Se der conta de tudo, favor avisar

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Alberto Martins Cesário, professor e escritor - Foto: Reprodução

Alberto Martins Cesário, professor e escritor

No fim do dia, a gente aprende a contar o tempo de outro jeito. Não em horas, que já não bastam, mas em tentativas. Hoje foram muitas, nenhuma completa.

Sento com você aqui, imaginando que tomamos um café, pois, parece que não, mas esses cafés pedagógicos salvam mais do que muito curso de formação continuada, e confesso que eu não dei conta de tudo mais uma vez.

Planejei uma aula bonita, daquelas que a gente escreve com capricho no caderno, título sublinhado, objetivos alinhados, esperança nas entrelinhas. Mas a realidade entrou pela porta antes mesmo da chamada. Entrou com o aluno que não dormiu direito, com a aluna que esqueceu o caderno porque esqueceu também que era dia de escola, com o menino que trouxe no olhar um silêncio mais pesado que qualquer mochila.

E eu, que já cheguei com a minha.

A culpa, veja bem, não faz barulho, não chega gritando, ela apenas se instala devagar, como quem pede licença, mas não pretende ir embora. Começa pequena… “Hoje você podia ter feito melhor.” Quando a gente percebe, virou uma voz conhecida, íntima, quase conselheira, dessas que não aconselham, só cobram.

Entre uma atividade e outra, fui apagando incêndios invisíveis, expliquei de novo e de novo. E mais uma vez, com outra estratégia, outro tom, outro desenho no quadro. Sorri quando deu vontade de suspirar, incentivei quando o desânimo já tinha sentado ao meu lado sem pedir convite.

E, ainda assim, saí com a sensação de que faltou.

Faltou tempo, silêncio, estrutura, faltou até o tal do “resultado” que alguém, em algum lugar com ar-condicionado, decidiu que deveria caber dentro de um bimestre. Faltou, principalmente, aquela versão de mim que eu mesmo inventei, quase infalível, sempre criativa, emocionalmente equilibrada, pedagogicamente impecável.

Uma versão que quase nunca aparece.

No lugar dela, sou eu mesmo, cansado, às vezes impaciente, frequentemente improvisando, aprendendo enquanto ensino, errando em voz baixa e acertando sem plateia. Um professor tentando equilibrar pratos que nunca param de girar e que, curiosamente, ninguém ensinou a segurar.

Porque não é só ensinar e nunca foi.

Ensinar é ouvir história que não estava no planejamento, perceber quando o “não sei” esconde um “não consigo”, é ser ponte quando falta estrada, abrigo quando o mundo lá fora venta forte demais. Ensinar é preencher lacunas que não cabem no currículo, mas transbordam na sala.

E, no meio disso tudo, ainda responder por índices, metas, relatórios, gráficos que não conhecem o nome de nenhum dos meus alunos.

A ironia é quase elegante, cobram resultados imediatos de processos que são, por natureza, lentos. Querem colheita onde ainda estamos preparando o solo. Medem com régua o que só cresce com tempo.

E a gente, disciplinado na arte de se cobrar, o acreditar.

Acreditar que devia ter feito mais, que dava pra ter alcançado aquele aluno hoje, que aquela atividade podia ter sido melhor ou que aquele momento de impaciência talvez tenha sido um erro irreparável. Acreditar, sobretudo, que não é suficiente.

E vai juntando essa crença como quem coloca mais um livro na mochila, até ela pesar mais do que o próprio corpo aguenta carregar.

Mas tem uma coisa curiosa, quase teimosa, que insiste em acontecer.

Mesmo cansado, eu volto amanhã, sempre volto…

Volto com outro plano, outra tentativa, outro jeito de explicar o que ontem não fez sentido.  Faço isso porque, no meio do caos, ainda acredito na beleza imperfeita desse ofício e, apesar de tudo, alguém aprende. Às vezes devagar em silêncio e quando a gente nem percebe.

Volto porque ensinar nunca foi sobre dar conta de tudo, talvez seja, apenas, sobre não desistir de quase nada.

E enquanto esfrio o resto desse café que já não consola, mas acompanha, fico pensando em que momento foi que ensinar passou a exigir de nós mais do que cabe em um humano, e por que seguimos nos culpando por não caber?