SOBRIEDADE JÁ

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Carlinhos Marques - Presidente Fundador do INSTITUTO NOVO SINAI - Foto: Reprodução

O VELÓRIO QUE NUNCA TERMINA

Depois de mais de duas décadas ouvindo familiares e dependentes químicos, eu achava que já tinha escutado de tudo. Mas, esses dias, uma mãe me desarmaram.

Ela disse assim: “Ter um filho usuário de drogas é como velar um filho, e nunca poder enterrá-lo.”

Todo mundo já passou por um velório. É um dos momentos mais dolorosos da vida: lágrimas, silêncio, inconformismo. Mas, por mais cruel que seja, ele termina. E a vida, mesmo ferida, segue tentando caminhar.

Agora imagine um velório que nunca acaba. É acordar e dormir com a ausência de quem ainda está presente. É conviver com a morte de quem continua respirando. É ver, todos os dias, o desespero vencendo a esperança.

O que essa mãe descreveu não foi só uma frase forte. Foi o retrato de uma dor silenciosa de quem assiste, impotente, alguém que ama se desfazendo diante dos próprios olhos. É um luto sem fim. É, de fato, um velório que nunca termina.

“O Senhor está perto dos corações feridos e salva os espíritos abatidos.” (Salmo 33,19)

PAI É MISSÃO, AMIGO É OPÇÃO

Tem muito pai dizendo, até com certo ar de orgulho: “Sou o melhor amigo do meu filho.”

Olha, amigos a vida vai trazendo. Pai, é só um.

Na infância, vêm os amigos da escola. Depois, os do colégio, da faculdade, do trabalho. A vida muda, os ciclos mudam, e muitos amigos também mudam. Alguns ficam, outros seguem.

Mas pai não é passageiro. Pai é raiz.

Quando um pai troca autoridade por aprovação, ele pode até ganhar aplausos momentâneos, mas perde a oportunidade de formar caráter.

Porque o amigo, normalmente, concorda. Caminha ao lado. Já o pai precisa, ir à frente, abrindo caminho, dando direção, sustentando limites, sendo exemplo. E isso nem sempre agrada.

Pai é quem tem coragem de dizer “não”, mesmo correndo o risco de não ser compreendido no momento, porque entende que amor não é agradar, é formar.

Com o tempo, pode até virar amigo. Mas só depois de cumprir sua missão.

Porque amigos o seu filho terá muitos. Mas pai, é função exclusiva.

“Instrui o menino no caminho que deve seguir, e mesmo quando envelhecer não se desviará dele.” (Provérbios 22,6)

OU VOCÊ PERDE O MEDO, OU PERDE A OPORTUNIDADE

A oportunidade não costuma ter muita paciência não. Se você não abraça, ela passa. E, às vezes, passa uma única vez.

Por medo da dor de um possível fracasso, muita gente acaba escolhendo uma dor ainda maior: o arrependimento.

Porque o fracasso, pelo menos, ensina. Mas o arrependimento, ah, esse não perde o endereço. Ele aparece de madrugada, repetindo sussurrando: “E se você tivesse tentado?”

Não estou falando de agir por impulso. Estou falando de fé. De dar passos mesmo sem ter todas as respostas. De confiar que, se não sair como você imaginou, ainda assim haverá crescimento.

Entenda: portas não se abrem sozinhas. Alguém precisa girar a chave.

Talvez exista aí dentro um sonho esperando coragem. Um “sim” que você insiste em adiar, enquanto o medo te oferece desculpas bem convincentes.

O medo nunca vai desaparecer totalmente. E quando ele traz prudência, ele é até útil, mas quando paralisa, vira prisão.

E a conta é simples, quase matemática da vida: ou você perde o medo, ou você perde a chance.

“Sede fortes e corajosos, não temais e não vos amedronteis, porque o Senhor, vosso Deus, está convosco.” (Josué 1,9)

VIDA EM MODO AVIÃO, VOO CANCELADO

Existe uma frase que diz: avião no chão não cai.

E é verdade. Parado, ele não corre riscos. Mas também não cumpre sua missão.

Aviões não foram feitos para ficar estacionados. Foram feitos para voar. Para enfrentar turbulências, atravessar nuvens, vencer distâncias.

Agora deixa eu te perguntar, e você?

Se você não se move, não tenta, não se expõe, não busca o novo, seus riscos até diminuem. Mas sua vida também.

Porque viver sem riscos pode parecer seguro, até começar a parecer vazio.

Nós também fomos feitos para voar. Para crescer, para avançar, para sair do lugar comum. Sim, há riscos. Sim, há possibilidade de queda. Mas há também algo que só quem decola experimenta: propósito.

Ficar no chão pode até evitar acidentes, mas garante frustração.

Então talvez o problema não seja o medo de cair, mas a decisão de nunca ter voado.

“Tudo posso naquele que me fortalece.” (Filipenses 4,13)

A CULTURA SECULARIZADA, E A ÉTICA CRISTÃ

Desde sempre, o cristão vive em tensão. Entre aquilo que crê, e aquilo que o mundo tenta convencer.

Os desafios não são só internos, dúvidas, fraquezas, quedas, mas também externos. E hoje, talvez mais do que nunca, a cultura tem pressionado a fé.

A chamada cultura secularizada não apenas ignora valores cristãos, muitas vezes entra em confronto direto com eles.

E não se engane: viver a fé, hoje, pode sim gerar desconforto. Às vezes, rejeição. Em alguns casos, até perseguição, ainda que disfarçada de “modernidade”.

O relativismo moral virou moda. Cada um cria sua própria verdade, como se a verdade fosse algo ajustável.

Some a isso o uso desordenado da tecnologia, e temos um cenário que intensifica crises espirituais e distancia o homem de Deus.

Manter uma vida de fé, nesse contexto, exige mais do que discurso. Exige decisão.

A sua caminhada terá altos e baixos, sim. Mas precisa ser constantemente renovada pelo Evangelho, para não se moldar a um mundo que muda de opinião como quem troca de roupa.

A ética cristã não segue tendências. Ela permanece. E talvez seja exatamente isso que mais incomoda.

“Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito.” (Romanos 12,2)

Por: Carlinhos Marques

Presidente Fundador Instituto Novo Sinai, idealizador projeto “Sobriedade Já”

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