Alberto Martins Cesário, professor e escritor
No fim do dia, quando o pó de giz já assentou como uma neve discreta sobre os ombros e a lousa guarda restos de palavras pela metade, eu me sento, às vezes de verdade, às vezes só por dentro e os pensamentos começam a borbulhar na mente, fico imaginando que alfabetizar nunca foi só ensinar alguém a juntar letras. Alfabetizar, meu caro leitor, é aprender a lidar com sentimentos em estado bruto, ainda sem nome, ainda sem pontuação.
Entre o giz e o emocional, há um território que não aparece nos planejamentos semanais nem nas formações. Um território onde a criança que escreve “caza” com z está, na verdade, tentando organizar uma casa que desmorona antes mesmo de virar palavra, e a gente ali, com a melhor das intenções e um método atualizado, tentando explicar a diferença entre o som e a letra, enquanto a vida dela insiste em não rimar com nada.
Outro dia, uma criança, terceiro ano do fundamental I chorou porque não conseguia ler uma frase simples, e não era birra, como gostam de concluir apressadamente os especialistas de corredor, era cansaço. Um cansaço de gente grande num corpo de 8 anos. Descobri depois que ele dorme com o celular ligado, não por gosto, mas porque é o único jeito de abafar as brigas que atravessam a madrugada e, me responda, como é que se ensina consciência fonológica para quem passa a noite tentando sobreviver ao próprio lar?
A teoria, elegante como sempre, fala em hipóteses de escrita, em níveis, em sondagens, eu não discordo, veja bem, eu não sou desses que rasgam livros, mas há dias em que a prática entra na sala sem pedir licença e derruba todas as hipóteses com um único gesto, em um olhar vazio de quem não teve com quem conversar na noite anterior.
Tem também aqueles que sabem deslizar o dedo pela tela com uma precisão quase cirúrgica, mas se perde ao segurar o lápis, reconhece ícones antes de reconhecer letras e navega por vídeos com uma autonomia impressionante, mas tropeça na palavra “bola” como se fosse um obstáculo intransponível. Não é culpa deles, e nem é exatamente culpa de alguém, é apenas o mundo que mudou de ritmo, e a escola segue tentando dançar uma música que já não toca do mesmo jeito.
Enquanto isso, as famílias fazem o que podem e o que não podem também. Chegam cansadas, ausentes não por escolha, mas por excesso de sobrevivência, nós, professores, viramos uma espécie de ponte improvisada entre o que falta em casa e o que se espera na escola. Uma ponte que, convenhamos, vive rangendo.
E aí vêm os números, sempre eles. Percentuais, metas, gráficos coloridos que prometem traduzir em eficiência aquilo que é, essencialmente, humano, uma urgência quase industrial em alfabetizar, como se cada criança fosse uma peça numa linha de montagem pedagógica. “Até o final do ano, todos devem…” a frase para no meio, porque a realidade não se completa.
No meio disso tudo, a burocracia cresce como mato em terreno abandonado. Relatórios, registros, evidências, planilhas que pedem comprovação do que, muitas vezes, só acontece no silêncio de um olhar que finalmente entende e a gente preenche campos enquanto tenta não esvaziar o próprio sentido de estar ali.
Porque cansa, sabe? Um cansaço que não aparece no corpo imediatamente, ele começa simbólico, como uma rachadura fina, e quando a gente percebe já atravessou tudo. Tem dias em que ensinar a diferença entre B e D parece menos desafiador do que sustentar a própria crença de que aquilo ainda faz sentido.
Mas aí e sempre tem um “aí” ou uma criança que lê a primeira palavra sozinha. Não é um espetáculo, não tem aplauso, não tem trilha sonora. É quase imperceptível, tímido, um sussurro. Mas naquele instante, entre o giz e o emocional, alguma coisa se reorganiza, sei que não resolve o caos, muito menos apaga as desigualdades e não cura o cansaço, mas acende uma luz pequena, insistente.
E talvez seja disso que a gente vive, dessas pequenas insurgências contra o desânimo, continuar costurando sentidos onde tudo parece rasgar, acreditar, com uma teimosia quase ingênua, que cada palavra conquistada é também uma forma de existir no mundo com um pouco mais de dignidade.
No fim, alfabetizar é isso… ensinar a ler além do que está escrito, ajudar alguém a decifrar o que sente, mesmo quando o vocabulário ainda não dá conta. É segurar a mão de quem escreve “errado” e, ainda assim, está tentando dizer alguma coisa importante sobre si.
E eu sigo aqui, entre o giz e o emocional, tentando não endurecer demais nem desmanchar de vez.
Mas me diga, enquanto você termina essa leitura comigo, quem tem ensinado os professores a lerem a si mesmos, no meio de tanto sentimento que nunca cabe no quadro?





