Destinatário ausente, carta compartilhada

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Elza Lígia Mazza Torres de Queiroz recebe de Rosalie Gallo o Troféu Monteiro Lobato, após conquistar o 1º lugar no Prêmio Literário Cartas 2026 com ‘Carta à minha tia’ – Foto: arquivo pessoal

Vencedora do Prêmio Literário Cartas 2026, Elza Lígia Mazza Torres de Queiroz escreve para uma tia que morreu quando ela tinha três anos e transforma a ausência em reflexão sobre luto, maternidade e os silêncios familiares.


@caroline_leidiane

Enquanto as mensagens instantâneas encurtam distâncias e comprimem sentimentos em poucas linhas, algumas histórias ainda pedem tempo para serem ditas. Foi nessa extensão, entre a memória e o silêncio, que Elza Lígia Mazza Torres de Queiroz voltou-se para uma tia que morreu quando ela tinha apenas três anos.

A carta, escrita e guardada sem nenhuma pretensão, escapou pela fresta de uma gaveta semicerrada e cruzou a fronteira entre a intimidade e o público. Conquistando o primeiro lugar e o Troféu Monteiro Lobato do Prêmio Literário Cartas 2026, a moradora de São José do Rio Preto, que escreve como ato confidencial, foi surpreendida pelo resultado.

Elza Lígia sequer imaginava estar entre as vencedoras e tinha uma viagem marcada para a data da cerimônia, já que a inscrição foi feita de maneira totalmente despretensiosa. Entre as muitas correspondências que escreve, ela pinçou a “Carta à minha tia” justamente por se encaixar no tema do concurso, “Uma pessoa importante em minha vida”. O que parecia uma carta destinada a permanecer engavetada ganhou outro percurso.

A correspondência aberta da riopretense, no entanto, é apenas uma entre as dezenas de histórias que encontraram no Prêmio Literário Cartas um caminho para ultrapassar seus destinatários originais e alcançar novos leitores.

Na edição de 2026, 63 correspondências integram a antologia, número ampliado excepcionalmente diante dos empates na avaliação. Selecionados em meio a centenas de inscrições, os textos vieram de diferentes partes do Brasil e do exterior e reúnem memórias, afetos, perdas e reconhecimentos. São experiências particulares que, ao serem compartilhadas, passam a compor um retrato plural da sensibilidade de seu tempo.

Uma literatura que começa no íntimo

O Prêmio Literário Cartas é organizado pela professora e escritora Rosalie Gallo, ao lado do jornalista e editor Deodoro Moreira e do publicitário Cyrineu Massucatto. A iniciativa nasceu como desdobramento de um projeto desenvolvido há mais de uma década na Sociedade Cultural Ítalo-Brasileira Amici d’Italia, em São José do Rio Preto.

O projeto foi inicialmente criado para homenagear Fúlvia Tessarolo, primeira professora de italiano da entidade, conhecida por manter correspondência com familiares na Itália.

A retomada ampliou o alcance da proposta, mas preservou o princípio: recuperar a escrita como espaço de elaboração e diálogos profundos.

“O primeiro objetivo era o mesmo: a escrita de uma carta e o resgate da comunicação verbal, já que atualmente a comunicação humana anda muito precária”, explica Rosalie.

A edição, cujas inscrições ocorreram entre fevereiro e abril de 2026, propôs aos participantes que escrevessem para “Uma pessoa importante em minha vida”. Os textos foram avaliados anonimamente por jurados ligados à literatura. As informações capazes de identificar os autores são retiradas antes da análise, e cada carta recebe um número. A comissão considera a qualidade literária e o cumprimento do regulamento.

O processo deste ano, contudo, escapou ao número inicialmente previsto para a antologia. A qualidade dos trabalhos provocou sucessivos empates e levou a organização a manter textos que, na avaliação dos jurados, apresentavam equivalência de mérito.

“Houve muitos empates e foi decidido, ao final, mantermos os empatados, o que elevou o número de publicações de 50 textos para 63. A cada ano costumo trocar um dos jurados. Os que permanecem desde a primeira edição comentaram que tiveram grande dificuldade para avaliar em relação aos anos anteriores devido à elevação da qualidade literária apresentada”, expõe a organizadora.

Para além do resultado competitivo, a antologia transforma a carta em uma espécie de tributo afetuoso ao destinatário. As correspondências são lidas, publicadas e expostas, em um deslocamento do privado para o coletivo que é parte fundamental do projeto.

