Dona Antônia ainda está esperando, e você?

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Christiano Guimarães é consultor de empresas, professor e escritor – Foto: Reprodução

Dona Antônia tem um político do coração. Não importa quem seja, nem de qual partido — até porque, se eu colocar nome nesta história, metade dos leitores vai parar de pensar para começar a brigar. Ela gosta dele há anos. Viu entrevistas, acompanhou discursos, compartilhou vídeos e defendeu algumas promessas com a segurança de quem já tinha recebido a obra pronta. Quando alguém criticava, ela respondia rápido: “Deixa o homem trabalhar”. O tempo passou. Ele trabalhou. Depois trabalhou mais um pouco. Dona Antônia continuou esperando.

No começo, havia explicação para tudo. A economia estava ruim. A oposição não deixava. A situação anterior tinha deixado problemas. Depois veio uma crise, outra crise, alguma coisa acontecendo no exterior e, evidentemente, sempre havia alguém atrapalhando. Dona Antônia entendia. Na televisão e no celular, dependendo de onde procurava, encontrava todos os dias alguma notícia mostrando que as coisas estavam melhorando. E talvez muitas realmente estivessem. O problema é que a melhora parecia ter certa dificuldade para encontrar o endereço dela.

No supermercado, Dona Antônia continuava fazendo conta. Algumas coisas que antes colocava no carrinho sem pensar começaram a ser negociadas mentalmente diante da prateleira. O remédio continuava pesando no orçamento. O filho seguia procurando uma oportunidade melhor. A conta no fim do mês ainda exigia aquela engenharia financeira que deveria dar diploma para muita família brasileira. Mas ela continuava ouvindo que agora o país, o estado ou a cidade estava no caminho certo. Depois de tanto tempo, começou a surgir uma dúvida inconveniente: se tudo melhorou tanto, em que momento isso deveria chegar à minha casa?

A pergunta incomodou. Não porque Dona Antônia tivesse mudado de lado, mas porque nunca tinha pensado daquela maneira. Percebeu que passara anos avaliando seu político pelo que ele dizia que faria, pelo que dizia ter feito e, principalmente, pelas explicações sobre aquilo que ainda não tinha conseguido fazer. Faltava uma coisa bastante simples: comparar a promessa com a entrega. Política tem uma característica curiosa. Se uma empresa promete entregar uma geladeira e manda uma torradeira, dificilmente o cliente agradece pelo esforço. Na política, às vezes recebemos a torradeira e ainda brigamos com o vizinho para defender que aquilo gela muito bem.

Dona Antônia resolveu fazer uma experiência. Pegou algumas coisas que eram importantes para ela e sua família e tentou lembrar como estavam anos atrás. Não procurou saber se seu político tinha “vencido o debate” nem quantos seguidores possuía. Também não quis saber qual adversário era pior. Olhou para a própria vida. Sua renda melhorou de verdade? O acesso aos serviços públicos que utiliza ficou melhor? A segurança que percebe no cotidiano mudou? Surgiram mais oportunidades para sua família? Aquilo que havia sido prometido aconteceu? E, quando não aconteceu, houve pelo menos avanço suficiente para justificar mais tempo e confiança?

As respostas não vieram todas para o mesmo lado. Algumas coisas haviam melhorado. Outras continuavam praticamente iguais. Em algumas, Dona Antônia percebeu que nem sabia dizer. E talvez tenha sido justamente aí que aconteceu a parte mais importante da história: pela primeira vez, ela deixou de tentar provar que estava certa e começou simplesmente a conferir.

Neste domingo, 4 de outubro, mais de 158 milhões de eleitores estão aptos a participar do primeiro turno das Eleições Gerais de 2026, escolhendo representantes para diferentes cargos. Não cabe a mim dizer em quem Dona Antônia deve votar — nem em quem você deve. Mas talvez caiba uma sugestão bem menos emocionante do que os vídeos de campanha: antes de escolher, faça uma auditoria particular. Pegue aquilo que lhe prometeram, compare com aquilo que foi entregue e observe sua própria realidade. Sem paixão, sem torcida e, se possível, sem perguntar primeiro ao grupo da família.

Gostar de um político não é problema. Transformá-lo em alguém que não pode ser cobrado é outra história. Político não precisa de fã-clube. Precisa de eleitor atento. Se fez um bom trabalho, existem fatos para demonstrar. Se não fez, o eleitor também tem o direito de perceber isso. E essa avaliação não deveria mudar porque o nome na urna é o nosso preferido.

Não sou cientista político e nem pretendo ser. Sou apenas alguém cada vez mais incomodado em ver pessoas sendo tratadas como se bastasse uma promessa nova para fazê-las esquecer a antiga. Domingo, Dona Antônia terá novamente alguns segundos diante da urna.

Tomara que, antes de apertar CONFIRMA, ela se lembre de fazer uma pergunta que deveria valer para qualquer político, de qualquer partido:

“Minha confiança foi correspondida ou eu apenas fiquei muito boa em esperar?”

Christiano Guimarães – Empresário, consultor e escritor

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