Poá: o mundo visto por Yayoi Kusama

21
A exposição ‘Obsessão Infinita’ de Yayoi Kusama ocupou o CCBB Rio de Janeiro entre 2013 e 2014 – Foto: Leidiane Caroline

Artista japonesa que transformou alucinações, obsessões e a repetição em uma linguagem visual reconhecida no mundo inteiro morreu aos 97 anos; de Matsumoto às salas de espelhos, sua obra alterou a percepção sobre os limites da arte contemporânea.


@caroline_leidiane

Durante décadas, Yayoi Kusama fez do infinito uma matéria concreta. Transformou pontos em superfície, redes em vertigem, espelhos em labirintos e abóboras em ícones. O trabalho da artista, reconhecível à distância pela profusão psicodélica de círculos, padrões e cores vibrantes, nasceu de uma experiência íntima: desde a infância, ela relatava visões e alucinações que interferiam em sua percepção do mundo. Em vez de ocultá-las, encontrou na criatividade uma maneira de lhes dar contorno.

Kusama morreu aos 97 anos, em 14 de agosto, em um hospital de Tóquio. A informação foi divulgada pelo estúdio da artista apenas nesta semana. A causa da morte não foi informada. Segundo o comunicado oficial, ela continuou pintando até os últimos dias de vida.

Nascida em 22 de março de 1929, em Matsumoto, no Japão, Kusama cresceu em uma família ligada ao cultivo e à comercialização de sementes. Desde muito cedo, encontrou na pintura uma espécie de amparo. Aos dez anos, começou a produzir desenhos inspirados por percepções que descrevia como alucinatórias. Os padrões que pareciam se espalhar pela toalha de mesa, pelas paredes e pelo próprio corpo acabariam encontrando correspondência na repetição obsessiva que permearia suas obras.

A família, contudo, não acolheu essa vocação artística. A mãe chegou a destruir desenhos da filha e tentou afastá-la da ideia de seguir carreira como artista. Ainda assim, Kusama persistiu. Estudou pintura tradicional japonesa em Kyoto, mas logo se mostrou insatisfeita com os métodos convencionais e passou a desenvolver uma linguagem própria.

A repetição, que poderia ser compreendida apenas como recurso formal, tornou-se para Kusama uma operação de sobrevivência. Pintar incessantemente significava ocupar o espaço antes que ele fosse tomado pelas imagens que a perseguiam. O ponto, nesse sentido, nunca foi apenas um ponto: era unidade e expansão, limite e dissolução, matéria e vertigem.

Kusama posa dentro de uma instalação da ‘Infinity Mirror Rooms – Fireflies on the Water’ – Foto: Tate-Modern

Em 1957, aos 28 anos, Kusama deixou o Japão e partiu para os Estados Unidos. Depois de uma passagem por Seattle, estabeleceu-se em Nova York, em 1958, cidade que naquele período concentrava efervescente cena artística de vanguarda. A mudança representou uma ruptura radical. Mulher, japonesa e praticamente desconhecida, ela chegou a um ambiente artístico majoritariamente masculino, no qual o expressionismo abstrato ainda exercia enorme influência.

A pobreza acompanhou os primeiros anos. Kusama produzia compulsivamente, muitas vezes sem recursos básicos, mas não abandonou a pintura. Em Nova York, suas telas da série “Infinity Nets”, compostas por incontáveis pequenas pinceladas repetidas, chamaram a atenção de artistas e críticos. Donald Judd, que visitou sua primeira exposição individual na cidade, em 1959, escreveu uma crítica favorável e tornou-se um de seus primeiros apoiadores.

Aquelas redes brancas e minuciosas pareciam não ter começo nem fim. Ao cobrir a superfície com marcas quase idênticas, Kusama subvertia a relação tradicional entre figura e fundo. O olhar já não encontrava um centro privilegiado: tudo era superfície, continuidade e expansão.

O Museum of Modern Art (MoMA) observa que essas pinturas anteciparam questões relacionadas à repetição e ao espaço infinito que seriam importantes para a arte minimalista, embora a origem do procedimento estivesse profundamente vinculada às experiências pessoais da artista.

Do corpo à contracultura

A partir dos anos 1960, Kusama expandiu a criação para além da pintura. Passou a trabalhar com esculturas, instalações, performances, cinema, moda e happenings. Os objetos cobertos por formas fálicas de tecido, por exemplo, confrontavam simultaneamente o desejo, o corpo e a tradição de uma arte produzida majoritariamente por homens. “Accumulation No. 1”, de 1962, é um dos exemplos mais conhecidos dessa fase.

A artista, contudo, ocupou as ruas de Nova York. Realizou performances que envolviam nudez, pintura corporal e manifestações contra a Guerra do Vietnã. Seus feitos aproximavam arte e vida cotidiana, retirando a obra do espaço protegido da galeria e colocando-a em contato direto com o corpo, a política e o público.