“A ausência de seu interlocutor, no circuito da comunicação, propicia uma liberdade muito maior para a expressão de sentimentos represados. Participar de um Prêmio como este, que tem jurados de alto nível literário, e ter trecho de seu texto exposto é recompensa pela coragem de se expor e pela libertação da emoção que esteve escondida por timidez ou falta de melhor oportunidade de expressão”, reflete Rosalie.

A antologia ‘Prêmio Literário Cartas 2026’ reúne 63 correspondências selecionadas na edição do concurso dedicada ao tema ‘Uma pessoa importante em minha vida’, cujas inscrições foram realizadas entre fevereiro e abril deste ano – Imagem: Divulgação

O luto por uma relação que não existiu

“Carta à minha tia” começa com uma ausência concreta: Elza Lígia tinha três anos quando a tia morreu. Não guarda uma lembrança direta dela. O que permaneceu foram objetos, relatos fragmentados, o silêncio dos adultos e uma sucessão de imagens capazes de alimentar a imaginação de uma criança.

Aos seis anos, Elza Lígia entrou no quarto da tia, encontrou uma luva de cetim branco e passou o perfume que ela usava. Diante do espelho, tentou imaginá-la. O episódio, porém, foi interrompido pela ameaça de que o fantasma da mulher pudesse assombrá-la. Quando tinha 15 anos, a pedido da avó, vestiu o vestido de noiva da tia. A peça lhe assentou perfeitamente e emocionou a avó pela semelhança. A paridade, nunca comprovada, tornou-se uma espécie de pergunta permanente.

A carta é delineada nesse espaço entre memória e lacuna. Quando adulta, Elza Lígia descobriu pelos jornais informações sobre a morte da tia e encontrou versões que contrariavam aquilo que imaginava. O texto passa então a acumular hipóteses, sem pretensão de solucioná-las. A própria autora afirma que seu interesse não está em estabelecer uma versão política ou histórica dos fatos, mas em observar o que o silêncio produziu dentro da família.

“Quem te conheceu não fala e os que gostariam de ter te conhecido confabulam, de modo que eu não sei mais o que de fato é ou não verdade. Um quebra cabeça incompleto”, escreve na carta.

Na entrevista, Elza Lígia desloca esse enigma para outro ponto. A ausência da tia, segundo ela, não permaneceu restrita à morte de uma mulher jovem, mas emanou para um pesar familiar.

“A falta de notícia e o silêncio velado provocaram um trauma na família, que nunca foi elaborado. E comecei a pensar a respeito da dor que minha avó sentia. E que acontece de várias formas dentro das famílias, na violência, no abuso, no preconceito, no vício e muitas vezes não é dito, o silêncio é velado e muitas vezes quando se fala, torna-se desacreditado”, discorre.

A maternidade acrescentou outra camada à história. Quando as filhas de Elza Lígia chegaram aos 21 anos — a mesma idade que a tia tinha quando morreu — a distância entre a experiência daquela mulher e a sua própria vida deixou de parecer abstrata.

“Eu não a conheci, mas diziam que parecia comigo, então fiquei curiosa a respeito dessa pessoa. Quando me tornei mãe e minhas filhas atingiram 21 anos, comecei a pensar que, se tivesse acontecido comigo, eu enlouqueceria. Quando veio a notícia que ela foi morta por uma colega, não sei se é verdade, fiquei decepcionada, preferia ela mártir, guerreira, depois comecei a criar várias hipóteses e todos são cruelmente trágicas”, elucida.

É desse ponto que surge o que Elza Lígia chama de “luto do não ter”: não apenas a perda de alguém, mas a ausência de uma relação que nunca pôde ser construída. A carta, nesse sentido, tenta alcançar uma possibilidade.

A imagem das filhas aparece no trecho final como contraponto. Se o drama da tia representa uma coragem que a autora diz não reconhecer em si, as duas meninas aparecem como mulheres capazes de enfrentar suas próprias lutas. Uma delas usa um bracelete associado à tia como símbolo de ligação e proteção; a outra é definida simplesmente pelo amor.

“Sim, com certeza, penso nas nossas semelhanças e diferenças, mas tudo isso é hipotético. O que é real é que eu sou essa mulher e mãe que me acovardo diante dos enfrentamentos, e talvez na escrita eu consiga ter a coragem de ser o que eu, na vida real, de fato não sou. Uso a escrita como um escudo, que me deixa segura de ser quem sou”, afirma.

