Retratos em retalhos

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Artesã há 11 anos, Carla Basso de Lima Bortuluzi conduz a oficina a partir de sua própria relação com o artesanato e com as memórias familiares – Foto: Arquivo Pessoal

Oficina gratuita conduzida pela artesã Carla Basso de Lima Bortuluzi resgata a tradição das colchas de retalhos, ensina princípios do patchwork e transforma tecidos em fios de afeto entre diferentes gerações.


@caroline_leidiane

Existem coisas que o tempo não consegue desfazer. Permanecem dobradas em um armário, guardadas dentro de uma caixa ou repousadas sobre uma cama. Carregam cores, estampas, costuras e marcas de uso. Mas, quando tocadas, devolvem algo que não cabe na matéria: a lembrança de quem as fez, de quem as recebeu e dos momentos compartilhados em torno delas.

É nessa extensão entre o fazer manual e a afetividade que nasce “Colcha de Retalho da Vó”, projeto da artesã Carla Basso de Lima Bortuluzi, realizado no Parque da Cultura, em Votuporanga.

Contemplada pelo Bolsa Cultura 2026, da Prefeitura de Votuporanga, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, a iniciativa propõe o ensino de princípios do patchwork a partir de uma prática carregada de simbolismo dentro de muitas famílias. O método consiste em reunir pequenos pedaços de tecido para transformá-los em uma nova peça.

A escolha não surgiu ao acaso. Antes de ser técnica, a colcha de retalhos pertence ao repertório afetivo da própria Carla. Artesã há 11 anos, ela cresceu vendo a mãe, Maristela, conviver com duas tias que se dedicavam à confecção dessas colchas. Eram dias de trabalho minucioso entre tecidos, tesouras, combinações e desenhos.

“A colcha de retalhos remete à família, ao carinho familiar”, conta Carla.

A lembrança acabou se transformando em ponto de partida para uma proposta que pretende ensinar o manejo das ferramentas e dos tecidos sem retirar da atividade aquilo que lhe confere maior densidade: o encontro entre pessoas e suas histórias.

A oficina ‘Colcha de Retalho da Vó’ propõe um mergulho no universo do patchwork, unindo aprendizado, criatividade e memória. A atividade é gratuita e oferece aos participantes materiais e acompanhamento durante a confecção de uma colcha – Foto: Divulgação

Uma tradição passada de mão em mão

Ao pesquisar técnicas e conversar com outras artesãs para conceber a atividade, Carla percebeu que sua lembrança não era uma experiência isolada. Em diferentes relatos, aparecia a figura da avó como guardiã desse conhecimento milenar. As tramas revelaram um inventário de pertencimentos confeccionado ao longo dos anos.

“Quando surgiu a ideia da oficina, separamos várias técnicas e, nas conversas com outras artesãs, começaram a surgir histórias sobre a presença da colcha de retalhos na vida de cada uma. A maioria trazia a lembrança da avó, que produzia e distribuía as peças, e muitas ainda guardam uma delas como recordação. Uma das artesãs contou que a avó aproveitava roupas usadas, cortava os tecidos e montava as colchas, preenchendo-as com jornal para aquecer os familiares. Depois, também doava as peças para pessoas da cidade onde morava”, narra.

O gesto revela uma característica própria do fazer artesanal: aquilo que perdeu sua função original encontra uma nova existência pelas mãos de quem o recria. Uma roupa deixa de ser roupa, um pedaço de tecido abandona sua condição de sobra e, reunido a outros fragmentos, passa a integrar uma composição inédita.

No patchwork, essa transformação ganha uma dimensão estética. Cores, padronagens, texturas e formas são articuladas em uma mesma superfície, criando uma linguagem visual que depende tanto da técnica quanto das escolhas de quem costura.

A geometria dos retalhos

Na atividade conduzida por Carla, os participantes terão contato com uma das estruturas clássicas para quem está começando no universo do patchwork: o “Nine Patch”, composição formada pela união de nove quadrados de tecido.

A partir dela, serão trabalhados diferentes momentos da construção de uma colcha: a seleção e a combinação dos tecidos, o corte adequado, a montagem dos blocos, a junção das partes e o acabamento.

