
O Diário de Votuporanga celebra 72 anos preservando a memória de gerações, atravessando transformações tecnológicas, mudanças políticas e desafios econômicos sem interromper a missão iniciada por Nelson Camargo em 1954: contar, diariamente, a história do município.
@caroline_leidiane
Poucos objetos possuem a capacidade de desafiar o tempo como um jornal. Enquanto as notícias desaparecem na velocidade das telas, um exemplar impresso permanece. Envelhece, amarela, mas continua oferecendo ao futuro aquilo que o presente quase sempre perde: contexto, memória e permanência.
É justamente esse patrimônio documental que o Diário de Votuporanga celebra ao completar 72 anos de fundação. Muito antes da internet, dos celulares e das redes sociais transformarem a circulação da informação, o jornal já ocupava lugar cativo nas manhãs dos votuporanguenses.
Ao longo de mais de sete décadas, suas páginas se consolidaram como arquivo vivo da cidade: acompanharam a formação política, econômica, cultural e social, construindo a identidade regional.
Para Danilo Liévana de Camargo, diretor e editor do jornal desde 2005, essa talvez seja a maior herança construída desde 1954: “Nesses 72 anos, a maior contribuição que o Diário pôde dar a esta região foi registrar a sua história, dia a dia, detalhe por detalhe: na política, no esporte, nas questões sociais, nos fatos policiais e em tudo o que aconteceu nessas sete décadas, com o olhar de quem estava presente aos fatos”, afirma.
Essa trajetória começou antes mesmo de existir o Diário de Votuporanga. Nasceu do entusiasmo de um jovem que descobriu no jornalismo não apenas uma profissão, mas uma forma de participar da construção de seu tempo.
O menino que decidiu imprimir o futuro
A origem do Diário de Votuporanga não está entre máquinas de impressão nem sobre mesas de edição. Está em uma sala de aula. Muito antes de fundar um dos mais longevos jornais do interior paulista, Nelson Camargo já experimentava o fascínio pela palavra impressa.
Ainda estudante, criou O Arauto, um jornal escolar que revelava uma inquietação rara para alguém tão jovem: registrar o cotidiano. Era o primeiro sinal de uma vocação que definiria sua trajetória.
A experiência amadureceu rapidamente. Ao lado do amigo Mário Mendes, assumiu o comando de O Município, tradicional periódico de Tanabi, onde permaneceu entre 1949 e 1952.

A passagem pelo semanário lhe proporcionou a experiência necessária para compreender o funcionamento de uma redação, o compromisso diário com a informação e a responsabilidade de transformar fatos em registro histórico.
Depois da venda do jornal, dedicou-se à Gráfica Bandeirantes, especializada na impressão de documentos comerciais. O destino, porém, ainda reservava outro capítulo.
No início de 1954, lideranças políticas de Votuporanga — entre elas Cristóvam De Haro, Gabriel Jabur, Hernani de Matos Nabuco e Vicente Ayres — fizeram um convite que alteraria a história da comunicação regional.
A proposta era transferir a gráfica para o município e fundar um jornal que acompanhasse o crescimento de uma cidade jovem e em franca expansão.
Nelson aceitou o desafio. Em um pequeno barracão nos fundos da Loja De Haro nasceu, em 15 de julho de 1954, A Vanguarda. Dali em diante, cada edição ajudaria a escrever, paralelamente, a história do jornal e da própria cidade.
O nome não foi escolhido ao acaso. Derivado do francês avant-garde, expressão utilizada para designar a linha de frente de um exército, carregava uma ideia que ultrapassava a linguagem militar: estar adiante do próprio tempo.

A publicação surgiu comprometida com a defesa de ideias, o acompanhamento do desenvolvimento de Votuporanga e a compreensão de que o jornalismo deveria caminhar ao lado da sociedade. Essa missão atravessaria gerações.
Nem mesmo os períodos mais delicados da história brasileira interromperam esse compromisso. Durante a Ditadura Militar, a redação passou a conviver com a vigilância do Estado. Antes de cada edição chegar às ruas, um soldado da então Força Pública examinava o conteúdo que seria publicado. Havendo dúvidas, o material seguia para uma instância superior de censura. Foi preciso coragem para informar.
A tecnologia tampouco facilitava o trabalho. Produzir um jornal significava construir cada página manualmente: letras eram organizadas, uma a uma, sobre uma bandeja metálica conhecida como bolandeira, enquanto títulos, subtítulos, linhas finas e textos formavam um quebra-cabeça tipográfico antes da impressão. As fotografias eram raras e dependiam de clichês de zinco.
