Qual é o papel do papel?

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O curso é dividido em quatro encontros presenciais. Mesmo com as duas primeiras aulas já realizadas, ainda é possível se inscrever e participar das próximas atividades – Foto: Divulgação

Oficina de Chris Jordão transforma fibras descartadas em estruturas escultóricas rendadas, aproxima arte e investigação científica e propõe uma experiência de criação inspirada nas formas da natureza.


@caroline_leidiane

Há um instante em que o papel abandona sua condição de suporte e passa a adquirir corpo e protagonismo. É nesse território de experimentação que se desenvolve o projeto “Biotintas em Relevo: Estruturas Escultóricas Rendadas em Papel”, de Chris Jordão, contemplado pelo Programa Bolsa Cultura 2026, da Prefeitura de Votuporanga por meio da Secretaria de Cultura e Turismo.

O curso é dividido em quatro encontros presenciais, realizados nos dias 29 de agosto, 5 e 12 de setembro e 3 de outubro, sempre das 14h às 17h. Apesar de as duas primeiras etapas já terem ocorrido, ainda é possível participar da formação. A próxima atividade acontece neste sábado (12), na Sala de Oficinas do Parque da Cultura, com proposta que articula arte, matéria, natureza e sustentabilidade. Gratuita, a iniciativa oferece 20 vagas, materiais inclusos, e é destinada a pessoas a partir de 10 anos.

Obras produzidas durante o curso ‘Biotintas em Relevo’, que transforma papel reaproveitado em estruturas tridimensionais inspiradas nas formas, tramas e texturas encontradas na natureza – Foto: Arquivo Pessoal

Artista plástica há sete anos, Chris construiu sua pesquisa a partir de uma trajetória que passa pela investigação de produtos naturais. A convergência entre esses dois campos a conduziu ao estudo de pigmentos naturais, tintas de terra e biotintas — e, posteriormente, às propriedades físicas do papel. Essa busca culminou na análise de fibras, textura, viscosidade, aderência e secagem.

Foi desse percurso que surgiu a possibilidade de converter papéis usados em polpa e, a partir dela, produzir uma espécie de “papel líquido”, cuja consistência permite a extrusão — procedimento pelo qual a matéria é conduzida para formar linhas, desenhos e estruturas. O resultado desloca o papel de sua função convencional e o aproxima da escultura.

“Existe, portanto, uma continuidade entre a pesquisadora e a artista: a pesquisa que antes investigava as propriedades dos produtos naturais passa, no campo da arte, a investigar também as possibilidades poéticas da matéria”, reflete Jordão.

Obras produzidas durante o curso ‘Biotintas em Relevo’, que transforma papel reaproveitado em estruturas tridimensionais inspiradas nas formas, tramas e texturas encontradas na natureza – Foto: Arquivo Pessoal

A própria pergunta que orienta essa investigação sintetiza o ponto de partida do curso: “quando um papel deixa de ser apenas papel?” A resposta não aparece como uma definição pronta, mas como uma experiência prática. Ao ser fragmentado, hidratado e transformado em polpa, o material adquire outra consistência e pode ser extrudado para criar linhas, curvas, ramificações, cruzamentos e tramas. Depois da secagem, a massa ganha corpo e passa a ocupar o espaço.

A proposta, portanto, rompe com a ideia de uma oficina baseada apenas na reprodução de um procedimento. O participante é convidado a examinar o comportamento da matéria e encontrar soluções próprias. O desenho deixa o plano, conquista dimensões e passa a dialogar com os vieses, as transparências, a incidência luminosa e as sombras projetadas pelas estruturas.

“Uma das principais possibilidades é compreender que o próprio material pode conduzir o processo criativo”, destaca a artista.

A metodologia incorpora ainda uma proporção investigativa. Experimentar, testar, errar, reformular e descobrir são etapas que, para Chris, pertencem tanto ao laboratório quanto ao ateliê. A intenção é que a técnica funcione como ponto de partida para diferentes percursos fluidos.

Obras produzidas durante o curso ‘Biotintas em Relevo’, que transforma papel reaproveitado em estruturas tridimensionais inspiradas nas formas, tramas e texturas encontradas na natureza – Foto: Arquivo Pessoal

Natureza como matriz de formas

A observação do mundo natural ocupa lugar central nessa pesquisa. Folhas, raízes, galhos, células, membranas e outros organismos apresentam sistemas de ramificação, repetição, redes e vazios que encontram correspondência nas estruturas produzidas com a biotinta.

