “Professor, ele pegou meu lápis!”
A realidade respondeu antes da turma, olhei para o relógio e a primeira aula não tinha terminado.
Eu já estava atrasado para uma aula que nem tinha começado.
Foi quando percebi, mais uma vez, que existe uma pequena mentira que nos contam na formação docente quando dizem que uma boa aula é aquela que acontece exatamente como foi planejada.
Não é, ou, pelo menos, não na escola pública. Ali, planejamento é mapa, mas ninguém prometeu estrada.
O professor pode desenhar cuidadosamente o caminho, estabelecer objetivos, prever dificuldades, selecionar estratégias, organizar recursos, antecipar perguntas e até imaginar onde a turma terá mais dificuldade.
Só não consegue prever que, às 7h07, alguém vai entrar chorando porque brigou com o irmão antes de sair de casa, ou, passou a noite inteira acordado.
Todos nós sabemos que a criança entra na sala completa, corpo, mente e espiritualmente falando. Mas o que a realidade nos ensina é que nenhum plano de aula traz um campo chamado estado emocional dos estudantes no início da atividade.
Talvez devesse.
No documento, temos habilidades, competências, objetivos de aprendizagem, estratégias metodológicas, recursos, avaliação enquanto na vida real, temos…
— Professor, posso falar uma coisa?
E quase sempre essa coisa não tem absolutamente nada a ver com o conteúdo previsto, ou tem tudo a ver, depende do que entendemos por ensinar.
Certa vez, eu havia preparado uma atividade que considerava excelente, tinha certeza de que a turma iria gostar, havia pensado nos exemplos, organizado os grupos e separado o material.
No meio da explicação, um aluno levantou a mão.
— Professor, mas por que a gente precisa aprender isso?
Eu poderia ter respondido com alguma frase pronta sobre a importância do conhecimento, poderia ter seguido o planejamento, mas, parei. Porque aquela pergunta, embora simples, não era sobre o conteúdo era sobre sentido.
E a aula mudou, mudou porque o problema é que a escola gosta muito de cronogramas e isso têm uma vantagem maravilhosa, cronogramas não fazem perguntas, não choram, não brigam, não esquecem o caderno e nem chegam com fome. Não precisam ir ao banheiro no exato momento em que você começou a explicar alguma coisa importante.
Cronogramas são obedientes, mas, crianças, felizmente, não.
E talvez esteja aí uma das maiores ironias da educação, exigir que o professor seja rigorosamente organizado em um ambiente onde praticamente nada respeita a organização.
Temos que planejar, registrar, comprovar, preencher, atualizar, replanejar, explicar porque não cumprimos a aula naquele dia. E, depois de toda essa engenharia burocrática, entre na sala e faça o milagre de ensinar.
Enquanto isso, a escola segue acontecendo com todos seus imprevistos como falta de energia, mudança de horário, falta um professor, a internet acaba bem na hora que mais precisamos, o aluno que falta bem no dia da avaliação…
E o professor, que havia planejado uma sequência didática cuidadosamente estruturada, descobre que também precisará ser técnico de informática, mediador de conflitos, psicólogo improvisado, organizador de fila, intérprete de lágrimas, negociador de lápis e, se der tempo, professor.
Seria engraçado se não fosse tão cansativo. A teoria pedagógica, muitas vezes, chega à escola vestida para uma conferência.
A prática chega de chinelo, carregando uma mochila rasgada e perguntando se pode entrar.
No papel, tudo parece ter lugar, mas na sala, as coisas se misturam.
A matemática encontra a ansiedade e a leitura encontra uma discussão familiar e o professor precisa decidir, em segundos, se continua o conteúdo ou se interrompe tudo para cuidar do que acabou de surgir.
Essa decisão não aparece na apostila e não cabe nos relatórios. Mas é pedagogia e talvez uma das mais importantes. Improvisar não é ensinar de qualquer jeito, mas, é saber mudar o caminho sem esquecer para onde se pretendia ir e conhecer suficientemente bem a matéria para abandonar a explicação preparada e encontrar outra.
É olhar para uma turma e perceber que naquele dia não adianta insistir na atividade planejada, transformando uma discussão em conversa, uma pergunta inesperada em investigação. Falha técnica em oportunidade e mudança de horário em reorganização.
O erro vira descoberta e um dia aparentemente perdido em uma lembrança que alguém levará para a vida.
O professor experiente aprende isso aos poucos.
No começo, talvez sofra mais, prepara uma aula maravilhosa e se frustra quando ela não acontece como imaginou. Depois percebe que a sala de aula não é teatro, ou melhor, é teatro, mas sem ensaio.
O professor entra em cena sem conhecer todas as falas dos outros personagens, os alunos também improvisam e a escola muda o cenário.
O sinal interrompe a cena e, às vezes, a própria realidade rasga o roteiro.
É preciso continuar, não porque o professor seja um super-herói. Aliás, seria bom acabar com essa história de professor-herói.
Heróis não precisam de intervalo, professores precisam, pois, se cansam, chegam em casa muitas vezes, ficam alguns minutos em silêncio antes de conseguir conversar com alguém, refletindo, sou professor, mas antes de tudo sou gente… E talvez seja justamente por ser gente que consegue ensinar gente.
No fim de algumas aulas, existe uma sensação curiosa quando olhamos para o planejamento e percebemos que quase nada aconteceu como estava escrito, mas ainda assim, alguma coisa aconteceu.
Aquele aluno que quase nunca falava participou, uma criança que estava triste voltou a sorrir e entendeu uma ideia depois de uma explicação improvisada no canto do quadro.
Talvez essa seja a parte mais bonita da profissão.
Há aulas que fracassam segundo o planejamento e triunfam segundo a humanidade, isso porque a escola é um canteiro de obras que nunca termina onde todos os dias alguém acrescenta um tijolo.
Às vezes o muro fica torto, falta material, chove e muitas vezes precisamos demolir uma parte para começar de novo, mas, não paramos de construir.
O professor talvez seja esse artesão que aprende a trabalhar com aquilo que tem sabendo que não pode controlar o mundo que entra pela porta junto com cada criança, mas, pode escolher o que fazer com tudo isso.
E talvez a verdadeira preparação docente não esteja em possuir respostas para todos os imprevistos, talvez ela esteja em conseguir permanecer presente quando eles aparecem. Porque, no fim, ensinar talvez seja planejar com responsabilidade, mas viver a aula com sensibilidade.
Entramos com um roteiro, sabendo aceitar que, em educação, o caminho raramente pede licença para mudar.
Amanhã haverá outro planejamento, outra turma, outra atividade. E, provavelmente, outro aluno levantará a mão no momento menos conveniente para perguntar alguma coisa que mudará completamente o rumo da aula.
Ainda bem!
Porque talvez a melhor aula seja justamente aquela que nenhum de nós conseguiu escrever antes de vivê-la e talvez ser professor seja entrar todos os dias em um palco sem ensaio, com algumas falas decoradas, muitas certezas provisórias e a coragem de improvisar quando a vida decide mudar o roteiro.
Afinal, se sabemos exatamente como será cada aula antes que ela comece, será que ainda estamos ensinando pessoas ou apenas executando planos?
E você, professor, quantas das suas melhores aulas nasceram justamente no dia em que o planejamento deu errado?