“Para chegar onde estamos hoje, passamos pelo mesmo formato pelo qual Gutenberg, inventor da prensa, passou. Fomos evoluindo para as máquinas linotypes, que transformavam chumbo em linhas que iam direto para pesadas impressoras. Computador, somente após a década de 90. Aí aderimos à impressão offset e, somente em 2006, entramos na era digital”, recorda Danilo.
Entre manchetes e memórias, uma cidade inteira
Ao longo de sete décadas, o Diário de Votuporanga não se limitou a acompanhar o crescimento do município. Tornou-se testemunha de episódios que ajudam a compreender a formação da identidade votuporanguense.
Suas páginas registraram disputas políticas, transformações econômicas, manifestações religiosas, avanços tecnológicos e personagens que marcaram diferentes gerações.
Em muitos casos, o próprio jornal deixou de ser apenas observador para ocupar lugar central em acontecimentos que hoje pertencem à memória coletiva. Nem sempre esse compromisso com a informação foi confortável.
A defesa de posições editoriais levou o periódico a enfrentar resistências. Em um dos episódios mais emblemáticos, a publicação de reportagens contrárias a uma obra pretendida pela Igreja Católica provocou uma reação pública incomum.
Segundo Danilo, durante uma missa de domingo, diante dos fiéis e da família de Nelson Camargo, o frei Benjamin ergueu um exemplar do jornal no altar em sinal de protesto. O episódio simboliza um tempo em que divergências extrapolavam as páginas impressas e alcançavam o cotidiano da cidade.
Outro acontecimento revela o quanto o jornal esteve presente nas transformações locais.
“O jornal foi palco, em sua redação, da inauguração do primeiro telefone automático de Votuporanga, em maio de 1971. Eu estava lá, tinha 12 anos”, rememora Danilo.
Na política, as páginas do Diário acompanharam disputas que marcaram décadas e ajudaram a definir os rumos da cidade. Uma das mais conhecidas ficou eternizada pelos apelidos criados pelo imaginário popular.
“Existiram rixas homéricas entre Nabuco e Onofre de Paula. Era o ‘Maracujá’ contra o ‘Fubá’, em alusão ao fato de que o governo Nabuco, em administração anterior, havia incentivado a plantação da fruta, que foi um sucesso, e ao ‘Fubá’, em alusão a Onofre, que tinha uma máquina de beneficiamento de milho”, conta o atual editor.
O crescimento de Votuporanga transformou também o ritmo do jornal. Em 1964, o periódico passou a circular diariamente. A cidade se expandia, novos negócios surgiam, a vida pública ganhava intensidade e os acontecimentos já não cabiam na espera de uma edição semanal.
Em 1984, A Vanguarda passou a se chamar Diário de Votuporanga. A mudança ia além de um novo nome: reconhecia um veículo que já fazia parte da história do município.
“Para o jornal, foi uma conquista circular diariamente. A notícia fluía mais rapidamente e trazia, com isso, a discussão entre os dois lados. E isso, que acontece até hoje, trouxe e traz muitos benefícios para a cidade”, descreve Danilo.
O tempo transformou máquinas, processos e o próprio jornal. O maior desafio, porém, surgia silenciosamente dentro da família Camargo. Começava o capítulo em que o maior patrimônio do Diário deixava de ser apenas sua história para se tornar sua continuidade.
O peso do legado e a escolha de permanecer
Há heranças que chegam por documentos. Outras, por escolha. Durante muitos anos, Nelson Camargo imaginou quem daria continuidade ao trabalho iniciado em 1954. A sucessão parecia seguir um caminho natural dentro da família, mas as mazelas da vida alteraram esse percurso.
A morte de Cláudia Liévana de Camargo, em um acidente automobilístico ocorrido em 1987, interrompeu um projeto construído dentro da redação. Dimas Liévana de Camargo, que durante quase duas décadas dividiu com o pai a condução do rádio e do jornal, já acumulava responsabilidades suficientes para manter sozinho as duas empresas. Restava encontrar alguém disposto a assumir uma missão que jamais prometeu estabilidade financeira ou rotina tranquila.
O herdeiro daquele legado construía sua história longe do jornalismo. A rotina era outra, os caminhos eram diferentes, e o Diário parecia fazer parte apenas das lembranças da família. Então, a vida mudou o roteiro.
