Sintoniza nessa sintonia

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Quase quatro décadas depois, Lobão continua diante do microfone que se tornou parte de sua história – Foto: Arquivo Pessoal

No Dia Nacional do Rádio, celebrado em 25 de setembro, o radialista Alexandre Lobão revisita quase quatro décadas diante do microfone e fala sobre as transformações do meio, da era das fitas e dos discos de vinil à inteligência artificial.


@caroline_leidiane

O jeito brasileiro de fazer rádio não cabe inteiramente em uma grade de programação. Ele está na conversa que foge do roteiro, no improviso diante do imprevisto, na notícia que interrompe a música, na destreza dos fatos e na intimidade de uma voz capaz de fazer companhia.

Em um país de dimensões continentais, o rádio aprendeu a falar linguagens plurais, alcançando públicos distintos e transitando entre informação, serviço, música, publicidade e entretenimento. Sobretudo, construiu uma relação de familiaridade com o ouvinte, capaz de atravessar as sucessivas revoluções tecnológicas.

Essa vocação para a proximidade ajudou a moldar a radiofonia brasileira desde seus primeiros anos. A primeira transmissão radiofônica realizada no país ocorreu em 7 de setembro de 1922, durante as comemorações do centenário da Independência, quando foram transmitidos o discurso do presidente Epitácio Pessoa e a ópera “O Guarani”, de Carlos Gomes. No ano seguinte, o médico e antropólogo Edgard Roquette-Pinto fundou a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, atual Rádio MEC, consolidando uma experiência que associava o novo meio à educação e à cultura.

É justamente Roquette-Pinto, nascido em 25 de setembro de 1884, quem dá nome à efeméride. A Lei nº 15.101, sancionada em janeiro de 2025, instituiu oficialmente o 25 de setembro como Dia Nacional do Rádio, em homenagem ao pioneiro da radiodifusão brasileira.

Um século depois das primeiras transmissões, os capítulos da história do rádio alcançam novos contornos à medida que suas vozes percorrem diferentes tecnologias sem perder a dimensão humana da comunicação.

Em Votuporanga, uma dessas locuções é a de Alexandre Lobão, que começou a frequentar um estúdio aos 14 anos, em 1988. Desde então, sua voz transitou por fases distintas do rádio local, da Clube AM à Clube 92 FM e à Rádio Unifev. Ao longo dessa trajetória, também assumiu funções de coordenação e direção de programação e artística.

Entre diferentes frequências, tecnologias e funções, Lobão construiu uma trajetória marcada por locução, jornalismo e paixão pelo rádio – Foto: Arquivo Pessoal

Antes do digital, havia o vinil

A história de Lobão começou antes mesmo de ele conhecer profissionalmente uma emissora.

“Aos 10 ou 12 anos, a paixão já falava mais alto. Eu dormia com o radinho debaixo do travesseiro, ligava para as emissoras pedindo músicas e passava horas brincando com um gravador de fita cassete de mão”, recorda.

A brincadeira tomou rumos profissionais em maio de 1988. Aos 14 anos, depois de insistir com o pai, Lobão foi levado para conversar com Orlando Ribeiro, na Rádio Clube AM, então instalada na Praça dos Expedicionários. Ali encontrou nomes que já faziam parte da história radiofônica local, como Nelson Camargo, Dimas, Dirceu e Danilo.

Orlando lhe deu uma oportunidade. O adolescente permaneceu oito meses como aprendiz e transformou o estúdio em sua primeira escola. Depois, veio a contratação como operador de áudio, seguida pela experiência com a “hora certa”, gravação, programação musical e acervo de discoteca, até chegar à locução e à apresentação.

“Naquela época, o registro profissional (DRT) era conquistado pela experiência e pelo tempo de serviço, já que não tínhamos cursos formais na região”, conta.

A carreira acompanhou a própria evolução tecnológica das emissoras. Quando Lobão chegou à Rádio Clube, a Clube FM havia sido fundada recentemente, em 1987. O ambiente de trabalho era povoado por gravadores de rolo, discos de vinil, cartucheiras e, posteriormente, fitas cassete, CDs e MDs. Não havia computadores, automação digital, smartphones, WhatsApp ou inteligência artificial.

A comunicação com o público acontecia em outro ritmo. Cartas e telefonemas eram os principais canais de interação, e colocar alguém no ar, ao vivo, exigia operação manual em mesas com quadros de chaves.

Lobão permaneceu na Clube até 1996, quando passou à Rádio Unifev, onde ficou até 2008.

“Esse período, entre o início dos anos 1990 e meados de 2000, foi histórico: vivenciei na pele toda a transição tecnológica da comunicação. Acompanhei o nascimento dos primeiros softwares de automação e cheguei a gravar as primeiras músicas convertendo do vinil diretamente para o formato MP3 no computador. Foi uma bagagem técnica e humana gigantesca, fundamental para a minha formação profissional e algo que valorizo profundamente”, menciona.

