O celular sabia que ela estava grávida… e ela não sabia

21
Christiano Guimarães - consultor em Segurança da Informação - Foto: Reprodução

Patrícia começou a desconfiar quando os anúncios mudaram.

Até poucas semanas antes, seu celular insistia em mostrar promoções de roupas, restaurantes e viagens. De repente, sem aviso, começaram a aparecer anúncios de vitaminas para gestantes, carrinhos de bebê, fraldas e roupas infantis. Ela achou estranho. Comentou com uma amiga, deu risada da situação e seguiu a vida.

Afinal, ela nem sabia que estava grávida.

Os dias passaram. Vieram alguns enjoos, um cansaço diferente e aquela sensação de que alguma coisa estava fora do lugar. Até que resolveu fazer um teste. Resultado positivo.

A primeira reação foi de alegria. A segunda foi de espanto.

Como o celular parecia saber antes dela?

Parece história de ficção científica, mas não é. E o mais curioso é que, na maioria das vezes, ninguém precisou invadir o telefone, roubar senhas ou acessar exames médicos. O que aconteceu foi algo muito mais simples — e talvez mais preocupante.

Nas semanas anteriores, Patrícia havia pesquisado sobre cansaço constante. Em alguns dias procurou informações sobre dores de cabeça que antes não tinha. Assistiu vídeos sobre alimentação porque sentia mais fome do que o habitual. Pesquisou sobre inchaço, retenção de líquido, alterações de humor e mudanças no sono. Separadamente, nenhuma dessas buscas significava muita coisa. Mas para os algoritmos elas funcionam como peças de um quebra-cabeça. Quando várias dessas peças começam a aparecer ao mesmo tempo, o sistema deixa de enxergar pesquisas isoladas e passa a identificar um padrão.

É exatamente assim que essas plataformas funcionam. Elas não precisam saber que Patrícia está grávida. Basta perceber que milhares de mulheres que apresentaram aquele mesmo conjunto de comportamentos acabaram descobrindo uma gravidez algumas semanas depois. Se você começa a demonstrar sinais parecidos, os sistemas aumentam a probabilidade de que esteja acontecendo a mesma coisa. Não é adivinhação. É estatística alimentada por bilhões de dados coletados todos os dias.

E aqui está uma das maiores mudanças da nossa geração: durante muito tempo acreditamos que nossos dados eram apenas documentos. CPF, RG, telefone e endereço. Hoje, nossos hábitos valem tanto quanto essas informações. Às vezes até mais. O supermercado sabe o que você costuma comprar. O aplicativo de música sabe o que você gosta de ouvir. O navegador sabe o que você pesquisa. As redes sociais sabem o que prende sua atenção. Quando essas pequenas peças se juntam, surge um retrato extremamente detalhado da nossa vida.

O mais interessante é que a maioria das pessoas entrega essas informações sem perceber. Afinal, ninguém acorda de manhã pensando: “Hoje vou informar meus hábitos para uma empresa de tecnologia.” Mas fazemos isso o dia inteiro. Cada pesquisa, cada curtida, cada vídeo assistido até o final e cada aplicativo instalado contam uma pequena história sobre quem somos.

A boa notícia é que existe mais controle do que muita gente imagina. Revisar permissões de aplicativos, limitar compartilhamentos desnecessários, ajustar configurações de privacidade e pensar duas vezes antes de aceitar qualquer termo de uso já reduz bastante a quantidade de informação distribuída por aí. Não elimina completamente o monitoramento, mas ajuda a recuperar parte do controle.

Patrícia continua usando o celular todos os dias. Como todos nós. Mas depois daquela experiência passou a enxergar a tecnologia de outra forma. Não com medo. Nem com paranoia. Apenas com mais consciência.

Porque talvez o mais impressionante não seja o fato de o celular ter descoberto a gravidez antes dela. O mais impressionante é que ele não precisou ouvir conversas, acessar exames ou invadir sua privacidade para chegar a essa conclusão. Bastou observar pequenos sinais que ela mesma considerava irrelevantes.

E talvez seja exatamente isso que torne essa história tão interessante.

Christiano Guimarães

Consultor em Segurança da Informação

Autor do Livro:

Como Adequar Minha Empresa à Lei Geral de Proteção de Dados – Um Guia Prático