Se é pra cair, então caia em si…

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Sobriedade já

 

Carlinhos Marques

 

 

Um grande homem se cair, continuará sendo grande, agora, um homem medíocre, mesmo que se mantenha de pé, continuará sendo medíocre!

Pois é, então o problema não está na queda. A queda é inevitável para quem caminha; não tenha medo de cair, nem perca tempo procurando culpados para a queda.

Tem gente que só falta colocar a culpa na lei da gravidade porque caiu… “Ahhh! Se não tivesse essa tal lei da gravidade eu estaria de pé!”

Agora, tem aqueles que nunca caem; sabe por que? Porque ficam tempo todo parados. Aí cabe bem o exemplo do avião. O avião no solo, paradinho no aeroporto, não corre risco nenhum…, mas avião não foi feito para ficar parado no chão. Muitos de nós não conseguimos voar justamente pelo medo de cair.

Não basta ficar dizendo que cair é humano, que temos que levantar, bater a poeira, dar volta por cima, tem até uma música que fala sobre isso, não é?  Mesmo isso não deixando de ser verdade, não adianta nada ficar aí nesse levanta, cai, cai, levanta, se isso não fazer você mudar o passo, mudar de estrada, se for o caso, mudar de caminho.

A ideia é: se cair, caia em si!

Melhor ainda: provoque essa queda em si. Você já ouviu falar de “desconfiômetro”?

Pois é… eu lembro de uma vez na faculdade que um professor falou para um aluno da nossa sala: “Fulano, você precisa ter mais desconfiômetro!” e aí o aluno perguntou: “Professor, mas o que é desconfiômetro?”  Fica difícil continuar né?

Desconfiômetro, o tal cair em si, é a condição da mudança: reconhecer-se! Parar de terceirizar e começar a assumir a culpa. Cair em si é a queda mais produtiva que alguém pode ter, mas isso demanda algumas virtudes e a principal delas é a humildade.

Mas como a gente fica cego na hora queda, até levanta, até sacode a poeira, mas aí dá uma olhada do lado para ver se não tem ninguém rindo e continua do mesmo jeito, no mesmo rumo, no mesmo passo, não usa a queda para cair em si!

Lembrei agora: por que será que tantas pessoas tem medo de altura? Eu sinceramente sou um deles. Desde moleque eu sempre tive muita dificuldade para brincar de subir em árvores; sempre a altura foi uma coisa que me deu medo. Mas, por que? Por medo de cair. Mas essa “vertigem”, da altura física é até aceitável. Difícil é a “vertigem” do cidadão que se acha o alto, o grande, o suficiente e se agarra nessa sua suposta altura e nunca desce, nunca cai em si.

E essa “vertigem à queda”, é sim a mais grave.

Está atrelada a ideia que muitos tem da sua própria altura, do seu nível, então se seguram nesse patamar, e cair em si fica fora de cogitação.

Eu lembro que há  alguns anos atrás eu estive naquela torre, uma das mais altas do mundo, em Dubai e ficava me perguntando: “Mas por que medo de ficar aqui nesse alto, se tem toda uma estrutura de concreto, de ferro, uma base sólida que me segura?! Mas então, medo do que?

É o medo do vazio!

Como se existisse uma voz lá em baixo chamando e isso assusta. Mesmo com a estrutura, o medo da queda nos deixa assustados; o medo de se machucar, isso, quando na verdade podemos é já estar machucado; a ferida já existe.

O que a gente tem é medo de expor a ferida e isso impede cura.

Cair em si é um autoconhecer-se!

Os religiosos, ou as religiões, costumam até chamar essa queda que estamos falando, de “conversão”.

Você já pensou que conversão é sim um ato de cair em si? É um descobrir-se? E principalmente descobrir Deus como Senhor? É a prepotência que impede que conheçamos mais a Deus!

Paulo, São Paulo, quando a caminho de Damasco caiu do cavalo, caiu também em si. Deixou de ser Saulo, ele virou o grande Paulo.

Penso que todos nós nascemos meio Saulo, sabe… Mas que tal aproveitar as quedas para se tornar um pouco mais “Paulo”?

Eu gosto muito desta outra passagem quando Jesus diz que nós devemos nascer de novo.

Nascer de novo é complicado exige coragem de mudança.

Eu imagino se fosse possível perguntar para você, lá no dia do seu nascimento, se você queria realmente nascer, com certeza iria dizer que não. Por que? Porque lá dentro estava cômodo; tem tudo o que você bebê precisa para estar vivo.

Mas não esqueça que são só por nove meses. Depois disso, ali não é mais o seu lugar.

Talvez esteja faltando agora você fazer um novo parto de si mesmo.

Saia daí. Quem sabe esteja morrendo dentro de um ventre podre, sem coragem de sair pra vida, de sair pra luz!

Penso que a maior missão do ser humano seja exatamente esta: dar à luz a si próprio. Deixar-se tornar aquilo que potencialmente você já é. Use ou provoque quedas para sua mudança.

Somente os extremamente sábios e os extremamente estúpidos não mudam, e olha, eu ainda não conheci ninguém extremamente sábio.

Agora, o contrário…

Não tenha medo de conhecer-se, frequente o seu interior por mais tempo; talvez esteja faltando você “fofocar” mais de você para você mesmo.

Nós somos o que nós fazemos, mas somos especialmente o que fazemos para mudar o que somos!

Temos dois olhos só para olhar a nossa volta, mas quantos olhos você tem para se olhar para dentro? Entenda que esse olhar te é necessário.

Encare a solidão de estar você com você, e aí tenha aí um papo com a sinceridade que nunca teve…

Mudança não é só o que você faz, mas é também o que você permite que seja feito.

E para terminar, só mais uma dica:

Ohhhh… preste bem atenção nas quedas dos outros, porque você não viverá o suficiente para aprender somente com as suas quedas!

 

  • Carlinhos Marques – Presidente Fundador da Comunidade Terapêutica Novo Sinai, que acolhe dependentes químicos desde 2005 de forma voluntária e gratuita, idealizador do projeto “Sobriedade Já”

 

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