Kusama sentada diante de uma de suas icônicas abóboras gigantes, ‘Pumpkin’, durante a Aichi Triennale de 2010. Atualmente o monumento fica na ilha de Naoshima, no Japão – Foto: Reprodução

Em 1966, apresentou “Narcissus Garden” nos arredores da Bienal de Veneza. A instalação reunia centenas de esferas espelhadas que refletiam o céu, o ambiente e os próprios visitantes. Kusama chegou a comercializar as esferas por US$ 2 cada, transformando a obra em uma provocação sobre o mercado de arte, a mercantilização e o próprio estatuto da obra artística. A instalação tornou-se posteriormente uma de suas criações mais célebres e hoje integra o acervo do Instituto Inhotim, em Minas Gerais.

Foi nessa época que Yayoi passou a reivindicar, de maneira cada vez mais explícita, uma arte baseada na proliferação e na dissolução do indivíduo. Ela chamou esse processo de “self-obliteration” (autoaniquilação). A ideia permeia toda a sua inventividade, ao repetir um mesmo elemento até a exaustão, a artista faz com que o objeto individual perca sua autonomia e passe a integrar uma totalidade maior.

A história da relação de Yayoi com Andy Warhol pertence a esse período. Em 1963, ela apresentou “Aggregation: One Thousand Boats Show”, instalação em que uma pequena embarcação coberta por formas escultóricas era acompanhada por centenas de reproduções fotográficas que ocupavam as paredes da galeria. Três anos depois, Warhol apresentou “Cow Wallpaper”, obra que também explorava a repetição de uma imagem em escala ambiental. A aproximação entre os trabalhos alimentou a acusação de apropriação feita por Kusama e se tornou parte das discussões sobre a posição marginal que ela ocupava em relação aos artistas homens mais celebrados da época.

Hoje, Kusama é reconhecida como um ícone fundamental da vanguarda nova-iorquina do pós-guerra, cuja produção dialogou com o expressionismo abstrato, a Pop Art, o minimalismo, a arte feminista e a crítica institucional, sem se encaixar completamente em nenhuma dessas categorias.

O infinito como experiência coletiva

Em 1973, Yayoi retornou ao Japão. Alguns anos depois, em 1977, passou a viver voluntariamente em uma instituição psiquiátrica em Tóquio. A proximidade com seu estúdio permitiu que continuasse trabalhando diariamente. A internação, portanto, não significou o encerramento de sua carreira, mas a criação de uma rotina na qual tratamento e produção artística coexistiam.

É importante, porém, não reduzir sua obra à condição psiquiátrica. As alucinações fazem parte de sua narrativa artística, mas Kusama construiu uma linguagem que ultrapassa largamente a dimensão autobiográfica. Ao longo de mais de sete décadas, trabalhou com pintura, escultura, fotografia, cinema, performance, literatura, poesia e grandes instalações.

Foi nas instalações espelhadas que a pesquisa sobre o infinito encontrou alento empírico e categórico. As “Infinity Mirror Rooms” transformam o visitante em parte da obra. Espelhos multiplicam luzes, pontos e corpos até que a percepção de escala e profundidade se desestabilize. Não há mais uma pessoa diante de uma obra: há um corpo dentro dela.

Esse aspecto participativo ajudou a transformar Kusama em um fenômeno cultural muito além do circuito tradicional das artes visuais. Essas instalações se tornaram especialmente populares na era das redes sociais, quando fotografar uma obra deixou de ser apenas registro e passou a integrar a experiência de visitação.

Em 1965, Yayoi Kusama performa dentro da instalação ‘Infinity Mirror Room – Phalli’s Field’ (Campo de Falos) – Foto: Louisiana Museum of Modern Art

A artista, que durante décadas trabalhou com a ideia de multiplicação, acabou encontrando na circulação digital das imagens uma extensão quase perfeita de seu próprio projeto artístico.

As abóboras ocupam outro lugar singular nesse universo. Yayoi começou a desenhá-las ainda jovem e voltou ao motivo repetidamente ao longo da carreira. Com superfícies cobertas por pontos e cores intensas, elas combinam humor, estranheza e uma espécie de simplicidade primordial. A repetição transforma o vulgar em emblema.

No Brasil, a presença da artista ganhou particular relevância. A exposição “Obsessão Infinita” passou pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro e em Brasília, e pelo Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, entre 2013 e 2014. Desde 2023, o Instituto Inhotim mantém uma galeria dedicada às obras de Yayoi Kusama, com instalações como “I’m Here, But Nothing” e “Aftermath of Obliteration of Eternity”, além de “Narcissus Garden” em seu acervo.

O reconhecimento internacional chegou de forma tardia, mas avassaladora. Em 1993, Kusama representou oficialmente o Japão na Bienal de Veneza. Em 2006, recebeu o Praemium Imperiale, uma das mais importantes distinções internacionais concedidas a artistas. Em 2017, o Yayoi Kusama Museum foi inaugurado em Tóquio.

Sua obra alcançou patamar excepcional no mercado. Pinturas, esculturas e instalações passaram a ser disputadas por grandes colecionadores e instituições, enquanto a estética de poás, abóboras, objetos fálicos e espelhos se infiltrava na moda, no design e na cultura popular.

Aos 97 anos, Yayoi Kusama deixou uma obra que se multiplica a cada olhar. Amanhã, ela não atravessará mais a rua entre o hospital e o estúdio, como fez durante cinco décadas. Entretanto, cada pessoa inebriada pela linguagem do infinito poderá mergulhar profundamente nesses devaneios e encontrar algo intrinsecamente íntimo.