
Quinze produções disputam a indicação brasileira ao prêmio de Melhor Filme Internacional; seis serão selecionadas em setembro e o representante do país será anunciado no dia 16.
@caroline_leidiane
Depois de viver um dos capítulos mais importantes de sua história recente no Oscar, o cinema brasileiro volta a mirar Hollywood. A Academia Brasileira de Cinema anunciou, no dia 24 de agosto, os 15 filmes habilitados a disputar a vaga do Brasil na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.
A lista reúne diferentes gêneros, gerações e perspectivas, revelando um audiovisual que continua explorando a brasilidade multicultural em suas diversas vertentes e representações, refletindo as diferentes maneiras de ser brasileiro.
A escolha acontece em duas etapas. No dia 9 de setembro, uma comissão selecionará seis títulos para a fase final. O representante brasileiro será anunciado em 16 de setembro. A cerimônia do Oscar 2027 está marcada para 14 de março.
O aclamado “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025, tornando-se o primeiro longa brasileiro a vencer a categoria. No ano seguinte, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações, consolidando a presença do cinema nacional entre as grandes produções do circuito internacional e fazendo da expectativa pela estatueta algo que já não parece uma miragem em horizonte distante.
Mosaico multifacetado
“100 Dias”, dirigido por Carlos Saldanha, acompanha a travessia de Amyr Klink pelo Atlântico Sul a remo. A aventura marítima se transforma em uma jornada interior, marcada por solidão, medo, memórias e conflitos familiares.
Em “A Conspiração Condor”, de André Sturm, a investigação jornalística sobre as mortes de Juscelino Kubitschek e João Goulart conduz a uma possível trama relacionada à ditadura militar. O filme retoma um dos períodos mais controversos da história brasileira a partir das perspectivas do mistério e da investigação.
“A Fabulosa Máquina do Tempo”, de Eliza Capai, desloca o olhar para o sertão do Piauí. Meninas entre a infância e a adolescência inventam uma máquina do tempo para revisitar as histórias de suas mães e avós e imaginar um futuro diferente. Entre brincadeiras, redes sociais, religião e fabulação, o documentário aborda pobreza, desigualdade e as expectativas acerca de tornar-se mulher.
“A Natureza das Coisas Invisíveis”, de Rafaela Camelo, acompanha Glória, de 10 anos, durante as férias no hospital onde sua mãe trabalha. A amizade com Sofia, outra menina que vive uma situação familiar delicada, cria um espaço de afeto e imaginação que se prolonga quando as duas famílias partem para o interior de Goiás.

Em “Ato Noturno”, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher, o desejo e a exposição pública se encontram. Um ator ambicioso e um político em ascensão mantêm um relacionamento secreto e descobrem juntos o prazer pelo risco, enquanto suas carreiras avançam.
“Cinco Tipos de Medo”, de Bruno Bini, entrelaça as trajetórias de um músico em luto, uma enfermeira presa a um relacionamento abusivo, uma policial movida pela vingança e um advogado com interesses próprios. Histórias aparentemente independentes se cruzam em uma narrativa inspirada em acontecimentos reais.
“Dolores”, de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, acompanha três gerações de mulheres que tentam modificar seus destinos. Às vésperas dos 65 anos, Dolores acredita que se tornará dona de um cassino; a filha espera uma nova vida ao lado do namorado, que deixará a prisão; e a neta aposta na possibilidade de trabalhar nos Estados Unidos. A ideia de arriscar tudo para mudar de vida atravessa as três personagens.
Em “Feito Pipa”, de Allan Deberton, a infância é observada a partir da relação entre Gugu, um garoto de 12 anos apaixonado por futebol, a avó que o criou e um pai marcado pela ausência. A possibilidade de passar a viver com o pai coloca o menino diante de uma mudança que ameaça o universo seguro construído até então.
“Herança de Narcisa”, de Clarissa Appelt e Daniel Dias, mergulha no território do horror. Após a morte da mãe, uma antiga vedete, Ana retorna à casa onde passou a infância para resolver questões relacionadas à herança. A presença sobrenatural de Narcisa, porém, sugere que determinados vínculos familiares não terminam com a morte.
Dirigido por Grace Passô, “Nosso Segredo” apresenta uma família negra tentando reorganizar a vida depois de uma perda. Enquanto cada integrante encontra uma maneira própria de lidar com o luto, o filho mais novo guarda um segredo que pode conduzir todos a uma compreensão mais profunda das próprias dores.
“O Rei da Internet”, de Fabrício Bittar, parte de uma história real para abordar fama, criminalidade e tecnologia. O protagonista, Daniel Nascimento, torna-se conhecido como um dos melhores hackers do país, aproxima-se de uma organização criminosa que movimenta milhões de reais, experimenta uma vida de luxo e termina preso em uma operação da Polícia Federal.
“Quando Vira a Esquina”, documentário de Chris Alcazar, escuta profissionais do sexo que trabalham na Vila Mimosa, no Rio de Janeiro. O filme constrói seu olhar a partir da relação de confiança estabelecida entre a diretora e as personagens, colocando em primeiro plano histórias que muitas vezes permanecem fora do enquadramento social.
“Malês”, dirigido por Antonio Pitanga, retorna a 1835 para reconstruir a Revolta dos Malês, em Salvador. A trama acompanha dois jovens muçulmanos retirados à força da África e escravizados no Brasil. Separados, eles lutam pela sobrevivência e pela possibilidade de reencontro enquanto a cidade se transforma no cenário de uma das maiores insurreições de escravizados da história brasileira.

Em “Papagaios”, de Douglas Soares, a televisão e a busca pela fama estão no centro da narrativa. Tunico, conhecido por aparecer ao lado de repórteres nas ruas do Rio de Janeiro, sofre um acidente e passa a ensinar seu ofício a Beto, um jovem misterioso. A relação entre os dois abre espaço para uma reflexão sobre a exposição e o desejo de aparecer.
Fechando a lista, “Vicentina Pede Desculpas”, de Gabriel Martins. Um acidente de ônibus mata quase todos os passageiros, incluindo o motorista, Wesley, filho de Vicentina. Diante da tragédia e das especulações sobre uma possível ação intencional, a professora aposentada de 75 anos decide procurar as famílias das vítimas. A busca por respostas se transforma em uma trajetória de culpa, luto e tentativa de reparação.





