SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

E QUEM CUIDA DE QUEM CUIDA?

Quem vive sustentando os outros quase sempre aprende a esconder o próprio cansaço. Há uma estranha tendência de acreditar que quem consola não sofre, que quem aconselha não se perde e que quem fortalece jamais enfraquece. Mas ninguém é feito de aço.

Os ombros que carregam tantas histórias também pesam. O coração que acolhe tantas lágrimas também conhece noites silenciosas. Até uma fonte cristalina, se nunca for alimentada, acaba secando. E quando a fonte seca, deixa de matar a sede de quem chega até ela.

Jesus nunca teve vergonha de reconhecer esse limite. Depois de ensinar multidões, retirava-se para rezar, descansar e permanecer a sós com o Pai. Não porque lhe faltasse força, mas porque sabia que a verdadeira fortaleza também precisa ser renovada.

Talvez o maior equívoco seja esperar que algumas pessoas sejam fortes o tempo inteiro. Elas sorriem, trabalham, servem e continuam caminhando, mas, por dentro, também esperam um abraço, uma escuta ou apenas uma pergunta sincera.

Olhe ao seu redor. Existe alguém que todos enxergam como inabalável. Talvez essa pessoa esteja esperando ouvir as palavras que quase ninguém lhe dirige:

“E você… como está?”

“Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo.” (Gl 6,2)

O HOMEM É CAPAZ DE DEUS

Existe uma pergunta que nenhum animal faz antes de dormir: “Qual é o sentido da minha existência?” Nenhum constrói templos, dobra os joelhos para rezar ou contempla o céu procurando um Criador. Apenas o ser humano carrega essa inquietação.

O Catecismo da Igreja afirma que o homem é capaz de Deus. Isso significa que fomos criados com inteligência para conhecer a verdade e com liberdade para escolhê-la. Somos capazes de amar, de rejeitar, de acreditar ou de negar. Mas, curiosamente, até quem afirma não acreditar continua procurando respostas para as perguntas mais profundas da vida.

Quem me criou? Por que estou aqui? Para onde caminho? O que realmente pode preencher o coração?

Santo Agostinho compreendeu esse mistério como poucos. Depois de procurar felicidade em tantos lugares, descobriu que a inquietação humana não era um defeito, mas um sinal. Escreveu uma das frases mais belas da história: “Fizeste-nos para Vós, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós.”

Talvez seja justamente essa saudade de Deus que explique por que nada neste mundo consegue satisfazer o coração humano. Fomos feitos para entrar em comunhão com Aquele que nos criou.

“Buscai o Senhor enquanto se pode encontrá-lo.” (Is 55,6)

NINGUÉM TE ENSINA A QUERER

Há muitas coisas que podem ser ensinadas. Aprendemos matemática, música, idiomas e profissões. Mas existe um território onde nenhum professor entra: a liberdade. Ninguém ensina alguém a querer.

É justamente aí que Deus revela a grandeza do seu amor. Sendo onipotente, escolheu não controlar o coração humano, preferiu correr o risco da rejeição para preservar a beleza de uma resposta livre.

O filme Todo Poderoso ilustra isso de maneira brilhante. Bruce recebe, por um dia, os poderes de Deus. Faz milagres, responde orações, no entanto, descobre um limite intransponível: não consegue fazer a mulher que ama amá-lo de volta.

O amor jamais nasce da imposição. Pode-se conquistar admiração, provocar medo até obediência, mas nunca um amor verdadeiro. O coração só ama quando decide amar.

Esse talvez seja o maior paradoxo da criação: o Deus que pode tudo renunciou ao único poder que destruiria o próprio amor, o de forçar um “sim”. Porque um sentimento imposto deixa de ser amor e se transforma apenas submissão.

“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei.” (Ap 3,20)

COERÊNCIA OU TEIMOSIA?

À primeira vista, coerência e teimosia parecem irmãs. As duas resistem às pressões, não mudam facilmente de posição. Mas basta olhar mais de perto, para perceber que seguem caminhos opostos. A coerência caminha ao lado da verdade; a teimosia, quase sempre, anda de mãos dadas com o orgulho.

O coerente muda de opinião quando encontra uma razão melhor. Já o teimoso muda de assunto. E enquanto um evolui, o outro envelhece.

É curioso como algumas pessoas mudam de roupa várias vezes antes de sair de casa, trocam o corte de cabelo, mas passam a vida inteira sem atualizar uma única convicção equivocada.

Existe quem confunda rigidez com personalidade forte. Na verdade, força não é permanecer sempre igual; força é ter humildade para reconhecer quando estava errado. Poucas frases exigem tanta coragem quanto está: “Eu me enganei.”

A maior diferença entre o sábio e o teimoso, é que o primeira ama a verdade já o segundo ama o próprio ego mais do que a verdade.

Vale a pena perguntar: aquilo que você chama de coerência é fidelidade aos seus princípios, ou apenas medo de admitir que mudou?

“O orgulho precede a ruína, e a soberba precede a queda.” (Pr 16,18)

AMOR NÃO CORRESPONDIDO

Durante um show, Renato Russo fez uma pergunta aparentemente simples: “Quem aqui já viveu um amor não correspondido?” No começo, poucas mãos se levantaram. Depois, uma após outra, quase toda a plateia confessou carregar aquela antiga ferida.

Então veio a provocação que mudou o sentido da conversa.

Ele disse, em outras palavras: “Se você amou esperando receber amor de volta, não estava amando, mas esperando uma recompensa.”

A frase incomoda porque desmonta uma das confusões da nossa época. Chamamos de amor aquilo que é nossa expectativa. Dizemos que nos entregamos, quando, na verdade, aguardamos um retorno proporcional.

São Paulo apresenta um critério muito mais exigente. Na Carta aos Coríntios, afirma que o amor é paciente, bondoso, que não busca os próprios interesses. Quem ama faz do outro um fim, quem apenas deseja ser correspondido continua colocando a si mesmo no centro.

Talvez a maior dor do chamado “amor não correspondido” não seja a ausência do outro, mas a frustração das expectativas que foram construídas.

“O amor é paciente, o amor é bondoso… não procura os seus próprios interesses.” (1Cor 13,4-5)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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