Durante o desenvolvimento da oficina, essa aproximação é trabalhada a partir da análise prática do entorno. A proposta incentiva uma caminhada investigativa pelo Parque da Cultura, na qual os participantes registram texturas, relevos e configurações naturais para posteriormente reinterpretá-los por meio da extrusão.

“A intenção não é simplesmente copiar uma folha ou reproduzir uma planta. O que me interessa é compreender a lógica estrutural da natureza: como uma linha se bifurca, como uma trama se organiza, como repetição e irregularidade convivem e como o vazio também participa da forma”, explica Chris sobre a dinâmica.

Quando essas construções encontram a luz, uma nova camada se incorpora à experiência visual. As sombras projetadas deixam de ser mero efeito circunstancial e passam a participar da composição, ampliando a relação entre matéria, espaço e luminosidade.

“Há uma frase que acompanha essa minha pesquisa e sintetiza essa relação: ‘Quando a luz encontra a matéria, a sombra se derrama’”, cita ela.

Do descarte à matéria escultórica

O papel reaproveitado acrescenta ao projeto uma dimensão ecológica que não aparece como ornamento conceitual, mas está incorporada ao próprio método de criação. Materiais que poderiam ser descartados são desfeitos, reprocessados e convertidos em matéria-prima para novas formas.

A abordagem estabelece diálogo com a Arte Povera, movimento artístico surgido na Itália na segunda metade da década de 1960. O termo, que pode ser traduzido como “arte pobre”, não se refere necessariamente à pobreza econômica, mas à escolha deliberada de materiais simples, cotidianos, naturais ou não convencionais, em contraposição aos elementos tradicionalmente associados ao circuito artístico.

Na pesquisa de Jordão, essa aproximação aparece justamente no deslocamento do papel: aquilo que perdeu seu valor de uso pode adquirir outra existência por meio do fazer artístico. O material passa a ser percebido não pelo que foi, mas pelo que ainda pode se tornar.

“Quando transformamos um material descartável em matéria escultórica, começamos também a fazer perguntas: o que consideramos resíduo? Por que determinados materiais perdem seu valor? O que pode ser reaproveitado? E o que pode ser arte?”, indaga.

A reflexão amplia o alcance da oficina para questões relacionadas ao consumo, ao descarte, à sustentabilidade e à maneira como a sociedade atribui valor aos objetos. Ao mesmo tempo, introduz uma abordagem sobre os próprios limites da linguagem artística.

Chris Jordão ministra o curso “Biotintas em Relevo”, que transforma papel reaproveitado em estruturas escultóricas e rendadas por meio de técnicas de extrusão, em uma experiência que aproxima arte, natureza e sustentabilidade – Foto: Arquivo Pessoal

Agentes multiplicadores

De acordo com Chris, a dimensão formativa do projeto ultrapassa o domínio de uma técnica específica. A intenção é estimular nos participantes uma postura de investigação diante dos materiais e, indiretamente, formar agentes multiplicadores, capazes de levar adiante a técnica experimentada durante a oficina e ampliar sua circulação.

Essa perspectiva aproxima o ensino artístico de uma prática de autonomia: em vez de entregar um resultado previamente determinado, o curso dispõe de ferramentas capazes de aguçar, no integrante, a desenvoltura para criar suas próprias alternativas.

“Eu não quero que o participante saia do curso apenas sabendo reproduzir uma receita de biotinta. Quero estimular curiosidade, autonomia, investigação e questionamento”, afirma.

A artista espera que esse deslocamento produza uma mudança na percepção cotidiana. Um papel que seria destinado ao descarte passa por sucessivas transformações até converter-se em fibra, massa, linha, trama e escultura. Nesse processo, a matéria deixa de ser algo estático e passa a conceber um campo de possibilidades.

“A pergunta deixa de ser apenas ‘como eu faço isso?’ e passa a ser: ‘o que mais esse material pode se tornar?’”, pontua.

Ao término do projeto, as estruturas tridimensionais produzidas na oficina por Chris Jordão e pelos participantes deverão integrar uma exposição aberta ao público, apresentando os resultados do processo e tornando visível uma investigação construída coletivamente. A artista ainda articula a realização da mostra junto à Secretaria Municipal de Cultura e Turismo.

Em síntese, a ela resume a concepção do projeto na seguinte reflexão:

“Transformar a matéria é também transformar o olhar.”

Curso “Biotintas em Relevo: Estruturas Escultóricas Rendadas em Papel” com Chris Jordão

  • Data: 12 de setembro, das 14h às 17h
  • Local: Sala de Oficinas do Parque da Cultura
  • Formulário de inscrição: forms.gle/usfsaq3fKyEybRej9
  • Atividade gratuita