Presente na chamada, ausente no olhar 

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor 

Tem dias em que a sala está tão cheia que parece faltar ar, não por ausência de oxigênio, mas por excesso de vozes disputando o mesmo pedaço de atenção. É um coral desafinado de pedidos, risadas, conflitos, lápis caindo, mochilas abertas e histórias urgentes demais para esperar. E, no meio disso tudo, há um silêncio.

Ele não grita, não levanta a mão, não esquece o caderno. Chega sempre na hora e não dá trabalho nenhum e talvez esse seja o seu maior erro.

Eu o descobri tarde, como quase sempre acontece com os alunos que ninguém vê.

Vou chama-lo aqui de “JB”, mas poderia ser qualquer outro nome, porque esses alunos carregam uma estranha capacidade de serem muitos ao mesmo tempo. Sentava na terceira fileira, perto da janela, onde a luz entra generosa, mas não o suficiente para iluminar certas ausências, copiava tudo. Absolutamente tudo, com uma letra bonita, organizada, quase pedagógica. Se a escola fosse feita apenas de cadernos, “JB” seria um sucesso retumbante.

Mas a escola não é feita de cadernos, ainda que, às vezes, finja ser.

Durante meses, esse aluno atravessou minhas aulas como quem atravessa uma rua sem olhar para os lados, rápido, silencioso e com a sorte de não ser interrompido. Eu o via, claro que via, mas era um ver burocrático, desses que marcam presença na chamada e seguem adiante. “JB” era presença registrada, não presença percebida.

Enquanto isso, eu me ocupava dos incêndios visíveis. O aluno que não parava sentado, aquele que transformava qualquer lápis em espada, a menina que chorava porque a vida já tinha sido dura demais antes mesmo de aprender a escrever o próprio nome. Havia urgências demais e todas barulhentas.

A escola, e isso eu aprendi com o tempo, tem uma queda curiosa pelo que faz barulho, o silêncio raramente entra na pauta.

Foi numa atividade simples, dessas que a teoria chama de diagnóstica e a prática chama de “vamos ver no que dá” que “JB” apareceu. Pedi que escrevessem um pequeno texto, nada grandioso, duas ou três linhas sobre o fim de semana. A sala, como sempre, se dividiu entre os que escrevem com o mundo na ponta do lápis e os que travam diante da primeira palavra.

“JB” escreveu rápido, como sempre.

Quando fui corrigir, encontrei um texto impecável… na aparência. As palavras estavam ali, organizadas, obedientes, mas não diziam nada. Era uma colcha de frases decoradas, sem costura, sem sentido, sem voz. “JB” não escrevia, ele reproduzia. Era um eco bem comportado de tudo o que já tinha visto.

Naquele momento, algo fez barulho dentro de mim. Finalmente.

Percebi que “JB” não era um aluno “bom”, era um aluno invisível e aprendeu cedo demais que não incomodar é uma forma eficiente de sobreviver. E a escola, ocupada demais para notar sutilezas, acabou premiando sua habilidade de desaparecer.

A teoria, generosa como sempre, me lembrava que cada aluno é único, protagonista, sujeito do próprio aprendizado, já a prática, apressada como quase sempre, me empurrava para dar conta do coletivo. Entre o ideal e o possível, “JB” foi ficando pelo caminho, um caminho silencioso, é verdade, mas nem por isso menos perigoso.

Comecei, então, um exercício estranho de tentar ver o que não se oferece ao olhar.

Sentei ao lado dele e fiz perguntas simples, dessas que não entram em relatórios. Descobri que aquele aluno lia pouco, não por falta de capacidade, mas por falta de encontro. Em casa, o tempo era ocupado por silêncios maiores do que o dele, uma família, cansada, fazia o que podia. E o que podia, às vezes, era apenas garantir que o dia seguinte chegasse. 

“JB” não precisava de reforço. Precisava de presença.

Mas presença, na escola de hoje, é artigo de luxo, porque entre planilhas, metas, registros e uma fé quase religiosa em números, as escolas vem se tornando especialistas em medir o que é fácil e ignorar o que é essencial.  “JB” não aparecia nos gráficos, não derrubava índices, era, sob todos os aspectos burocráticos, um sucesso.

E talvez isso seja o mais inquietante, quantos alunos assim estamos aprovando sem nunca, de fato, ensinar?

Não fiz milagres, professor experiente desconfia de soluções rápidas, mas comecei a chamá-lo pelo nome com mais frequência. A esperar sua resposta, mesmo que demorasse. A mostrar que o silêncio dele também tinha direito à palavra.

Foi um processo lento, quase artesanal como quem tenta acender uma vela em meio ao vento.

Um dia, “JB” escreveu algo diferente. Pequeno, simples, mas dele e pela primeira vez, não parecia um eco, era uma voz. Discreta, é verdade, ele não deixaria de ser esse aluno silencioso de uma hora para outra, mas era uma fresta. E, às vezes, é por frestas que a luz entra.

Desde então, passei a desconfiar mais do silêncio do que do barulho.

A sala continua cheia, o caos continua cumprindo seu expediente diário e eu sigo cansado, talvez mais do que gostaria, menos do que a realidade exige. Mas carrego comigo uma espécie de alerta interno, quase um sussurro que me diz… “olhe de novo”. 

Porque, no fundo, ensinar talvez seja isso, insistir em ver, mesmo quando tudo conspira para o contrário.

E enquanto preencho mais um relatório que não tem espaço para ausências invisíveis, fico me perguntando, com uma certa inquietação que já não cabe em planilhas, quantos alunos ainda estão sentados diante de nós… esperando não por conteúdo, mas por um olhar que finalmente os enxergue?