Em 2008, afastou-se temporariamente dos microfones para trabalhar na indústria de massas da família, em Tanabi. O rádio, porém, não ficou para trás. Cerca de um ano e meio depois, retornou ao grupo, então Sistema Vanguarda de Comunicação, onde permanece desde 2010.

“Somando esse retorno até o presente, já são mais 16 anos ininterruptos de casa. Uma caminhada longa, rica em aprendizados e transformações, mas que mantém intacta a mesma essência do primeiro dia: a paixão por se comunicar com o ouvinte”, expressa.

O presente acontece ao vivo

Se a tecnologia mudou radicalmente o estúdio, uma característica permaneceu: o imprevisível. No rádio, o planejamento convive permanentemente com aquilo que acontece em tempo real.

“O rádio de verdade é improviso puro. Por mais que você planeje cada minuto da programação, o ao vivo sempre impõe seu próprio ritmo e suas surpresas”, afirma Lobão.

Diante do imprevisto, o locutor precisa ser sagaz e encontrar rapidamente uma saída para conduzir a situação. É nesse território entre o planejado e o inesperado que parte da singularidade da profissão se revela.

“As situações inusitadas são inevitáveis. É o ouvinte que entra no ar e prega uma peça ao vivo antes que você consiga reagir; é o sistema elétrico que cai ou o computador da automação que trava no meio do programa, exigindo que você segure a emissora apenas na voz, sem texto algum na frente. Ou ainda, numa entrevista jornalística, quando você formula uma pergunta longa, elaborada, esperando uma resposta detalhada de dois minutos, e o entrevistado responde com um simples ‘sim’ ou ‘não’. Nessas horas, a agilidade mental e a capacidade de adaptação são as únicas ferramentas disponíveis para manter a dinâmica e o programa fluindo”, explica.

Segundo o radialista, a aptidão para reagir rapidamente é parte constitutiva da profissão. “O improviso não é uma falha de planejamento; é a própria essência do meio. O rádio é humanização, é vida acontecendo em tempo real”, ressalta.

Entrevistas estão entre as top 1 situações mais propensas à improvisação. Na Clube, Lobão participa do “Sala de Bate-Papo”, em que recebe personalidades, autoridades e artistas. Para ele, os melhores encontros são aqueles que acontecem sem planejamento rígido.

“Muitas vezes, a magia do rádio está no que não foi planejado. O artista está na cidade para um show, passa em frente à rádio e, de repente, surge a notícia: ‘Fulano está descendo e vai entrar no estúdio!’. Sem pauta pronta, sem roteiro engessado, abrimos o microfone e deixamos o papo fluir de forma orgânica e natural. Ele canta uma música ao vivo no violão, compartilha histórias da estrada e a conversa ganha uma leveza única”, comenta ele.

O rádio ocupa, ainda, espaço particular quando a notícia exige rapidez. Ao longo da carreira, Lobão esteve diante de acontecimentos de repercussão nacional e internacional, entre eles as mortes de integrantes dos Mamonas Assassinas, Marília Mendonça e, mais recentemente, do sertanejo Rick.

Nenhum episódio, contudo, ficou tão marcado quanto o 11 de setembro de 2001. Naquele dia, Lobão estava na Rádio Unifev e cursava Jornalismo. Apresentava um programa ao vivo quando começaram a chegar as informações sobre os ataques ao World Trade Center, em Nova York.

“Estava com a ‘faca nos dentes’ e o desejo pulsante de reportar a notícia com agilidade e precisão”, relembra.

Em instantes, a grade de programação já não era mais a mesma. “O rádio tem o poder único do imediatismo. Em segundos, cortamos a programação musical, derrubamos os comerciais programados e assumimos o microfone para informar a população em tempo real. Foi um verdadeiro turbilhão: enquanto tentávamos acompanhar as informações que chegavam do mundo inteiro via internet e agências de notícias, filtrávamos os fatos e transmitíamos o desenrolar daquela tragédia para os nossos ouvintes”, narra ele.

Diante da proporção dos acontecimentos e da necessidade de acompanhar seu desdobramento enquanto ele ainda ocorria, aquele plantão se tornou um momento decisivo para Lobão.

“A cobertura da queda das Torres Gêmeas foi um divisor de águas na minha carreira. Foi a prova de fogo do jornalismo ao vivo e uma experiência inesquecível de responsabilidade profissional”, pontua.

O episódio descrito ajuda a dimensionar uma característica que acompanha o rádio desde seus primeiros anos: a capacidade de estar no centro dos acontecimentos e se adaptar às mudanças que transformaram a maneira de informar e de se comunicar. Essa habilidade, contudo, precisou ser constantemente reinventada diante de novos meios e tecnologias para evitar que o rádio caísse no esquecimento.

