A medicação deixou de ser distribuída nos postos de saúde, causando transtornos aos pacientes. Procurada, a Prefeitura de Votuporanga não se manifestou sobre o assunto.
Jorge Honorio
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A falta permanente do medicamento Diosmina, um flavonóide, geralmente receitado para o tratamento de insuficiência venosa crônica periférica e doença hemorroidária, dentre outras, tem causado transtornos a pacientes da rede pública de Votuporanga. O problema já é antigo e se arrasta há pelo menos um ano e meio no município e segue sem previsão para o fim.
O imbróglio começou devagar, com a falta da medicação sendo sentida pelos pacientes nas farmácias de distribuição dos bairros, afetando pacientes, em sua grande maioria, idosos e vulneráveis.
O problema foi ganhando corpo, obrigando pacientes a remarcarem consultas para tentar uma medicação similar no sistema público ou comprar o medicamento de custo médio nas redes de farmácias da cidade, colocando mais pressão no orçamento doméstico.
As reclamações evoluíram e chegaram aos vereadores, estourando na Câmara Municipal. Na última segunda-feira (27), durante a 4ª sessão ordinária, os parlamentares aprovaram um projeto de lei de autoria do vereador Marcão Braz (PP), que institui a Campanha Municipal de Conscientização Sobre a Insuficiência Venosa Crônica, Varizes e Hemorróidas e dá outras providências.
Na prática, a iniciativa aprovada na Casa de Leis versa justamente sobre doenças que possuem a Diosmina como uma das principais medicações indicadas pelos médicos.
A falta da medicação rendeu um desabafo do vereador autor da propositura na, o que abriu as portas para uma enxurrada de críticas, cobranças e questionamentos sobre o mesmo assunto.
Por sua vez, Sargento Moreno (PL), apontou que moradores de Votuporanga têm ido buscar a medicação em municípios vizinhos: “Eu quero parabenizá-lo por esse projeto, um projeto que vem de encontro com a realidade que estamos vivenciando da nossa população. Nós temos, como o senhor disse, o vereador Osmair Ferrari falou, se nós fizermos o levantamento aqui, temos 15 vereadores que têm esse mesmo pedido, problemas com esse medicamento. É do conhecimento de todos e eu já fiz uma solicitação, já fiz requerimento, veio explicação de que não existem comprovações do resultado dele, desse medicamento, mas é o que o Osmair acabou de dizer, por que que os médicos prescrevem? Então vamos um pouquinho mais além, por que que em Valentim tem? Por que que em Cosmorama, Parisi, Fernandópolis, São José do Rio Preto tem? O que é que acontece que em Votuporanga tem essa conclusão? Existe realmente uma situação muito desagradável para todos nós vereadores, porque nós encontramos esses tipos de comparação pela população e nós ficamos travados nas nossas respostas.”
“Eu encontrei recentemente representante da política de Valentim Gentil, onde me disse que os moradores de Votuporanga estão buscando Diosmina no posto de saúde em Valentim Gentil. Mas que absurdo é esse? Então tem realmente uma situação bastante desagradável com esse assunto. O senhor fez aí um apelo para a secretária e eu corroboro com esse seu apelo, porque ela precisa realmente dar uma resposta, porque isso não está certo. Está muito desagradável para todos nós”, concluiu Sargento Moreno.
Os parlamentares seguiram discutindo sobre a falta da medicação na rede pública de Votuporanga, e levantaram que uma das razões, possivelmente apontadas pela pasta da Saúde, como preponderante para não comprar o remédio, seria a falta de comprovação sobre a eficácia.
Cabo Renato Abdala (PRD), também discorreu sobre o assunto: “Quando começou a faltar esse medicamento, eu fiz um requerimento, parte da resposta é aquilo que o Sargento Moreno disse, sobre comprovação da eficácia do medicamento, mas nós devemos lembrar que o Conselho Regional de Medicina e o Nacional, ele dá autonomia para o médico receitar aquilo que ele quiser, ainda que o Executivo falar não é para receitar, se o médico que tem conhecimento entende que é aquele medicamento, ele vai receitar aquele medicamento. O Serginho trabalhou em farmácia, sabe do que eu estou falando, então assim, existe hoje o parecer da Secretaria. E isso aí que respondeu para o senhor [se dirigindo a Moreno], respondeu para mim, dizendo que não cumpre eficácia, não tem eficácia comprovada, que tem outros medicamentos que serviriam, enfim, e existe um profissional que estudou, fez faculdade lá e ele entende que sim, que é aquele e não outro, tanto que meu pai é usuário do SUS e é receitado para ele, Diosmina. Meu pai tem cirurgia vascular e tudo mais”, afirmou.
“Eu fui questionar o médico a respeito, ele falou assim, a secretaria manda lá, agora quem define qual medicamento para o paciente é eu, de acordo com as características do paciente, e nem todo paciente o médico vai receitar Diosmina. Então a gente já mata essa charada nesse momento, mas o projeto é importante, o debate é importante, existe hoje um parecer, e o parecer que a secretária respondeu, era mais técnico financeiro, do que técnico saúde. Eu lembro de uma compra, que durava três ou quatro meses, era R$ 1,5 milhão. Olha só o tanto de consumo desse medicamento em Votuporanga”, emendou Cabo Renato Abdala.
Em seguida, Marcão Braz foi aparteado por Wartão (União Brasil), que também se referiu à falta do medicamento: “Vejo a preocupação de todos quando o assunto é a falta da Diosmina. Eu tenho lá meu pai e minha mãe que usam esse medicamento e não encontram mesmo na rede pública. Segundo a nossa secretária disse que não pode, não existe, não tem condições. Mas é conforme o vereador Moreno disse aqui, se você for em Cardoso têm, Valentim tem, Cosmorama tem, todas as cidades da região têm, então por que só aqui em Votuporanga que é diferente e não pode ter esse medicamento na rede?”
As falas se sucederam e o presidente da Casa de Leis, vereador Daniel David (MDB), sugeriu que a secretária Municipal da Saúde, Ivonete Félix do Nascimento, assim como o representante da Associação Paulista de Medicina (APM), sejam convidados a discutir o assunto na Câmara.
Procurada pelo Diário, a Prefeitura de Votuporanga não se manifestou sobre o assunto.
Ainda de acordo com levantamento do Diário, a Diosmina é aprovada pela ANVISA e pelo FDA (“Anvisa” dos EUA).





