Mãe diz que bebê foi filmada comendo fezes em creche investigada por maus-tratos após ex-funcionária enviar bilhete: ‘Me senti culpada’ 

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Funcionária esconde bilhete dentro de mamadeira para alertar mãe sobre maus-tratos em Rio Preto — Foto: Arquivo pessoal

Mãe procurou a delegacia nesta segunda-feira (15) para denunciar o caso em São José do Rio Preto/SP. Direção da creche informou que o vídeo é um registro privado, com o objetivo de pedido de socorro administrativo.


Uma das mães que denunciou à polícia a creche de São José do Rio Preto/SP investigada por maus-tratos contra crianças disse nesta terça-feira (16.dez) que a filha de dez meses foi filmada supostamente comendo fezes. A mulher também recebeu um bilhete da ex-funcionária, escondido dentro de uma vasilha de lanche, para alertar sobre a situação.

Em nota, publicada no domingo (14), a direção da creche informou que o vídeo é um registro privado, encaminhado em um grupo restrito com o objetivo de pedido de socorro administrativo. Ainda disse que nenhuma criança foi vítima de violência.

Para preservar a criança, a mãe ouvida pelo g1 não vai ser identificada. Ela tem 24 anos e procurou a delegacia nesta segunda-feira (15) para denunciar o caso.

De acordo com ela, um vídeo, enviado pela ex-berçarista e obtido pela reportagem, mostra um grupo de crianças em uma sala. A gravação foi registrada antes das denúncias serem formalizadas.

Entre as crianças, a bebê, de dez meses, parece estar com as mãos sujas de fezes. No vídeo também é possível ouvir crianças chorando e a narração de uma mulher. A voz que narra o vídeo é atribuída à dona, uma vez que há um comentário sobre a sobrecarga do serviço e falta de funcionárias, que são xingadas.

“Eu preciso de alguém aqui para me socorrer, cagado, comendo bosta, tudo atrás de mim, um choreiro lá no fundo, porque nenhuma ‘maldita’, ‘desgraçada’, veio trabalhar hoje”, comenta a mulher no vídeo.

Ao ver as imagens, a mãe comentou que se sentiu culpada e que colocou a filha com nove meses na creche porque precisava trabalhar. De acordo com ela, a família é de outro estado e não tem rede de apoio em Rio Preto.

“Me senti um lixo, culpada. Aqui a gente não conhece ninguém, nossa família é de outro estado. Eu me revoltei, surtei quando vi minha filha comendo fezes, isso foi o pior. Eu não coloquei ela lá por luxo, mas porque eu preciso. Eu fico pensando se a minha filha tivesse pego doença”, lamenta a mãe.

Ex-funcionária denuncia insalubridade em creche particular em Rio Preto — Foto: Arquivo pessoal

Todos os vídeos foram levados e apresentados na delegacia. À TV TEM, o delegado Amaury Scheffer de Oliveira Junior, do 4º e 6º Distrito Policial, confirmou que instaurou um inquérito policial como maus-tratos. Pelo menos dez mães procuraram a delegacia para formalizar a denúncia entre sábado (13) e segunda-feira (15).

Irregularidades 

Conforme a Secretaria Municipal da Fazenda, a creche não possui licença para funcionamento. A informação foi confirmada à reportagem nesta terça-feira (16). 

Segundo a secretaria, a empresa entrou com um pedido de licença no dia 17 de novembro deste ano para exercer as atividades de prestação de serviços de entretenimento infantil e de cuidados de bebês e crianças. 

Entretanto, o pedido foi indeferido pela fiscalização, tendo em vista a constatação de que o espaço exerce atividade de creche. No dia seguinte, foi notificada para incluir a atividade de educação infantil (creche) no cadastro. 

O prazo termina na segunda-feira (22). Caso não atenda as adequações, cabe advertência, multa e lacração. 

O que diz a direção da creche 

“A direção vem, por meio desta, prestar esclarecimentos à comunidade, aos pais e à sociedade em geral acerca de fatos recentemente divulgados nas redes sociais e em veículos de comunicação. 

As imagens e vídeos que vêm sendo compartilhados foram registrados e divulgados fora de contexto, de forma parcial e distorcida, por ex-funcionárias que já haviam solicitado desligamento da instituição, circunstância que está sendo devidamente apurada pelas autoridades competentes. 

O material divulgado não reflete a rotina, os valores, nem o padrão de cuidado adotado pela escola ao longo de sua trajetória. Trata-se de situações pontuais, momentâneas e já corrigidas, algumas delas decorrentes de falha funcional específica, e não de qualquer prática reiterada de negligência, abuso ou maus-tratos.

Esclarece-se, ainda, que nenhuma criança foi submetida a violência, maus-tratos ou situação degradante. Todas as condutas da direção sempre foram orientadas pelo bem-estar, segurança e proteção integral das crianças, nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Quanto a um vídeo específico que também passou a circular, trata-se de registro privado, feito em momento de extremo estresse e desespero, encaminhado exclusivamente em grupo restrito, com o único objetivo de pedido de socorro administrativo, jamais para divulgação pública. Sua publicação sem autorização configura violação de intimidade, já devidamente submetida à apreciação judicial.

A direção informa que todas as medidas legais cabíveis já estão sendo adotadas, tanto na esfera criminal quanto cível, para a apuração dos fatos, responsabilização dos envolvidos e reparação dos danos causados.

Reafirmamos nosso compromisso com a verdade, com a transparência e, sobretudo, com as famílias que sempre confiaram em nosso trabalho. Pedimos serenidade, responsabilidade e respeito ao devido processo legal.”

*Com informações do g1