Alberto Martins Cesário, professor e escritor
@alberto.prof
Toda escola tem um relógio que marca as horas e cumpre sua função com uma disciplina invejável.
As crianças, não, ainda bem. Porque relógios medem o tempo e crianças medem o mundo.
Naquela manhã, como em tantas outras, o portão foi engolindo mochilas coloridas, tênis desamarrados, cabelos despenteados e conversas que começavam antes mesmo da chamada. Há uma algazarra bonita nas entradas das escolas. Quem observa de longe vê apenas barulho, quem trabalha ali aprende que aquilo é uma espécie de termômetro da vida.
A escola desperta antes da primeira aula, quando a primeira criança atravessa o portão.
Foi então que eu o vi, entrou devagar, não havia nada de extraordinário nele, justamente por isso chamou atenção. Crianças costumam anunciar suas presenças como passarinhos… Elas correm, falam, tropeçam, riem, inventam disputas cuja importância desaparece cinco minutos depois.
Ele entrou em silêncio e, há silêncios que fazem mais barulho do que qualquer recreio.
Sentou-se perto da janela, nem abriu o caderno, só ficou olhando para o pátio como quem esperava alguém que não viria.
Os professores envelhecem aprendendo uma ciência curiosa de perceber pequenas alterações no clima humano. Uma letra que muda, um sorriso que desaparece, um aluno falante que passa a conversar apenas com a ponta do lápis.
Ninguém ensina isso na faculdade, talvez porque algumas matérias só possam ser aprendidas convivendo.
Continuei a aula, ou, pelo menos, fiz de conta.
Expliquei um conteúdo que já não lembro qual era, por isso que afirmo que memória guarda o que importa, e naquele momento não era o que estava escrito no plano de aula.
Aproximei-me da carteira e perguntei baixo:
— Está tudo bem?
Existe uma idade em que as crianças ainda acreditam que os adultos conseguem consertar o mundo, depois elas descobrem que os adultos mal conseguem consertar a própria segunda-feira.
Mesmo assim, continuam esperando que alguém pergunte, e ele respondeu quase cochichando:
— Minha mãe chorou a noite inteira.
Só isso, nenhuma vírgula a mais. As crianças têm o estranho talento de resumir tragédias em poucas palavras.
Nós, adultos, gastamos páginas tentando explicar dores que elas resolvem em uma única frase.
Voltei para a lousa, mas, alguma coisa já não estava onde deveria.
Nem na sala, nem em mim.
Há quem imagine que o aluno chega à escola para aprender e talvez seja verdade, mas, antes disso ele chega para existir. Chega inteiro, com o estômago vazio, com o coração apertado, com a alegria de quem ganhou um cachorro, com o medo de quem ouviu uma discussão atravessar a madrugada.
Com saudades, raiva, vergonha, esperança ou sem nenhuma.
A mochila pesa dois quilos, a vida, às vezes, pesa cinquenta.
Os documentos oficiais falam em habilidades socioemocionais, bonita expressão que faz parecer até que as emoções obedecem ao horário da aula.
Às oito, resiliência, nove horas, empatia, às nove e trinta, intervalo para o recreio.
A realidade prefere outro cronograma, chega antes, senta na carteira e levanta a mão sem pedir licença interrompendo qualquer planejamento.
Nenhum currículo prevê o conteúdo “como continuar copiando a matéria quando seu pai foi preso ontem”.
Não existe descritor para medir o desempenho de quem passou a madrugada ouvindo a chuva entrar pelo telhado.
As avaliações conseguem descobrir quem ainda confunde o “m” com o “n”, mas continuam incapazes de medir quem saiu de casa sem um abraço. Talvez porque existam aprendizagens que nunca aceitaram morar nas planilhas.
Depois de muitos anos dando aula, comecei a desconfiar que a escola ensina muito menos pelas respostas que oferece do que pelas perguntas que faz.
“Você trouxe o caderno?”
Essa pergunta quase todo professor faz.
“Você está bem?”
Essa, infelizmente, nem sempre encontra espaço entre a chamada, o conteúdo e o relógio.
E, no entanto, às vezes é justamente ela, a segunda pergunta que abre a porta para a aprendizagem, ensinando muito mais do que a primeira.
A escola pública tem fama de lugar onde falta quase tudo, falta tinta na impressora, funcionário, orçamento…
É verdade, mas existe uma falta muito mais perigosa, a falta de quem olhe para a criança antes de olhar para o desempenho dela.
Antes do aluno existe uma pessoa e antes da nota existe uma história. O que antecede um comportamento as vezes é uma madrugada que ninguém viu, talvez por isso os professores carreguem um cansaço que não aparece nas fotografias de formatura.
Porque não é apenas o peso de ensinar é o peso de testemunhar todos os dias alguém entra pela porta tentando esconder um terremoto atrás do uniforme.
E, por algum motivo que nem a ciência explica, basta uma criança sofrer para a sala inteira mudar de temperatura.
Porque dor também faz chamada, e aos poucos fui entendendo que uma sala de aula nunca se pareceu com uma fábrica de conhecimento. Ela se parece muito mais com uma varanda em dia de chuva, onde, pessoas chegam procurando abrigo, algumas ficam o suficiente para respirar, outras permanecem anos.
Mas todas levam alguma coisa e deixam outra. Ensinar é exatamente isso, oferecer um lugar onde alguém consiga reorganizar as perguntas.
No fim daquela manhã, o conteúdo previsto ficou pela metade, a vida, não.
Ela transbordou.
Anos depois já esqueci qual era a página do livro, quais exercícios ficaram sem correção e até o objetivo registrado no planejamento.
Mas ainda me lembro daquele menino olhando pela janela.
A memória tem seus critérios, ela raramente guarda o capítulo, prefere guardar o rosto.
E desde então nunca mais consegui acreditar que a escola começa quando o professor fecha a porta da sala, ela começa muito antes, no instante em que uma criança acorda sem saber se o mundo lá fora será gentil com ela.
E talvez a pergunta que ainda devêssemos fazer não seja por que alguns alunos não conseguem aprender, devemos perguntar algo muito mais silencioso, muito mais difícil…
Será que, antes de exigir que uma criança carregue o peso do conhecimento, nós tivemos a delicadeza de perguntar quanto da vida ela já estava carregando sozinha?





