
Disponível no Prime Video desde 7 de agosto, longa dirigido por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento transforma a tradicional contravenção brasileira em uma disputa mortal para abordar desigualdade, crise ambiental, relações de poder e a espetacularização da violência.
@caroline_leidiane
Um Rio de Janeiro sem mar, devastado por uma catástrofe ambiental e permeado por abismos sociais. Nesse futuro não tão distante, apostar no jogo do bicho deixou de significar escolher um animal e esperar por um número. Agora, os próprios seres humanos ocupam o lugar dos bichos — e sobreviver pode valer uma fortuna.
Disponível no Prime Video desde 7 de agosto, “Corrida dos Bichos” é dirigido por Fernando Meirelles, Ernesto Solis e Rodrigo Pesavento e combina ação, suspense e ficção científica em uma produção brasileira de grande escala.
A ideia original nasceu há quase duas décadas, quando Solis recebeu a encomenda de escrever um roteiro ambientado na capital fluminense futurista e decidiu procurar um elemento capaz de conferir identidade brasileira à história. A escolha recaiu sobre o jogo do bicho.
Na trama, uma catástrofe natural secou o mar e modificou radicalmente a paisagem carioca. Nesse cenário de degradação, uma elite transforma a sobrevivência dos mais pobres em entretenimento. Os participantes da chamada Corrida dos Bichos usam máscaras de animais e atravessam diferentes pontos da cidade enquanto recebem ordens de líderes que acompanham a disputa de salas de comando.
A perversidade vai além da possibilidade de morrer durante a prova. Para participar, corredores precisam colocar alguém valioso afetivamente como uma espécie de seguro. É dentro dessa engrenagem que Mano (Matheus Abreu) acaba obrigado a vestir a máscara do Gato depois que sua irmã, Dalva (Thainá Duarte), é envolvida no jogo. Para salvá-la, o personagem precisa se tornar parte da estrutura que tenta combater, em um universo onde vidas humanas são transformadas em moeda de aposta e a violência se torna espetáculo.
A corrida, portanto, funciona menos como previsão futurista e mais como alegoria. Sob as máscaras e o panorama bárbaro estão questões reconhecíveis no presente: desigualdade social, concentração de poder, degradação ambiental e a conversão da violência em produto de consumo.
Rodrigo Santoro, que interpreta Abu, o organizador da disputa, define a produção como um thriller de ação brasileiro que aborda “desigualdade social, dinâmicas de poder e a cultura da espetacularização”.

Um futuro construído sobre o presente
Embora a narrativa leve o espectador para outro tempo, “Corrida dos Bichos” encontra parte de sua força justamente no que há de reconhecível naquele mundo. A premissa começou a ser desenvolvida em 2008, muito antes de as apostas on-line ocuparem espaço tão expressivo no cotidiano brasileiro. Vista hoje, a ideia de uma sociedade organizada em torno de apostas, dinheiro e espetáculo ganha uma camada de atualidade que não estava prevista quando o projeto nasceu.
A crítica social também passa pela própria geografia da história. O Rio de Janeiro não serve apenas de pano de fundo: torna-se praticamente outro personagem. Em vez de construir integralmente a cidade futurista em estúdio, a produção recorreu a locações reais e efeitos visuais para degradar espaços conhecidos e retirar digitalmente a água do mar.
Segundo Pesavento, os efeitos foram empregados sobretudo na transformação da paisagem, enquanto boa parte das sequências de ação foi realizada com ensaios e trabalho de dublês.
A opção aproxima o futuro imaginado do Rio que existe hoje. Cartões postais permanecem identificáveis, mas aparecem deteriorados por anos de abandono e por uma catástrofe ambiental. O contraste ajuda a retirar a história do território das distopias importadas e situá-la em um imaginário essencialmente brasileiro.
Há ainda uma relação mais complexa entre cidade e jogo. Para Ernesto Solis, o Rio carrega uma mistura entre diversão, prazer, ilegalidade e perversidade presente também na história do jogo do bicho. O diretor contou que essa convivência entre uma prática ilegal e sua aceitação social chegou a ser difícil de explicar durante as conversas com a Amazon.
Fernando Meirelles foi o último dos três diretores a entrar no projeto. Convidado quando a Amazon adquiriu o pacote do filme, ele retorna ao Rio de Janeiro, cidade que marcou sua trajetória cinematográfica com “Cidade de Deus” (2002). Além de dividir com Solis a condução das sequências mais dramáticas, Meirelles também operou a câmera em cenas comandadas pelos outros diretores.
O elenco amplia a dimensão da produção. Além de Matheus Abreu, Rodrigo Santoro e Thainá Duarte, estão no filme Isis Valverde, Bruno Gagliasso, Seu Jorge, João Guilherme, Silvero Pereira e Grazi Massafera.

A voz de uma distopia brasileira
Se o jogo do bicho fornece a estrutura da narrativa, outra referência da cultura brasileira ajuda a estabelecer seu tom. “Bichos Escrotos”, lançada pelos Titãs no álbum “Cabeça Dinossauro”, de 1986, ressurge quatro décadas depois como tema de “Corrida dos Bichos”, agora interpretada por Anitta.
A cantora também integra o elenco como Divina, personagem responsável por narrar a competição. Sua voz acompanha os trajetos dos corredores e ajuda a explicar as regras daquela loteria humana, mas a função ultrapassa a de simples narradora. O texto assume contornos de uma crônica urbana distópica, alternando a linguagem popular associada às apostas com comentários sobre miséria, violência e sobrevivência.
O contraste é deliberado: enquanto pessoas correm pela própria vida, o massacre é apresentado como entretenimento aos privilegiados daquele universo, que jogam com a sobrevivência dos miseráveis em um enfático videogame luxuoso.
Divina ocupa justamente essa fronteira entre espetáculo e selvageria, revestindo a competição de uma linguagem sedutora enquanto a narrativa expõe o custo humano que existe por trás dela.
Essa dualidade percorre todo o filme. A ação oferece a superfície; por baixo dela, “Corrida dos Bichos” reúne referências brasileiras para construir uma sociedade moralmente degradada que parece distante apenas à primeira vista.
Ao transformar apostadores em espectadores, animais em seres humanos e a cidade em arena, o longa desloca uma tradição centenária para uma realidade extrema. O resultado é uma distopia que não pergunta apenas como seria o Brasil do futuro, mas quanto desse futuro já pode ser reconhecido no presente.