Elizabeth, a tia que permaneceu como uma ausência presente na história de Elza Lígia. Sem ter convivido com ela, a escritora reuniu lembranças, objetos, relatos e lacunas para construir uma carta sobre aquilo que a morte interrompeu e sobre tudo o que poderia ter sido – Foto: arquivo pessoal

Da gaveta ao leitor

A carta premiada não foi escrita para o concurso. Ela fazia parte de uma prática que Elza Lígia desenvolveu nos últimos anos, depois de experiências em cursos de escrita criativa e do contato com autores que a estimularam a explorar o gênero epistolar.

Foi durante esse percurso que recebeu um incentivo que ajudou a transformar um hábito privado em projeto literário. Em exercícios de escrita, passou a produzir cartas destinadas a escritores e pessoas que admira. Algumas permaneceram guardadas; outras foram compartilhadas com os próprios destinatários.

“Comecei a escrever depois que li a carta que Valter Hugo Mãe escreveu para Marcelino Freire, fiquei impactada. Comecei a ler os livros de ambos. Fiz o curso de escrita criativa com Marcelino, e escrevi uma carta para Valter Hugo Mãe em um exercício de carta, e ele me disse que eu devia escrever um livro de cartas”, relata.

O gênero, para ela, não se limita à comunicação com quem está ausente. É também uma forma de agradecer pela existência de alguém, mesmo quando a relação é mediada pela obra.

“Escrevi uma carta a Diego Araúja, também escritor, dramaturgo e roteirista, colega do curso, e ele me disse que eu pareço Susan Sontag, escritora e ensaísta, para mim o melhor elogio que já recebi, e então no curso de escrita do Lourenço Mutarelli, escritor e ator, escrevi e li uma carta endereçada a ele, e ele ficou muito emocionado, gosto muito desta carta em particular”, recorda.

A experiência do prêmio altera o estatuto dessas cartas. O que fora endereçado a um remetente, entretanto sem despacho, agora encontra uma comunidade de leitores.

“O que mudou em mim quando esta carta passou a pertencer aos leitores foi uma gratidão pelos que me incentivaram e acreditaram na minha escrita”, reconhece.

De acordo com a vencedora, o reconhecimento reabriu uma possibilidade que havia começado a considerar com cautela. Aos 60 anos, ela passou a olhar para a publicação como uma possibilidade ainda em construção.

“Sim, esse projeto de um livro de cartas ficou mais possível, e estou com mais motivação para escrever. O que eu revelo em cada carta é como aquele destinatário me toca. É uma forma de gratidão por aquela existência. Como um abraço caloroso que eu gostaria de dar nessa pessoa, que na maioria das vezes eu nem conheço, mas conheço o seu trabalho e isso me encanta. E escrever me dá muito prazer”, planeja ela.

A ideia de reunir essas cartas prolonga, de certo modo, o movimento que levou “Carta à minha tia” até o prêmio. Primeiro, houve a escrita para alguém que não poderia responder. Depois, a gaveta. Em seguida, o concurso, a leitura dos jurados, a antologia e os leitores. A carta percorreu o caminho inverso da comunicação instantânea: em vez de desaparecer depois de enviada, ganhou permanência.

“Ter a possibilidade de expor sentimentos, demonstrar a coragem de se expor, resgatar emoções de afeto e até de desafetos, qualquer que seja o motivo que levou o remetente a participar do Prêmio, para nós, é de importância fundamental. Respeitamos cada um dos participantes, selecionados ou não, premiados ou não. Todos já são vitoriosos por vencerem a timidez atual, que bloqueia os relacionamentos humanos”, enaltece Rosalie.

A organização pretende ampliar ainda mais essa aproximação na próxima edição, quando os fragmentos expostos deverão reproduzir a caligrafia dos próprios autores.

“No ano que vem pretendemos implantar uma novidade: as cartas premiadas terão seus trechos apresentados de forma manuscrita pelo próprio remetente. Acredito, particularmente, que ver a letra manuscrita de uma pessoa é um elo a mais na relação autor/leitor”, adianta a organizadora.

A cerimônia de lançamento da antologia, abertura da exposição com trechos das cartas selecionadas e entrega dos prêmios aconteceu na manhã de 25 de julho, Dia do Escritor, no Riopreto Shopping Center.