O meio-campista que passou pelas categorias de base da equipe de Fernandópolis, relatou em entrevista que, sem recursos, ‘fugiu’ para jogar campeonato amador por R$ 50: “Precisava fazer as coisas, precisava comer.”
Jorge Honorio
jorgehonoriojornalista@gmail.com
O glamour que cerca a elite do futebol brasileiro nem sempre é alcançado por todos, já para outros, chegar lá pode ser um desafio penoso: é o caso do meio-campista Raniele, atual campeão paulista pelo Corinthians.
Em entrevista a um podcast apresentado pelo ex-jogador Denilson, Raniele, de 28 anos, explicou as adversidades enfrentadas quando atuava na base do Fernandópolis, em 2016, inclusive chegando a passar fome.
Natural de Baixa Grande/BA, o jogador não tinha como se manter em outro estado e dependia, essencialmente, da precária estrutura que o FFC poderia oferecer: “Era difícil, porque eu tinha duas opções: ou falava para o meu pai que estava morrendo de fome e ele ia falar para eu voltar para casa de algum jeito; ou eu ia para cima. Eu tinha o sonho de ser profissional, então eu precisava passar por aquilo ali. Eu estava no sub-20 ali [em Fernandópolis]. Às vezes tinha refeição, às vezes não. A gente tinha que esperar o profissional comer, você vê a ‘rapaziada’ comendo e depois mal sobrava comida. Era tudo muito limitado. A gente treinava com fome, esperava chegar o outro dia. Quem tinha dinheiro, comprava comida. Quem não tinha, bebia água e dormia para no outro dia acordar e treinar. Era complicado, mas tive de passar por isso para aprender a valorizar o que eu tenho hoje.”
“Para ter uma ideia, uma vez até tomei uma bronca do presidente lá do clube, porque eu não tinha dinheiro para fazer nada, jogando lá numa cidade pequena também, e aí tinha campeonato amador. Uma vez eu saí no fim de semana para jogar o amador lá para o clube, para ganhar R$100, R$50. Ele, nossa, falou que não podia fazer isso. Eu falei pra ele, não tem como, preciso comer, preciso fazer as coisas. Aí, direto a mãe ligando, então era algo muito complicado. Só que eu não falava pra minha mãe o que eu passava, porque eu já pensava em algo difícil, já era algo bem complicado a situação. E aí ter a mãe falando, ‘não, não aguento que você fique aí, não. Volta pra cá,’ ia ser pior ainda. Então eu sempre mentia pra ela, falava, não, não, tá tudo bem”, relembrou.
Raniele rodou por várias outras equipes até chegar no Bahia (Ferroviária, Portuguesa, Jacuipense e Botafogo-SP), Raniele poderia até ter iniciado a sua trajetória justamente no Esquadrão. Porém, tanto o Tricolor como o arquirrival, Vitória, o reprovaram nos testes feitos.
“Foi muito trabalho. Assim como fui recusado no Vitória, que fiquei até mais tempo, no Bahia foi uma avaliação e duas semanas de teste. Mas não tem nada de rancor, nem nada. Não era o momento, eu não tinha qualidade o bastante na época mas, conforme o tempo passou, eu evoluí e fiquei mais pronto para integrar o elenco. É um clube que eu sonhava jogar, um dos maiores do Brasil, o maior do Nordeste… Qualquer jogador sonha atuar lá. Quando eu era moleque, não deu certo, mas depois, tudo no tempo de Deus.”
De lá para cá, Raniele defendeu as cores do Avaí e do Cuiabá, antes de desembarcar na Neo Química Arena. Perguntado sobre o interesse do Corinthians, o meio-campista contou em detalhes.
“Ah, eu não acreditei. Porque eu tava jogando a Série A, eu tinha, se não me engano, mais dois anos de contrato com o Cuiabá. E aí vai pintando o interesse, o empresário vai falando, ó, o Corinthians tá dando uma sondada aqui e tal, estamos vendo aqui. E eu falo, daora, mas pra entrar lá é trampo pra c@ralho, tá maluco, não tem como. E aí a gente joga contra o Corinthians lá em Cuiabá, a gente perde 1 a 0. O Corinthians praticamente se salva do rebaixamento nesse jogo aí, contra o Grêmio também, lá na arena. E aí acaba o jogo, o Mano [Mano Menezes, treinador do Corinthians a época] vem assim me cumprimentar, o Mano é meu ex-treinador. É, eu cumprimentei ele, puto, né, acabou o jogo, perdi o jogo. Cumprimentei e ia saindo assim, ele me deu uma segurada, e falou: ‘Não sei quais são os seus planos pro ano que vem, mas a gente vai vir atrás de você.’ Aí eu, porr@, até então era só um interessezinho legal, da daora. Pô, pelo menos o Corinthians tá dando uma sondada aqui, ó. Aí eu falei, opa, parece que não é só brincadeira não. Nesse dia eu já liguei pro meu pai, só que ainda é longe, né, distante. Já pensou, eu vou pro Corinthians. Se eu só vestir a camisa, se eu só apresentar do lado, só jogar uma partidinha só aqui daora. Só entrar um jogo lá na Arena, que beleza.”
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