Metamorfose como inspiração

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Em meio às fotografias da exposição ‘Metamorfose’, Claudia da Cruz revisita a própria trajetória de dor, coragem e reconstrução - Foto: Leidiane Caroline

Exposição construída a partir da trajetória da empreendedora Claudia Cruz reúne fotografia e poesia em uma narrativa sobre autonomia, superação e protagonismo feminino.


@caroline_leidiane

Na manhã desta segunda-feira, 11 de maio, o Sebrae-SP de Votuporanga recebeu lideranças femininas, autoridades regionais e convidadas para o lançamento da exposição “Metamorfose”, mostra artística construída a partir da trajetória de Claudia da Cruz durante o enfrentamento do câncer de mama.

O encontro integrou as ações do Sebrae Delas e marcou o início das mobilizações do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026 na região, iniciativa criada em 2004 para reconhecer e valorizar trajetórias femininas no universo dos negócios no Brasil.

A programação começou com um café da manhã de recepção e troca de experiências entre as participantes. Na sequência, a gerente regional do Sebrae-SP, Iroá Arantes, conduziu uma introdução sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho, a busca por independência financeira e os impactos da sobrecarga feminina na vida profissional e pessoal.

A gerente regional do Sebrae-SP, Iroá Arantes, e Claudia da Cruz durante o lançamento da exposição “Metamorfose” no Sebrae-SP de Votuporanga – Foto: Leidiane Caroline

Segundo ela, muitas mulheres iniciam negócios próprios não apenas por vocação, mas por necessidade, diante de contextos familiares complexos, desigualdade salarial e ausência de suporte dentro de casa.

“Quando falamos do financeiro para a mulher, nunca é apenas sobre dinheiro. É a casa, os filhos, os pais, as responsabilidades emocionais e tudo aquilo que recai sobre ela”, afirmou.

Iroá Arantes, Vanessa Ruas, agente de desenvolvimento; Carla Carina Bussoloti, analista de negócios; Evelise Galbe, consultora de negócios; e Claudia da Cruz – Foto: Leidiane Caroline

Iroá destacou que parte importante do trabalho desenvolvido pelo Sebrae Delas está justamente em incentivar e fortalecer a cultura empreendedora entre o público feminino.

“Muitas vezes, o primeiro passo é mostrar para essa mulher que ela pode, que ela é capaz, que existem outras possibilidades para a vida dela”, declarou.

Durante a apresentação do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios 2026, a gerente explicou que a iniciativa busca dar visibilidade a trajetórias que muitas vezes permanecem escondidas por trás de empresas já consolidadas, incentivando outras mulheres a assumirem o protagonismo dos próprios percursos.

Ao compartilhar exemplos de edições anteriores, Iroá relembrou o caso de uma professora viúva que começou confeccionando calcinhas de algodão para sustentar os filhos e, anos depois, transformou o pequeno trabalho doméstico em uma indústria de pijamas.

Também citou a trajetória de uma produtora rural que herdou da avó benzedeira o conhecimento sobre ervas medicinais e construiu uma marca de óleos essenciais reconhecida nacionalmente.

“São histórias de vida misturadas com histórias de trabalho, coragem e reinvenção. Mulheres que entenderam que poderiam ocupar o protagonismo da própria trajetória”, ressaltou.

Iroá Arantes, Chino Bolotário, secretário de Desenvolvimento Econômico de Votuporanga; Amanda Bispo e Elaine Fiamenghi, agentes de desenvolvimento; Carla Carina Bussoloti, Evelise Galbe e Claudia da Cruz – Foto: Leidiane Caroline

A dirigente ainda provocou uma reflexão sobre a lenta evolução da igualdade de gênero. Para ela, embora as mulheres tenham conquistado direitos fundamentais nas últimas décadas, como votar, estudar e escolher seus próprios caminhos, o ritmo dessas mudanças desacelerou.

“Se mantivermos a velocidade atual, ainda levaremos mais de um século para alcançar uma sociedade realmente igualitária entre homens e mulheres”, pontuou.

Entre dor, humor e reconstrução

Após a abertura institucional, Claudia da Cruz conduziu a palestra “O Poder da Alegria”, relato atravessado por emoção, humor e considerações sobre o processo de adoecimento e cura.

Professora de português e inglês, Claudia atuou durante uma década como facilitadora de cursos do Sebrae-SP e construiu carreira voltada à capacitação profissional e treinamentos corporativos. Foi justamente dentro desse universo que aprendeu conceitos ligados à iniciativa, adaptação e resiliência — elementos que, mais tarde, levaria para a própria sobrevivência.

“Empreender não é só abrir uma empresa. É aprender a agir diante das dificuldades da vida”, citou.

