Alberto Martins Cesário, professor e escritor
O dia em que eu quase desisti começou numa segunda-feira. E isso já diz muita coisa.
Porque as tragédias emocionais da escola pública raramente acontecem numa segunda-feira dramática, digna de filme francês. Não, elas chegam discretas, de tênis gasto, carregando uma pasta de avaliações para lançar no sistema que misteriosamente sai do ar exatamente quando você consegue cinco minutos de paz.
Era um dia quente, daquele calor que derrete até a paciência do ventilador da sala dos professores, que gira fazendo mais barulho que vento, como certas reuniões pedagógicas.
Cheguei cedo, professor sempre chega cedo, não porque é organizado, mas porque precisa sofrer em parcelas menores.
Na porta da escola, o inspetor me avisou, sua turma já brigou antes da primeira aula.
Achei bonito o comprometimento das crianças com a antecipação pedagógica, sai da sala de convivência segurando o café e dignidade. Derramei os dois antes das sete e meia.
A primeira aula começou com um menino chorando porque perdeu o lápis, cinquenta minutos depois, na segunda aula, outro chutando a cadeira porque o clima em sua casa não era um dos melhores. Chegamos na terceira aula, que nem começou direito, porque metade da turma resolveu descobrir experimentalmente se cola vira massinha de modelar.
E no meio daquele pequeno tumulto em forma de alfabetização, eu precisei explicar a diferença entre “g” e “j” como quem tenta ensinar poesia durante um incêndio.
A faculdade nunca mostrou essa parte, nas aulas de formação docente havia nomes bonitos para tudo, falava-se sobre mediação, aprendizagem significativa, escuta ativa, sequência didática. Mas descobri na prática, que a escuta ativa geralmente acontece enquanto você separa dois alunos se batendo e procura o bilhete amassado de uma criança que esqueceu a tarefa porque dormiu na casa da vizinha enquanto os pais faziam hora extra para conseguir passar o mês.
Tem dias em que alfabetizar parece menos um processo pedagógico e mais uma tentativa desesperada de costurar infâncias rasgadas com linha invisível.
E ninguém avisa que linha invisível corta a mão.
No intervalo, sentei na sala dos professores e ouvi aquele clássico concerto da educação brasileira, uma colega reclamando da pressão por resultados, outra tentando descobrir como lançar notas numa plataforma que exige três senhas, autenticação facial e talvez o DNA da avó materna.
Alguém perguntou:
— Você tá bem?
E eu dei aquela resposta institucionalizada:
— Estou sim.
O professor aprende cedo que “estou sim” é uma espécie de uniforme emocional, porque experimentar tristeza na educação virou quase um ato de indisciplina profissional.
Você precisa ser inspirador, criativo, resiliente, afetivo, inovador, dinâmico. Uma mistura de Paulo Freire com animador de festa infantil, mas ninguém pergunta quem acolhe o professor depois que ele passa o dia inteiro acolhendo o mundo.
Naquele dia, a vontade de desistir veio no momento mais banal possível.
Não foi numa grande tragédia, foi enquanto eu preenchia o décimo segundo formulário da semana.
“Descreva as intervenções realizadas.”
Fiquei olhando aquela pergunta na tela do notebook enquanto ouvia uma criança reclamando de dor de cabeça no corredor e outra sendo levada para casa porque estava com febre.
Descreva as intervenções realizadas, quase ri.
Queria escrever… “hoje eu impedi um menino de acreditar que era burro e consegui fazer uma menina sorrir depois de três dias sem falar uma palavra. Hoje eu percebi que o aluno mais agressivo da sala só queria que alguém desse um pouco de atenção para o que ele queria dizer.”
Mas o sistema não aceita esse tipo de dado, o sistema gosta de porcentagens, gráficos, metas, setas coloridas apontando para o fracasso ou para uma ilusão estatística de sucesso.
A educação moderna descobriu a incrível capacidade de transformar exaustão humana em planilha.
E foi ali, diante daquela tela piscando, que pensei: “Eu não consigo mais.”
Pela primeira vez em muitos anos, imaginei minha vida longe da escola.
Sem prova para corrigir, nada de conselho de classe, sem coordenador dizendo que é preciso melhorar os índices.
Sem ir ao mercado e ouvir, professor trabalha pouco, né?
Eu queria silêncio, só isso.
Um silêncio que não viesse acompanhado de culpa e ali fiquei alguns minutos parado olhando a parede descascada da sala. Engraçado como escolas e professores envelhecem parecido, ambos aprendem a esconder rachaduras para continuar funcionando.
Então aconteceu uma coisa pequena que chega até ser ridícula.
Uma criança apareceu na porta, aquele aluno quieto do fundo da sala.
A que troca letras e quase nunca levanta a mão, o que vive desenhando estrelas no canto do caderno.
Ele me entregou uma folha dobrada, achei que fosse atividade. Estava enganado, era um bilhete escrito do jeito que dava:
“Prufeçor eu gosto quando voçe lê istoria porque parese que o mundo fica menos bravo.”
Fiquei olhando aquilo sem conseguir respirar direito.
O “professor” estava errado. O “você” também.
A frase inteira mancava, mas havia ali uma coisa profundamente certa.
Talvez alfabetizar seja isso, ensinar alguém a escrever mesmo quando a vida inteira da pessoa foi escrita em falta.
Na saída, o céu ameaçava chuva as crianças corriam pelo pátio como se o mundo ainda fosse um lugar confiável e talvez seja justamente isso que nos destrói e nos salva.
A esperança é inconveniente, ela aparece quando o salário chega, quando a garganta inflama, a saúde mental pede socorro e você jura que chegou no limite.
Ela surge pequena, quase idiota, num bilhete torto escrito a lápis e então a gente continua.
Não porque sejamos forte o tempo todo ou amamos romantizar sofrimento, muito menos porque nascemos com vocação heroica.
Mas porque, às vezes, desistir também cansa.
E enquanto fechava o portão naquele fim de tarde, fiquei pensando quantos professores caminham pelas ruas carregando, em silêncio, essa porta entreaberta dentro do peito.
Essa porta que não chega a fechar, mas também nunca deixa de existir.





