Carlos decidiu fazer uma limpeza. Não na garagem, nem no armário onde ficam os carregadores de celulares que ninguém sabe mais de qual aparelho eram. Resolveu limpar a própria vida digital. Tudo começou depois de receber uma ligação aparentemente inocente. A atendente o chamou pelo nome completo, confirmou sua cidade, perguntou se ele continuava usando determinado e-mail e ainda citou uma empresa onde ele havia feito cadastro anos atrás. Carlos desligou sem responder muita coisa, mas ficou com uma sensação estranha. Não era medo. Era desconforto. Pela primeira vez ele percebeu que havia pessoas que sabiam detalhes da sua vida sem que ele fizesse a menor ideia de quem eram.
Naquela noite resolveu fazer uma experiência. Sentou no sofá, abriu o computador e começou a procurar o próprio nome na internet. Encontrou uma rede social abandonada há mais de dez anos, um anúncio antigo de venda de carro, um currículo que jurava ter apagado, um cadastro em um site que nem lembrava existir. Quanto mais procurava, mais encontrava. A sensação era parecida com voltar para uma casa onde morou na infância e descobrir que esqueceu pertences espalhados em todos os cômodos. Só que não eram objetos. Eram informações.
A curiosidade virou preocupação quando ele tentou responder uma pergunta simples: quantas empresas possuem seus dados hoje? Academia, farmácia, supermercado, loja de roupas, posto de combustível, aplicativo de entrega, hotel, clínica médica, laboratório, programa de fidelidade, sorteios, promoções e aquele cadastro feito correndo para ganhar cinco por cento de desconto numa compra qualquer. Depois de alguns minutos fazendo contas, percebeu que provavelmente dezenas ou até centenas de empresas tinham alguma informação sobre ele. E o mais assustador não era isso. Era perceber que não conseguia listar nem metade delas.
Pior do que isso, Carlos percebeu que nem lembrava mais para quem havia entregado determinados dados. Em algum momento da vida informou CPF para ganhar um chaveiro, telefone para participar de um sorteio, e-mail para baixar um material gratuito, data de nascimento para ganhar um cupom de aniversário e até cópia de documento para cadastros que sequer utiliza mais. Tudo parecia inofensivo na época. Afinal, quem vai se preocupar com um simples formulário? O problema é que cada formulário era uma pequena porta aberta. Sozinha, uma porta não assusta ninguém. Mas quando você descobre que passou anos distribuindo cópias da chave sem controlar quem ficou com elas, a sensação muda completamente.
Foi nesse momento que Carlos entendeu o problema. Durante anos ouvimos falar sobre vazamento de dados como se o grande risco fosse o momento em que a informação escapava. Mas existe algo pior: perder completamente o controle. Afinal, como proteger algo quando você nem sabe onde está? É como tentar fechar uma torneira sem saber em qual parede ela foi instalada. E talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo com milhões de brasileiros. Passamos anos distribuindo CPF, telefone, e-mail, data de nascimento e até cópia de documentos sem fazer perguntas. Agora descobrimos que o gênio saiu da garrafa e ninguém sabe exatamente para onde ele foi.
A boa notícia é que existe um caminho para recuperar parte desse controle. Talvez você nunca consiga apagar todos os rastros deixados ao longo da vida, mas pode começar a reduzir a exposição. Vale revisar contas antigas, excluir cadastros que não fazem mais sentido, verificar permissões de aplicativos, cancelar serviços abandonados e, principalmente, usar um direito que pouca gente lembra que possui: perguntar. A LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) permite que qualquer cidadão questione empresas sobre quais dados possuem, para que usam essas informações e com quem compartilham. Parece pouco, mas é justamente aí que começa a mudança. Porque quando a empresa percebe que o titular está prestando atenção, a relação deixa de ser automática. E o mais importante de tudo isso, é que a lei também dá a cada um de nós o direito de exigir que os dados sejam definitivamente descartados.
No fim da investigação, Carlos descobriu algo que provavelmente vale para todos nós. Privacidade não é desaparecer da internet. Isso, convenhamos, já virou sonho de ficção científica. Privacidade é reassumir o controle sobre o que deveria ser só seu. É saber quem tem seus dados, por que tem e se realmente precisa continuar tendo. Porque o gênio talvez nunca volte completamente para a garrafa. Mas isso não significa que ele precise continuar morando de favor dentro da sua sala, abrindo a geladeira e mexendo em tudo sem pedir licença.
Christiano Guimarães
Consultor em Segurança da Informação
Autor do Livro:
Como Adequar Minha Empresa à Lei Geral de Proteção de Dados – Um Guia Prático