Iroá Arantes, Márcia Alves, vice-prefeita de Turmalina; Flávia Jacomassi, agente de desenvolvimento; Carla Carina Bussoloti e Claudia da Cruz – Foto: Leidiane Caroline

Ela contou que descobriu o câncer de mama aos 48 anos, durante um corriqueiro banho. Sem histórico familiar da doença, precisou interromper completamente a rotina para enfrentar exames, cirurgia, quimioterapia e radioterapia.

“Quando você descobre um câncer, a vida para”, disse.

Claudia relembrou que o diagnóstico veio acompanhado de medo e da sensação de ruptura absoluta da normalidade. Mãe de três filhos, ela precisou reorganizar a própria existência diante das incertezas.

Ao falar sobre o tratamento, a palestrante compartilhou o impacto provocado pela forma fria com que recebeu as primeiras orientações médicas. Em resposta, decidiu construir uma postura diferente.

“Eu falei: vou quebrar essa médica com o meu amor”, recordou.

A partir daquele momento, transformou a alegria em mecanismo de resistência. Passou a frequentar as sessões de quimioterapia maquiada, usando lenços coloridos e tentando aliviar o peso emocional do ambiente hospitalar com humor.

“Eu não queria que as pessoas olhassem para mim com pena. Eu queria um olhar de vitória”, delimitou.

Em outro trecho marcante da palestra, Claudia refletiu sobre a necessidade de desacelerar e enxergar beleza nas pequenas experiências cotidianas.

“A vida é agora. A felicidade é agora”, enfatizou.

Ela também admitiu como a doença modificou a relação consigo mesma, com o tempo e com as pessoas ao redor. Entre as lembranças mais sensíveis, contou que precisou desenhar as próprias sobrancelhas diariamente após perdê-las durante o tratamento.

“Todas as manhãs eu olho no espelho e digo para mim mesma: ‘Cláudia, você é linda’. Depois desenho minhas sobrancelhas, assim como desenho o dia: sempre com alegria e gratidão por estar vida”, descreveu.

A construção da borboleta

Ao fim da palestra, o público foi conduzido à exposição “Metamorfose”, instalada em formato compacto na sede do Sebrae-SP, com menos de dez fotografias. A versão original da mostra foi apresentada em 2024 na Biblioteca Municipal do Parque da Cultura e, posteriormente, no Senac Votuporanga.

A exposição completa reúne 15 fotografias inspiradas nas fases da metamorfose da borboleta. O ovo simboliza o diagnóstico. A eclosão representa a aceitação da doença. A lagarta traduz as dores físicas e emocionais do tratamento. O casulo marca o mergulho interior. Já a borboleta simboliza a cura e a retomada da liberdade.

Iroá Arantes, Adriana Silveira, primeira-dama de Cosmorama; Vaneia Oliveira, agente de desenvolvimento; Marta Ferreira, empresária de Cosmorama; Carla Carina Bussoloti e Claudia da Cruz – Foto: Leidiane Caroline

O projeto nasceu após o fotógrafo Rafael Faceto assistir a uma palestra de Claudia sobre sua experiência com o câncer. Impactado pelo relato, ele decidiu presenteá-la com um ensaio artístico. O material, inicialmente pensado para ilustrar futuras apresentações, ganhou força e se transformou em uma exposição completa.

“Nem eu imaginava que aquilo se tornaria algo tão grande”, afirmou Faceto.

A narrativa é complementada pelo trabalho do psicólogo Willian Bernardes, responsável pelo delineamento poético da exposição. Por meio de textos sensíveis, ele traduz os desafios enfrentados durante o processo, conferindo uma dimensão simbólica à experiência.

Segundo Claudia, a exposição ultrapassa a temática do câncer de mama e dialoga com qualquer processo de reconstrução humana.

“A exposição não é sobre superar o câncer. É sobre superar a vida”, afirmou Claudia ao citar uma reflexão feita pela secretária da Cultura e Turismo, Janaína da Silva, durante visita à mostra.

Iroá Arantes, Graziele Garcia, auxiliar administrativa do Fundo Social; Vanessa Erica, diretora executiva do Departamento de Assistência Social; Aline Marioto, primeira-dama de Américo de Campos; Carla Carina Bussoloti, Tatiane Campanelli, diretora do Departamento de Planejamento e Gestão Pública; Rosinha Miron, vice-prefeita de Américo de Campos; Evelise Galbe, Lara Miron, assistente social; e Claudia da Cruz – Foto: Leidiane Caroline

Ao final do encontro, ela convidou o público a percorrer cada etapa da narrativa visual respeitando a ordem pensada pela equipe criativa.

“A lagarta entra no casulo, e o casulo dói. Mas depois ele se rompe e a borboleta consegue voar”, finalizou.

Exposição fotográfica “Metamorfose”

  • Data: até 15 de maio
  • Local: Sebrae-SP de Votuporanga, unidade fica na avenida Wilson de Souza Foz, nº 5137, no bairro San Remo
  • Visitação gratuita