SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

COERÊNCIA OU TEIMOSIA?

Existe uma linha muito fina separando a coerência da teimosia. De longe, elas podem até parecer iguais: as duas resistem à pressão, as duas não mudam facilmente. Mas existe uma diferença fundamental: a coerência caminha de mãos dadas com a verdade; a teimosia, com o orgulho.

O coerente muda de ideia quando encontra uma razão melhor. O teimoso muda de assunto. E aí está a diferença: um amadurece, o outro apenas envelhece.

Há pessoas que chamam de “personalidade forte” a incapacidade de admitir um erro. Preferem perder amizades, oportunidades e até a paz, só para não pronunciar duas das palavras mais difíceis do dicionário humano: “eu estava errado”.

Curiosamente, há quem troque de roupa três vezes antes de sair de casa, mude a cor do cabelo, o carro e até de endereço, mas carregue a mesma opinião equivocada durante a vida inteira.

A coerência não é nunca mudar. É ter coragem de mudar quando a verdade pede.

Porque reconhecer um erro não diminui ninguém. Ao contrário, revela maturidade.

Afinal, permanecer errado só para parecer firme não é força. É apenas orgulho usando gravata.

“Quem ama a correção ama a ciência.” — Provérbios 12,1

PROFESSORES OU EDUCADORES?

Muitos chamam os professores de educadores, mas ensinar e educar não são exatamente a mesma coisa.

A escola tem a missão de ensinar. A família tem a responsabilidade primeira de educar. Ensinar é transmitir conhecimento. Educar é transmitir vida.

Para ensinar, é preciso saber. Para educar, é preciso ser. Um professor pode explicar a importância da honestidade; o educador precisa ser honesto. Um diploma pode formar um professor, mas é o exemplo que verdadeiramente forma um educador.

E antes que alguém diga que estou diminuindo os professores, longe disso. Todo professor também educa. Mas não podemos terceirizar para a escola aquilo que deve começar dentro de casa.

Quando os pais transferem integralmente essa responsabilidade, podemos formar uma geração instruída, mas órfã de referências: crianças que resolvem equações, mas não sabem resolver conflitos; dominam a tecnologia, mas não dominam a si mesmas.

Ensinar até pode ser mais fácil: exige conhecimento. Já educar exige coerência.

Porque os filhos podem não fazer aquilo que os pais dizem, mas dificilmente deixam de aprender e fazer aquilo que os pais fazem.

“Educa a criança no caminho em que deve andar.” — Provérbios 22,6

CORREÇÃO OU DIAGNÓSTICO?

Você já percebeu que parece que paramos de corrigir e começamos a diagnosticar?

A criança desobedece: “Deve ser algum transtorno.” Não suporta ouvir um “não”: “Deve ser alguma síndrome.” Faz birra, desafia limites e, antes mesmo de ensinar responsabilidade, já aparece alguém procurando um laudo.

É claro que existem diagnósticos verdadeiros, importantes e indispensáveis. Existem crianças que precisam de avaliação, tratamento e acompanhamento. O problema começa quando transformamos todo comportamento difícil em doença e toda falta de limite em diagnóstico.

Parece que alguns responsáveis desaprenderam uma palavra essencial: correção.

E corrigir não é humilhar. Não é gritar. Não é ferir. Corrigir é amar o suficiente para não permitir que uma criança cresça acreditando que o mundo precisa se adaptar a todos os seus desejos.

Diagnosticar exige conhecimento. Corrigir exige presença, paciência e coragem.

Talvez o nosso primeiro desafio não seja descobrir qual será o próximo diagnóstico, mas diagnosticar muita falta de coragem para educar.

Uma criança que nunca aprende limites pode se tornar um adulto escravo dos próprios impulsos.

“Aquele que poupa a vara não ama seu filho.” — Provérbios 13,24

IRIA SOBRAR MUITO DINHEIRO

Se todo mundo ganhasse exatamente aquilo que merece, sobraria muito dinheiro no mundo…

Existem pessoas que recebem muito mais do que merecem, enquanto outras recebem muito menos. Corrupção, privilégios e injustiças sociais tornam essa conta profundamente desigual. E nós nos indignamos, e com razão.

Mas existe uma pergunta ainda mais desconcertante: diante de Deus, será que recebemos apenas aquilo que merecemos?

Claro que não.

Deus não trabalha apenas com a matemática do mérito. Ele trabalha com a lógica da graça. Há coisas que recebemos sem jamais conseguirmos pagar: a vida, o amor, uma nova oportunidade, o perdão, a amizade, a família, a possibilidade de recomeçar.

O maior patrimônio que possuímos não foi conquistado. Foi recebido.

Quem acredita que conquistou tudo sozinho corre o risco de se tornar arrogante. Quem reconhece que recebeu muito além do que poderia exigir aprende a ser grato.

Talvez seja por isso que a graça incomode tanto: porque ela nos lembra que nem tudo é salário. Algumas das melhores coisas da vida são presentes.

No fim das contas, se Deus fosse nos dar apenas o que merecemos, nenhum de nós poderia reclamar da conta.

“Deus não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas.” — Salmo 102,10

SE BEBER, NÃO DIRIJA

Muita gente me pede para falar um pouco mais sobre esses anos trabalhando com prevenção e recuperação de dependentes químicos e usuários abusivos de álcool. Há muito a dizer. Mas, em um congresso onde debatíamos esse assunto, levantei uma questão que provocou certa polêmica.

Sabe aquele aviso no final da propaganda de bebida: “Se beber, não dirija”? Parece uma orientação responsável. E é importante não dirigir alcoolizado. Mas pense comigo: o menor não dirige. Então, na cabeça dele, a mensagem pode acabar soando diferente: “Se eu não dirijo, então posso beber”.

Percebe o perigo?

Uma frase criada para alertar pode, dependendo de quem a recebe, ser interpretada como uma espécie de autorização.

É preciso lembrar que a publicidade tem compromisso com o produto que vende. E marketing não tem coração: tem estratégia.

Não estou dizendo que todo anúncio tenha essa intenção. Estou dizendo que precisamos ensinar nossos filhos a interpretar também aquilo que parece inocente.

O mal nem sempre chega com aparência de mal. Às vezes, chega vestido de conselho, oportunidade ou diversão.

“Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós disfarçados de ovelhas.” — Mateus 7,15

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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