Entretanto, essa transformação não ocorreu isoladamente. O crescimento da televisão, a partir dos anos 1950 e 1960, deslocou parte do protagonismo que o rádio havia alcançado durante sua chamada Era de Ouro, caracterizada por radionovelas, programas de auditório, música, humor, esporte e jornalismo. Formatos, profissionais e elenco que haviam se desenvolvido no rádio migraram para a nova linguagem audiovisual, enquanto o veículo encontrou outros caminhos para permanecer relevante.

Por sua vez, a tecnologia também contribuiu para modernizar o aparelho de rádio. O transistor tornou os receptores menores e portáteis, enquanto a FM proporcionou maior qualidade sonora. Décadas depois, computadores, sistemas de automação, internet e smartphones transformaram a produção, a distribuição e a forma de participação do público.

Apesar das mudanças culturais nos meios de comunicação, a linguagem radiofônica resistiu às transformações tecnológicas e à interatividade digital sem se tornar obsoleta. Ao contrário, reinventou-se com o passar do tempo e passou a dividir espaço com a televisão, depois com a internet e, atualmente, com as redes sociais, as plataformas de áudio e vídeo e os podcasts.

Lobão olha para os próximos anos com entusiasmo e aposta na reinvenção do rádio para seguir formando novas vozes e ocupando novos espaços – Foto: Arquivo Pessoal

Um futuro que ainda fala ao ouvido

De acordo com Lobão, a multiplicação das plataformas não eliminou a essência do rádio. Curiosamente, o movimento foi justamente o oposto.

“Veja o exemplo dos podcasts, que fazem tanto sucesso atualmente: no fundo, a dinâmica nada mais é do que aquela boa e velha conversa coloquial e intimista criada no rádio AM lá atrás”, resgata ele.

A observação evidencia uma peculiaridade do rádio: a capacidade de mudar de suporte sem abandonar sua linguagem central. A voz permanece como elo com o público, seja pelo aparelho convencional, aplicativo, site, podcast ou plataforma de vídeo.

Lobão também enxerga uma espécie de retorno à naturalidade. Depois de um período em que a locução de FM, especialmente nos anos 1980 e 1990, privilegiou ritmo acelerado e performance, ele identifica atualmente uma valorização da fala mais espontânea.

“Hoje percebemos um movimento de retorno às origens: a valorização do tom natural, direto e humano, como se estivéssemos conversando individualmente com cada ouvinte”, acentua.

Essa adaptação perpassa pela formação de novos profissionais. Há 25 anos, Lobão concilia a atividade radiofônica com o trabalho como docente no Senac. Nesse período, conduziu turmas de “Prática de Locução”, “Sonoplastia” e cursos livres de “Oratória”, “Desinibição e Oratória”, “Locução Comercial” e “Locução para Podcasts”.

“Na sala de aula, encontro um público extremamente heterogêneo. Recebo desde jovens adolescentes até pessoas com mais de 70 anos que decidiram ir atrás de um desejo antigo. É fascinante ver de perto essa mistura de idades, origens e histórias de vida unidas pelo mesmo objetivo. Essa troca renova as minhas energias diariamente para dar o meu melhor”, diz.

O futuro, portanto, não aparece para ele como uma ruptura absoluta com o passado. A tecnologia continuará modificando equipamentos, processos e plataformas, mas a voz humana seguirá ocupando espaço central.

“A tecnologia e os softwares avançados estão aí para agilizar nossa produção e enriquecer o conteúdo, mas a humanização do rádio é insubstituível. Assim como a emoção de um músico tocando seu instrumento ao vivo não pode ser replicada por algoritmos, o calor da voz e a sensibilidade de um locutor no ar jamais serão substituídos por máquinas ou inteligências artificiais”, explana.

Para Lobão, a perspectiva é de continuidade. Aos 53 anos, quase quatro décadas depois de entrar pela primeira vez em um estúdio, ele ainda encontra no microfone a mesma curiosidade que o aproximou do rádio na adolescência — agora acompanhada pela experiência de quem atravessou diferentes tecnologias, linguagens e fases do meio.

Entre o rádio sob o travesseiro da infância e as telas que hoje ocupam os estúdios, muita coisa mudou. A tecnologia transformou equipamentos, formatos e formas de ouvir, mas a voz continua encontrando caminhos para chegar ao outro lado. E é nesse espaço entre tradição e reinvenção que Lobão projeta os próximos anos: diante do microfone, na comunicação e na formação de novas gerações.

“Eu amo o rádio. Viva o rádio — e que venham mais cem, duzentos, infinitos anos pela frente!”, encerra, entusiasmado.