SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

O ALZHEIMER LEVA A MEMÓRIA, MAS NÃO O LEGADO

Durante mais de dez anos acompanhei a lenta caminhada do Alzheimer na vida da minha mãe. Vi quem me ensinou a andar esquecer como se anda. Assisti aquela voz, que tantas vezes me corrigiu e acolheu, quase desaparecer. E uma das letras mais bonitas que já conheci, a dela, já não conseguir escrever o próprio nome.

Existe uma frase conhecida: “Ela esqueceu quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é.” Eu só acrescentaria uma parte: ela esqueceu quem eu sou; eu sei quem ela sempre será, mas, acima de tudo, sei quem eu devo ser.

Foi ela quem me ensinou que honestidade vale mais que qualquer vantagem. Nunca admitiria guardar um troco recebido a mais, ignorar alguém que precisa de ajuda ou trocar a Missa de domingo por qualquer compromisso.

O Alzheimer levou a memória, mas não conseguiu apagar aquilo que ela escreveu em mim. Há lições que deixam de existir na lembrança, mas continuam vivas no caráter.

Porque a maior herança de uma mãe nunca foi aquilo que ela deixou para o filho, mas aquilo que deixou dentro dele.

“Instrui o menino no caminho que deve seguir; e, mesmo na velhice, não se desviará dele.” (Pr 22,6)

FORME-SE, INFORME, MAS TAMBÉM SE DESENFORME

A vida pede três atitudes.

A primeira é formar-se. Quem para de aprender envelhece antes do tempo. Aprender é manter viva a curiosidade e ter humildade suficiente para admitir que ninguém sabe tudo.

A segunda é informar. Conhecimento guardado beneficia apenas quem o possui. Jesus disse que ninguém acende uma lâmpada para escondê-la. Quem aprende também tem a missão de iluminar outros.

Mas existe uma terceira atitude, talvez a mais difícil: desenformar-se.

É sair da forma onde nos acomodamos. É abandonar ideias envelhecidas, medos cultivados e certezas que já não produzem vida. Nem toda tradição merece permanecer; algumas apenas impedem o crescimento.

Desenformar-se não é perder a identidade. É permitir que Deus refaça aquilo que o orgulho endureceu. É voltar a ser barro nas mãos do Oleiro para renascer como vaso novo.

Aprender é importante. Ensinar também. Mas, muitas vezes, o maior milagre acontece quando temos coragem de desaprender aquilo que já não combina com a pessoa que Deus sonhou que fôssemos.

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente.” (Rm 12,2)

O TEMPO AMPUTOU, MAS A ALMA AINDA SENTE

Quando eu era criança, um vizinho precisou amputar uma perna. Certo dia ele contou que ainda sentia dores justamente onde a perna já não existia. A medicina chama isso de dor fantasma.

Achei estranho naquela época. Hoje percebo que fazemos exatamente a mesma coisa com a vida.

O tempo já amputou aquele relacionamento. Levou aquela amizade, aquele emprego, aquele sonho. Mas continuamos sofrendo por algo que já foi embora.

Conheço pessoas que perderam parte da mão e continuam tocando piano. E conheço outras que perderam apenas uma discussão e nunca mais conseguiram tocar a própria vida.

Talvez a dor não esteja naquilo que foi perdido, mas na resistência em aceitar que acabou.

A dor fantasma daquele homem roubava até o equilíbrio da perna que permaneceu. E talvez as lembranças que você insiste em alimentar estejam roubando o equilíbrio da vida que Deus ainda quer construir.

Há perdas que o tempo resolve. O coração é que demora para assinar a sentença.

“Eis que faço novas todas as coisas.” (Ap 21,5)

O MAR SÓ É GRANDE PORQUE ESTÁ ABAIXO

Existe uma grande lição escondida na natureza.

O mar recebe a água de todos os rios porque está abaixo deles. Sua grandeza não está na altura, mas na humildade.

O orgulho sempre procura o lugar mais alto. A humildade prefere o lugar onde pode servir.

Foi exatamente isso que Jesus fez. Colocou uma toalha na cintura, ajoelhou-se diante dos discípulos e lhes lavou os pés. Naquele instante, destruiu a ideia de que servir diminui alguém. Na verdade, servir é o que engrandece.

Há pessoas que vivem vazias porque passaram a vida tentando subir. Esqueceram que a graça de Deus corre como a água: ela sempre procura os lugares mais baixos.

Quem aprende a descer por amor descobre um paradoxo maravilhoso: quanto mais se abaixa diante dos homens, mais Deus o levanta diante da vida.

O mar nunca reclamou de estar por baixo. Talvez seja exatamente por isso que ninguém consegue medir toda a sua grandeza.

“Quem se humilhar será exaltado.” (Lc 14,11)

NÃO É PORQUE SOMOS DIFERENTES QUE NÃO SOMOS IGUAIS

Olhe para um piano. Ele precisa das teclas brancas e das pretas, das notas graves e das agudas. Se todos fossem iguais, não existiria música.

Com a humanidade acontece o mesmo.

Somos diferentes na aparência, na história, nos talentos e nas opiniões. Mas todos carregamos a mesma necessidade: sermos amados, respeitados e acolhidos.

O preconceito nasce quando alguém passa a acreditar que a embalagem vale mais que o conteúdo.

Ninguém é maior porque possui mais. Ninguém é menor porque possui menos. A verdadeira grandeza pertence àquele que faz o outro sentir que também tem valor.

No fim da vida, Deus não perguntará a cor da nossa pele, o saldo da nossa conta ou o cargo que ocupávamos. Perguntará apenas quanto amor fomos capazes de oferecer.

Porque não é a diferença que destrói a igualdade. Pelo contrário. São justamente as diferenças que tornam a criação tão extraordinária.

Afinal, fomos criados pelo mesmo Deus, amados pelo mesmo Pai e salvos pelo mesmo Cristo.

“Deus não faz acepção de pessoas.” (At 10,34)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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