“Nego, volta para cá. Nós precisamos de você aqui com a gente.”
Convite? Não! Era a responsabilidade de preservar uma história iniciada meio século antes, construída diariamente por jornalistas, gráficos, fotógrafos, entregadores e leitores. Um patrimônio que ultrapassava um sobrenome e pertencia à memória de uma cidade inteira.
Danilo hesitou. Sabia que administrar um jornal diário significava enfrentar dificuldades permanentes, decisões delicadas e uma realidade financeira pouco romântica. Ainda assim, voltou. Encontrou uma redação formada por profissionais que ajudaram a escrever capítulos importantes do jornalismo regional.
O desafio exigia preparação. Aos 50 anos, decidiu prestar vestibular para Comunicação Social na Unifev. Voltou à sala de aula ao lado de colegas três décadas mais jovens, enfrentou as inseguranças do recomeço e transformou o aprendizado acadêmico em complemento à experiência adquirida diariamente com o pai.
Nas aulas de português encontrou o incentivo da professora Olga Balbo Ferreira Fontes; na convivência com Nelson, assimilou ensinamentos que nenhuma universidade seria capaz de oferecer: a percepção da notícia, o rigor editorial e os bastidores de uma profissão construída na prática.
Mas a travessia reservava novas perdas. Primeiro, a morte do pai. Depois, a despedida de Dimas, a quem Danilo se refere como um segundo pai. Coube a ele seguir sozinho na missão que lhe havia sido confiada.
“Eu tinha uma responsabilidade: manter o jornal circulando diariamente, com lucro ou prejuízo. No caso, sempre com a segunda hipótese. Foram 20 anos desafiadores, mas fomos desconstruindo uma estrutura gigante que não suportava mais tamanhas despesas. Inicialmente, desfizemo-nos da gráfica e terceirizamos a impressão. Após a pandemia, época muito sofrida por todos, passamos a operar com colaboradores em home office. Foram medidas que ajudaram a reduzir custos e manter o jornal de pé”, admite Danilo.

A memória que desafia o tempo
São 19.242 edições preservadas desde julho de 1954, formando um dos mais importantes acervos documentais da região. Há apenas uma lacuna: cerca de seis meses sem circulação, consequência do acidente aéreo sofrido por Nelson Camargo, em 1959. Um raro silêncio em uma coleção dedicada a preservar a história.
O próximo desafio de Danilo é digitalizar integralmente esse patrimônio para que pesquisadores, estudantes e futuras gerações tenham acesso gratuito à memória de Votuporanga.
O projeto ainda depende de recursos e parcerias, mas mantém viva a convicção que deu origem ao jornal há 72 anos: preservar a memória também é construir o futuro.
O legado de Nelson Camargo foi eternizado quando o Centro de Convenções de Votuporanga passou a levar seu nome.
“O Carlão Pignatari não imagina o que ele proporcionou à nossa família: colocar o nome de ‘Jornalista Nelson Camargo’ no Centro de Eventos foi a maneira mais digna de perpetuar o nome dele nesta cidade. Ali é um local de cultura, e todo evento que aconteceu, acontece ou ainda vai acontecer, em qualquer divulgação, tem o nome dele presente nas mais diversas mídias e segmentos”, reconhece Danilo.
Ao longo desses 72 anos, o Diário de Votuporanga também foi construído pelas mãos e pelo talento de gerações de jornalistas, fotógrafos, diagramadores, gráficos, colunistas, distribuidores e colaboradores. Pela redação passaram Antônio Carlos Camargo, José Luiz Pavam, Ângelo Sotovia Aranha, Dagmar Azevedo, Harlen Felix, Eliana Marques, Ester Alkimin, Elizandra Manfrin, Leonardo Liévana, Fernanda Ribeiro e Caroline Bianconi. Também deixaram sua marca Marcos Antônio Soares da Silva, o “Marcão”, e seus saudosos irmãos Zezinho e Luizinho, além de Frigo, Paulo Suzuki, Beto Farofa e tantos outros que ajudaram a escrever, dia após dia, a história do jornal.
“A maneira de se fazer jornal diariamente está cada vez mais forte. Agora, a notícia circula imediatamente. Os fatos nunca irão acabar, e os órgãos de comunicação com credibilidade nunca deixarão de existir, seja em papel impresso ou na palma da sua mão, na versão digital. Vale apostar. Que venham mais uns 72 anos!”, comemora Danilo.