O percurso foi pensado para iniciantes. Cada participante receberá o material necessário para confeccionar uma colcha forrada e contará com orientação durante todo o processo.

A proposta, portanto, não se restringe à reprodução de um modelo. Existe uma aprendizagem sobre proporção, composição, aproveitamento de tecidos e precisão do recorte; há, ainda, a descoberta de que uma pequena alteração de cor ou posicionamento pode modificar completamente o desenho final.

É uma lógica que aproxima o patchwork de outras linguagens artísticas e, sobretudo, da própria construção de uma trajetória. Cada fragmento carrega uma lembrança, uma trama, uma marca. Unidos, eles deixam de ser apenas pedaços de tecido e passam a compor uma narrativa. Assim, a colcha que protege do frio também irradia calor humano, preservando, nas linhas e nas emendas, o cuidado de quem transformou pequenos retalhos em algo novo.

A oficina ensinará a ‘Nine Patch’, uma composição formada pela união de nove quadrados de tecido. Indicada para quem está começando no patchwork, a técnica permitirá aos participantes experimentar combinações de cores, estampas e formas na construção da própria colcha – Foto: Arquivo Pessoal

Costurar também é narrar

Existe uma particularidade no trabalho artesanal que a produção industrial dificilmente reproduz: o tempo inscrito no objeto.

Cada ponto denuncia a passagem das mãos; a escolha do tecido revela uma preferência, enquanto as combinações estabelecem relações entre cores e padronagens. O resultado, assim, carrega as perspectivas criativas de quem o produziu.

Por isso, a colcha de retalhos transcende a dimensão utilitária e se aproxima do campo da cultura ancestral traduzida em matéria. Ela preserva práticas, repertórios e modos de fazer transmitidos entre gerações, especialmente por mulheres que encontraram no espaço caseiro uma possibilidade de criação, sociabilidade e expressão.

Na proposta de Carla, essa dimensão é intrínseca à atividade.

“A intenção da oficina é, além do conhecimento artesanal, a troca de histórias, boas conversas, novas ideias, aproximar gerações e descobrir novas artesãs”, afirma.

Essa associação entre colcha e histórias já apareceu no cinema. O filme norte-americano “Colcha de Retalhos” (How to Make an American Quilt), lançado em 1995 e dirigido por Jocelyn Moorhouse, acompanha um grupo de mulheres que confecciona uma colcha enquanto compartilha episódios de suas próprias vidas. A peça, nesse caso, funciona como elemento que reúne diferentes experiências e narrativas.

Uma homenagem em cada ponto

Segundo Carla, a oficina “Colcha de Retalho da Vó” é uma homenagem a cada mulher que dedicou tempo, cuidado e afeto à criação dessas peças singulares, transformando tecidos em abrigo, beleza e lembrança. É uma reverência às mãos femininas que, entre cortes, emendas e costuras, fizeram do artesanato uma expressão silenciosa de amor.

Para a artesã, essa homenagem tem um nome-matriz: Maristela, sua mãe, que lhe apresentou o artesanato e ensinou a ela e aos irmãos o valor dos vínculos familiares, das histórias e das memórias. Entre essas referências está a colcha confeccionada pela tia Elza, peça que permanece como um monumento afável dessa herança familiar.

É a partir da possibilidade de materializar o aconchego dos vínculos que Carla conduz a oficina e compartilha um saber que atravessou séculos. Ao reunir outras mulheres em torno dos tecidos, a artesã abre espaço para que histórias sejam compartilhadas, amizades encontrem novos endereços e outras mãos descubram o prazer de transformar retalhos em uma peça estampada de significado.

A colcha, afinal, nasce da união de fragmentos. E é nessa junção que reside seu encanto: diferentes tecidos são amparados, cores se aproximam, desenhos se completam e, ponto a ponto, nasce uma nova composição.

Oficina “Colcha de Retalho da Vó”

  • Turmas: 30 de setembro, 13 e 15 de outubro
  • Local:  Parque da Cultura – Sala de Leitura
  • Participação: gratuita, com todo o material incluído
  • Inscrições limitadas, pelo link disponível no perfil do Instagram @carlablbortuluzi.