Alberto Martins Cesário, professor e escritor
Antes de tudo, vale lembrar que esta crônica não fala de todos os gestores. Felizmente, conheci diretores e coordenadores que transformavam corredores em pontes e reuniões em espaços de escuta. Mas toda instituição humana carrega suas contradições e é sobre essas contradições que escrevo hoje.
Hoje quero falar sobre aquele elogio que nunca veio, um silêncio institucional diante de quem faz muito…
Existe um tipo de cansaço que não aparece nos exames médicos, não altera a pressão arterial de imediato, não gera febre e raramente exige atestado. É um desgaste silencioso, daqueles que se acumulam em pequenas prestações diárias.
Aquele olhar que não veio, a palavra que não foi dita, um reconhecimento que ficou preso em alguma gaveta da burocracia escolar.
Conheço professores que carregam a escola nas costas sem jamais terem ouvido um simples “obrigado”.
E não falo dos aplausos de cerimônia, dos discursos ensaiados para datas comemorativas ou das homenagens que aparecem em fotografias institucionais, estou falando daquele reconhecimento cotidiano, simples e humano. Aquele que nasce quando alguém percebe o esforço do outro.
Na escola pública, esse fenômeno tem se tornado uma espécie de esporte olímpico invisível, fazer muito e ouvir pouco.
Outro dia observei uma professora chegando antes do amanhecer, organizou materiais, preparou atividades diferenciadas para alunos com dificuldades, acolheu uma criança que chegou chorando, participou de reunião, respondeu mensagens de famílias e ainda encontrou tempo para ouvir um colega angustiado.
Ao final do dia, recebeu uma observação da gestão e não era sobre o que havia construído e sim sobre um papel que não havia sido preenchido.
É curioso como algumas pessoas conseguem enxergar a ausência de uma assinatura a quilômetros de distância, mas têm dificuldade para enxergar a presença de uma dedicação extraordinária bem diante dos próprios olhos.
Talvez porque papeis ocupem menos espaço emocional do que pessoas.
A filosofia ensina que o poder revela muito mais sobre quem o exerce do que sobre quem o recebe e a escola, como laboratório permanente da condição humana, confirma essa teoria diariamente.
Há gestores que compreendem que liderar é servir, mas há aqueles que, ao ocupar uma cadeira de coordenação ou direção, passam a acreditar que receberam junto um pequeno título de nobreza administrativa, esquecem um detalhe fundamental.
Primeiro que cargos são temporários e essa cadeira é emprestada, que o concurso foi público para todos e salário vem do mesmo lugar, a condição de servidor também.
O que muda é a função, não a humanidade.
Entretanto, algumas pessoas confundem autoridade com superioridade e passam a falar mais alto, escutar menos, determinam mais e dialogam menos. Como se a mudança de sala tivesse alterado sua natureza, ou como se com crachá, tivesse adquirido propriedades metafísicas.
Ninguém é uma função, todos exercemos funções, pode parecer uma diferença pequena, mas não é.
Quando alguém acredita ser o cargo que ocupa, corre o risco de perder de vista aquilo que realmente é. E quando isso acontece, nasce uma das mais antigas ilusões humanas, a crença de que respeito pode ser substituído por medo.
Então eu faço questão de lembrar que o medo produz silêncio e o respeito produz confiança. Medo gera obediência temporária e o respeito gera compromisso duradouro.
Uma diferença sutil, mas que na prática, transforma ambientes inteiros. A escola deveria ser uma embarcação enfrentando a mesma tempestade e os professores, coordenadores, diretores, funcionários e famílias remando em direções convergentes.
Mas, às vezes, alguns ocupantes do convés imaginam que comandam o oceano e passam a tratar os demais tripulantes como se fossem inferiores.
Esquecem que a tempestade não consulta organogramas.
Quando as ondas chegam, todos balançam, quando a educação sofre, todos sofrem, uma criança fracassa, ninguém vence e o mais triste é que a ausência de reconhecimento raramente aparece como violência. Ela costuma vir vestida de normalidade.
Chega através do silêncio, da indiferença ou a incapacidade de perceber o esforço alheio.
E assim vai adoecendo profissionais que, por vocação ou teimosia, continuam oferecendo o melhor de si.
São professores que corrigem atividades de madrugada, funcionários que resolvem problemas sem receber os créditos. Servidores que seguram estruturas inteiras sem que seus nomes apareçam em lugar algum.
Gente que segue semeando, mesmo quando ninguém parece interessado na colheita.
Sei que o reconhecimento não resolve todos os problemas da educação, não substitui salários dignos nem reduz turmas superlotadas, reconhecimento não elimina a burocracia, mas funciona como água para uma planta.
Talvez não faça milagres, mas impede que a vida seque por dentro. Por isso me inquieta quando encontro gestores incapazes de agradecer.
Líderes que sabem cobrar, mas não sabem valorizar, que conhecem indicadores, mas desconhecem pessoas, dominam protocolos, mas perderam a capacidade de enxergar seres humanos.
Porque toda liderança deixa marcas.
A questão é quais.
Tem aquelas inspiram, outras silenciam, algumas fortalecem, outras desgastam. E todas, absolutamente todas, serão lembradas muito depois que os cargos deixarem de existir.
No fim das contas, o poder sempre tem prazo de validade, a cadeira muda de dono, a porta recebe outra placa e os documentos ganham novas assinaturas.
Mas a forma como tratamos as pessoas permanece circulando pelos corredores da memória.
E talvez seja justamente aí que resida a pergunta mais importante de todas.
Quando a porta da sala da gestão se fechar pela última vez e o cargo voltar para o lugar de onde nunca deveria ter saído, o que permanecerá vivo na memória das pessoas… a autoridade que você exerceu ou a humanidade que você cultivou?





